Há dez anos, após décadas de alertas da comunidade científica, as nações firmaram o Acordo de Paris com um compromisso histórico: limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2°C, buscando 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Não era uma meta simbólica, mas um limite considerado essencial para evitar impactos irreversíveis sobre ecossistemas, economias e sociedades.
Uma década depois, o balanço é preocupante. As emissões não caíram no ritmo necessário, a transição energética avança de forma desigual e os anos recentes estão entre os mais quentes já registrados. O que antes era projeção tornou-se experiência concreta.
O debate climático deixou os centros de pesquisa e passou a integrar o cotidiano das cidades. Em alguns municípios, as ilhas de calor tornaram-se mais evidentes. A expansão urbana, a impermeabilização do solo e a redução de áreas verdes elevaram as temperaturas, com verões acima de 35°C mais frequentes e noites mais quentes devido ao acúmulo de calor no asfalto e no concreto. A falta de planejamento climático amplia os efeitos do aquecimento global, aumentando o consumo de energia, piorando a qualidade do ar e impactando a saúde pública.
No plano nacional, os sinais são contundentes. A Amazônia desempenha papel central na regulação das chuvas da América do Sul e se aproxima de um possível ponto de não retorno, caso o desmatamento atinja níveis críticos. Secas severas e recordes de temperatura já afetam a região, e há indícios de redução na capacidade de absorção de carbono.
Eventos extremos tornaram-se mais frequentes. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul, em 2024, mostraram chuvas intensas concentradas em curtos períodos, com enormes prejuízos sociais e econômicos. Ondas de calor acima de 40°C atingem diferentes estados, pressionando os sistemas de saúde. No Pantanal, incêndios devastam áreas extensas; no Nordeste, a aridez avança, afetando a agricultura e a segurança alimentar.
Os impactos alcançam a economia. A dependência de hidrelétricas torna o país vulnerável à irregularidade das chuvas.
Safras sofrem perdas mais constantes e a infraestrutura urbana, pensada para o clima do século XX, revela-se insuficiente.
O aquecimento global não é apenas questão ambiental, mas fator de reorganização econômica e social. Afeta preços de alimentos, exige investimentos em adaptação e redefine prioridades públicas. O Brasil, com vastos recursos naturais e potencial em energias renováveis, pode liderar uma agenda sustentável, mas também é altamente vulnerável às mudanças climáticas.
Por isso, o tema não pode ser periférico no debate eleitoral. Combater o desmatamento, fortalecer a fiscalização, ampliar energias limpas e adaptar cidades são escolhas estratégicas. O enfrentamento da crise climática exige coordenação entre os entes federativos, planejamento de longo prazo e compromisso contínuo.
Ignorar a realidade não a fará desaparecer. Reconhecê-la é o primeiro passo para agir com responsabilidade. O desafio climático tornou-se um teste de maturidade política e civilizatória.
Miguel Haddad é ex-prefeito de Jundiaí