04 de março de 2026
OPINIÃO

O mito do ano que só começa agora


| Tempo de leitura: 3 min

Caro leitor, existe um fenômeno sociológico, quase místico, que desafia os calendários gregorianos e as planilhas de produtividade: o ano brasileiro. Enquanto o resto do mundo já esgotou suas promessas de Ano Novo e provavelmente já desistiu da academia em fevereiro, o brasileiro vive em um estado de suspensão.

Por aqui, o dia 1º de janeiro é apenas um "pré-aquecimento". O verdadeiro réveillon, o grito de "agora vai", só ecoa quando o último confete é varrido da Sapucaí ou do circuito Barra-Ondina. Dizer que "o ano só começa depois do Carnaval" não é apenas uma desculpa para a procrastinação; é um contrato social não escrito.

É o período em que o país opera em modo de espera. As decisões importantes são adiadas com um sorridente "falamos depois da folia", e os projetos ficam hibernando sob o sol escaldante do verão. É como se vivêssemos um prolongado domingo de janeiro que se estende até a Quarta-feira de Cinzas.

Por que fazemos isso? Talvez seja uma estratégia de sobrevivência emocional. O Brasil é um país de contrastes e desafios hercúleos. Precisamos desse hiato, dessa "fenda no tempo", para acumular o fôlego necessário para encarar os boletos, a política e a labuta diária. O Carnaval funciona como um rito de passagem, uma catarse coletiva onde as hierarquias se dissolvem e a alegria é a única moeda corrente. Somente após esgotar todas as energias na avenida ou nos blocos de rua é que nos sentimos purificados para enfrentar a realidade.

Há algo de poético nessa teimosia cronológica. Enquanto o hemisfério norte inicia o ano sob o frio e a introspecção do inverno, nós o iniciamos no ápice do calor, sob o signo do Micmovimento. O "ano útil" brasileiro não nasce no silêncio, mas no batuque.

Caro leitor, a Quarta-feira de Cinzas é o nosso verdadeiro despertar. É o dia em que o Brasil tira a fantasia, limpa o glitter do rosto e olha para a mesa de trabalho. De repente, as agências bancárias abrem ao meio-dia como quem diz: "Acabou a brincadeira". Os e-mails que estavam "em standby" começam a apitar, as matrículas se confirmam e as metas do primeiro trimestre — que já está quase no fim — tornam-se urgentes.

É uma ressaca que vai além do físico. É uma ressaca existencial. Olhamos para o calendário e percebemos que o ano já consumiu dois de seus doze meses, mas, para nós, a folha em branco está sendo entregue agora. Existe um certo desespero produtivo que toma conta das empresas e dos lares: precisamos fazer em dez meses o que o mundo faz em doze.

No fundo, essa peculiaridade brasileira revela nossa resiliência. Começar o ano "atrasado" e ainda assim fazer as engrenagens girarem é uma arte. Se o ano começa agora, que comece com a energia de quem sabe que a vida é curta demais para não ser celebrada antes de ser trabalhada.

O café parece mais forte na manhã de quinta-feira. O planejamento, agora, é para valer. Adeus, serpentina; olá, planilha. O Brasil, finalmente, declarou aberto o seu ano. Prepare o fôlego, porque daqui até o próximo dezembro, a marcha é acelerada. Pense nisso !

Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de  Neuropsicanálise