Há quem queira impedir a volta de um determinado grupo ao poder, ainda que esse grupo venha na pele de cordeiro, na figura de determinado político. De outro lado, há quem veja outro grupo político como a encarnação persistente do agarramento ao poder, vê como grupo errado na política e quer afastá-lo do poder.
As grandes urgências nacionais como segurança pública, crescimento, educação, pobreza, meio ambiente cedem lugar àquilo que hoje enche nossos olhos: Evitar que o "outro lado" ameace a nossa existência ou, ainda, a ordem institucional.
Exemplos ajudam: em 1989, Collor encarnou a promessa de resolver por fora o que a política não conseguia resolver por dentro: cortar marajás, modernizar o Estado, varrer privilégios. Era a política como vilã e "Não a política como remédio".
Em 1994 a 2002, a agenda foi material e, nitidamente, o controle da inflação e a responsabilidade fiscal foram os eixos centrais da política econômica – Fernando Henrique Cardoso (FHC) parecia certo para a missão.
Em 2002 a 2010, a "questão social" organizou as prioridades nacionais, e Lula ofereceu biografia e discurso ajustados à missão de enfrentar a miséria, desigualdade e desemprego.
Em 2010, Dilma vendeu competência de gestão e continuidade das políticas sociais. Em 2016, com o impeachment dela e com a posse de Temer, a expectativa pública majoritária recaiu sobre "as reformas de que o Brasil precisava", dizia-se em retorno clássico ao ciclo material, ainda que por via do que foi, de fato, uma eleição indireta.
A partir de 2018, a antipolítica e o antissistema dominam a pauta - mesmo que tudo isso tenha sido produzido por políticos inexpressivos do cenário político nacional - nem se tratava de "outsider", era o baixo clero mesmo.
Era a ideia de corrigir a política por choque. A política entrou no roteiro não como solução, mas como vilã.
De 2020 para cá, a política, que deveria ser o instrumento para resolver problemas, passou a ser considerada o principal problema a ser reparado. Quando a política passa a se ocupar de si mesma, dificilmente se ocupa de outra coisa.
A teoria da "agenda setting" ajuda a entender o mecanismo: eleições se decidem quando uma narrativa vence a disputa sobre qual é o problema mais importante do país, para o estado ou para o seu município. Apesar de tudo, o voto tem consequência.
A partir daí, os eleitores escolhem quem parece mais capaz de enfrentá-lo.
A partir da redemocratização existem dois ciclos:
1. Material - elegemos quem parece mais apto a resolver problemas concretos.2. Político - votamos para neutralizar um risco trazido pela própria política.
Em 2022, o plebiscito girou o tabuleiro: votou-se para conter o estilo autoritário e inepto. Era necessário recuperar a normalidade institucional. Em ambos os casos decidiu-se contra alguém, não por um caminho - é o chamado voto preventivo.
A agenda material deu lugar à política. O problema passou a ser o próprio sistema público, seus atores e seus modos de operar. O voto deixou de responder à pergunta “quais problemas a política resolverá?” e passou a responder "como impedir que eles governem? Determinada política, determinados partidos são o mal maior a ser afastado.
Em 2026, o que se desenha é mais plebiscito defensivo - o medo do outro lado - não uma escolha sobre como enfrentar os problemas que aguardam sua vez de serem resolvidos.
O curioso é que os ciclos, em que elegemos a quem parece mais capaz de enfrentar problemas reais - inflação, desemprego, desigualdade, saúde, crise fiscal e outros - costumam gerar governos de resultados. Já os ciclos, em que elegemos para punir a política ou para nos proteger de determinados políticos, terminam, invariavelmente, em frustração e em retrocesso.
Enquanto a política continuar sendo considerada o principal problema nacional, nenhuma eleição servirá para resolvê-lo.
Oswaldo Fernandes foi secretário de Educação de Jundiaí