05 de março de 2026
OPINIÃO

Fermento de Herodes


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No Evangelho de São Marcos (8, 15), em que Jesus se encontra com os discípulos, Ele os adverte dizendo “Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”.

Em sua homilia, a respeito deste Evangelho, o Padre Félix Xavier da Silveira, na última terça-feira no Carmelo São José, comentou que, ao aceitarmos o fermento dos fariseus e de Herodes, vamos endurecendo o coração. Se qualquer coisa nos ameaça, reagimos sem compaixão.

Acompanho horrorizada os relatos sobre o pedófilo e traficante sexual Jeffrey Epstein e aqueles que se uniram a ele. Com a ajuda da namorada Maxwell, montou uma rede de tráfico sexual para abusar de centenas de garotas e colocá-las à disposição de poderosos nos Estados Unidos e no exterior.

Segundo André Peres Dourado, em seu Instagram, o Brasil foi a maior fonte de tráfico transnacional de sua rede com mais de 70 vítimas. É lógico que ele possuía uma equipe. O curandeiro brasileiro João Teixeira de Faria, condenado a 99 anos por agredir sexualmente centenas de mulheres e meninas, no depoimento das vítimas expuseram uma horrível “fazenda de bebês”: engravidar as meninas escravizadas e vender recém-nascidos no exterior.

De acordo com os documentos, quando Epstein estava a serviço no Brasil, “uma agente” conseguia garotas menores de idade para ele.

A dimensão atual do escândalo vem das revelações de nomes conhecidos internacionalmente, que se utilizavam do que Epstein oferecia.  Empresários, políticos, celebridades, sedentos de carne humana infantojuvenil para saciar seus apetites.

As vítimas, como sempre acontece, são em maioria filhas de vulnerabilidade social.

Não me esqueço do cidadão reconhecido como benemérito, do lado de cá, que presidia um orfanato e, quando a esposa estava fora, levava uma delas para fazer “limpeza” em sua casa. Oferecia-as também para amigos seus. Encontrei-as, mais tarde, fazendo trottoir no centro da cidade. Quantos não as julgaram, enquanto aplaudiam o trabalho do afamado indivíduo.

Recordo-me da nissei de cinco anos, em uma cidade do Nordeste, que iria a leilão em uma boate aos dez anos. Segundo me disseram, não havia possibilidade de fazer alguma coisa porque o dono do local era autoridade.

Um grupo de nove especialistas independentes da Organização das Nações Unidas (ONU), em matéria publicada no Correio Braziliense, disseram que “A escala, a natureza, o caráter sistemático e o alcance transnacional dessas atrocidades contra mulheres e meninas são tão graves que várias delas podem, razoavelmente, atingir o limiar legal de crimes contra a humanidade”.

Por que será que, além de Maxwell, ainda não estão presos aqueles que protegiam Epstein e os que abusaram de menores de idade oferecidas por ele? Isso sem falar no canibalismo. E, infelizmente, é sempre assim,

Antes que me esqueça, e a rede de tráfico de meninas nas rodovias federais brasileiras?

As meninas e as mulheres continuam sendo vítimas dos que usam o fermento dos fariseus e de Herodes, são ignorados pela lei e desconhecem o que é compaixão.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista