21 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Fluxo de energia, refluxo de atitude


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Mesmo deitada com a cabeceira da maca elevada, passados alguns instantes, os sintomas vieram fortes. A paciente começou a se contorcer de dor e incômodo provocado pelo refluir ácido do estômago, através do esôfago, chegando como uma “queimação” ácida na boca.

Em meio uma careta e outra, falou: “Parece que o meu estômago não estudou os livros de medicina que vocês estudaram, não é?”.

- “Não” – disse eu – “parece que ele esteve ausente nesta aula” – emendando com um sorriso para disfarçar o que não era nada confortável de se ver.

Ela era uma paciente sofrendo de vários problemas de digestão, com vários sintomas incontroláveis, apesar de estar tomando três remédios dos mais modernos para isso. Fazia dieta de forma rigorosa, acompanhada com uma nutricionista e tomava dois ou três suplementos antioxidantes.

Acontece que ela não melhorava. Os sintomas de refluxo continuavam intensos, ainda que tenham mudado um pouco de horário ou frequência, depois do tratamento de meses. Fora encaminhada para minha avaliação pois, como ela mesmo descrevera irônica, os colegas médicos estavam sem outros recursos para lhe oferecer.

O mais desconcertante é que os exames gástricos e gerais mostravam somente uma pequena gastrite, sem outras lesões ou problemas. Não era para ela estar se sentindo tão incomodada a ponto de não conseguir se deitar para descansar em paz. Queixava que acordava a noite se sentindo um “dragão cuspindo fogo” de algo que não lhe descia bem. No entanto, ela já tinha por hábito não comer por horas antes de se deitar.

Aparentemente um mistério.

Bom, uma coisa é aplicar protocolos baseando-se em exames objetivos e outra é tratar pessoas de carne e osso.

Sintomas são manifestações de seres “inteiros”, compostos de mente e corpos depositários de dores, crenças, conhecimentos e lealdades que são mais antigas que o próprio indivíduo em si: são heranças de histórias de sobrevivência de grandes famílias, aprendidas “na pele” e passadas adiante.

Dentro da minha visão, estes conhecimentos estão preservados não só nos genes, mas no tecido corporal total, nas fáscias, tendões e músculos, que são capazes de se moldarem de forma a armazenar emoções em forma de energia elétrica e mecânica. A acupuntura é uma das técnicas capazes de manipular este “arquivo” corporal e liberar essa energia acumulada.

Por vezes, este conhecimento não é consciente. Ele pode manifestar-se como sensações e comportamentos no nosso dia a dia que, sendo desagradáveis, costumam ser chamados de sintomas e rotulados em uma doença, transformando-se em alvo de trabalho médico e terapêutico.

A solução para essa paciente não estava em tentar reduzir o nível ácido do seu estômago, mas em “circular” uma energia com sabor de contrariedade com a qual era obrigada a conviver no seu relacionamento profissional com uma colega. Na sua concepção, a situação era produto de uma falha sistemática e injusta da liderança do departamento, resultando em uma postura simplesmente “impossível de engolir” – foram estas as palavras dela, depois de algumas sessões de tratamento.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia