25 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

O futuro das lesões medulares


| Tempo de leitura: 3 min

É com muita alegria que escrevo para vocês sobre o feito da bióloga e pesquisadora brasileira que pode mudar a forma como enxergamos as lesões da medula espinhal. Neste artigo quero facilitar o entendimento do que aconteceu, como aconteceu e por que essa cientista vem obtendo resultados tão promissores em suas pesquisas. Afinal, quando
falamos em regeneração neural, estamos falando de algo que durante décadas foi considerado impossível pela medicina.

Para que possamos entender a importância dessa descoberta, precisamos começar
do início. A medula espinhal funciona como uma grande via de comunicação entre o cérebro  e o corpo. É ela que transmite os comandos para que possamos andar, movimentar os braços, manter o equilíbrio ou até mesmo sentir o toque e a dor. Quando essa estrutura sofre uma lesão, como em acidentes ou traumas, essa comunicação é interrompida. O cérebro continua enviando os comandos, mas eles não conseguem mais chegar até os músculos.

É  justamente por isso que pessoas com lesão medular podem perder movimentos  e sensibilidade abaixo da região afetada, mas por que a medula espinhal não se regenera como outros tecidos do corpo? A resposta está no ambiente onde as células nervosas vivem. Diferente da pele ou do músculo, que possuem um ambiente favorável à cicatrização, o sistema nervoso central tem uma capacidade regenerativa muito limitada na vida adulta. Os neurônios lesionados encontram dificuldade para crescer novamente e, principalmente, para se reconectar.
Curiosamente, durante a vida embrionária isso não acontece. Quando ainda estamos nos formando dentro do útero, o sistema nervoso cresce de maneira intensa. Os neurônios estão constantemente criando novas conexões, formando redes que permitirão todos os nossos movimentos no futuro. Nesse período existe uma proteína chamada laminina que atua como uma espécie de guia biológico.

Podemos imaginar os neurônios como fios tentando encontrar o caminho certo para se conectar. A laminina funciona como uma estrada que orienta esse crescimento, organizando o ambiente ao redor das células nervosas e facilitando a formação dessas conexões. Um fato curioso é que a estrutura da molécula da laminina, quando observada sob microscópio,   tem um formato que lembra uma cruz, um crucifixo. Não há como não unir a biologia com a fé neste caso.

Com o passar dos anos, essa proteína vai diminuindo no organismo. E isso ajuda a explicar por que, após uma lesão medular na fase adulta, os neurônios não conseguem mais encontrar o caminho para se reconectar. Foi a partir dessa observação que a bióloga brasileira Tatiana Lobo Coelho de Sampaio iniciou uma linha de pesquisa que já dura quase três décadas. Sua pergunta era simples, mas revolucionária. E se fosse possível recriar esse ambiente favorável ao crescimento neural dentro da medula lesionada?

A resposta veio com o desenvolvimento da polilaminina, um biofármaco inovador produzido a partir da placenta humana, que funcionou como uma ponte microscópica para estimulação dos neurônios. Trata-se de uma molécula criada em laboratório a partir da proteína laminina, capaz de formar uma estrutura tridimensional semelhante àquela presente durante o desenvolvimento embrionário.

Quando aplicada diretamente na região lesionada da medula espinhal, essa estrutura funciona como um suporte biológico. Ela reorganiza o ambiente ao redor dos neurônios danificados e cria novamente as condições necessárias para que eles possam crescer e estabelecer novas conexões.

Em termos simples, a polilaminina não substitui as células nervosas. Ela não regenera diretamente o tecido. O que ela faz é permitir que o próprio corpo volte a realizar um processo que já sabia fazer no início da vida, que é reconstruir suas conexões neurais.

Estudos iniciais com essa abordagem já demonstraram recuperação parcial de movimentos
em pacientes com lesão medular, indicando que a modulação do ambiente celular pode ser um dos caminhos mais promissores da medicina regenerativa. Talvez o futuro da medicina não esteja apenas em combater doenças, mas em recriar as condições necessárias para que o próprio corpo volte a se reorganizar. Os resultados foram maravilhosos nesta fase 1 de testes, e esperamos que a eficácia da polilaminina perpetue. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo. Pioneira do método ELDOA no Brasil