15 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Feriados versus produtividade


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Estamos vivenciando o Carnaval, a maior festa popular de nosso país, primeiro “feriadão” de 2026, cujo calendário brasileiro promete pausas generosas e pontes com os finais de semana. Para quem olha apenas a agenda pessoal, o ano novo é como um presente, pois terá dez feriados nacionais, nove deles em dias úteis e sete caindo em segundas ou sextas-feiras. É um roteiro a contento para descansos prolongados. Para a economia, porém, trata-se de um sinal de alerta.

O custo das folgas é conhecido e mensurado. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que cada feriado reduz, em média, 1,29% da rentabilidade anual do varejo. Supermercados, hipermercados e concessionárias de veículos sentem o impacto de maneira mais aguda. Em anos com grande concentração de feriados em dias de semana, a perda pode alcançar 9% do resultado operacional das lojas.

Segundo estudos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a questão ganha escala mais grave no setor. Em determinados anos, a soma de feriados e pontos facultativos gerou prejuízos superiores a R$ 50 bilhões apenas na indústria de transformação. Máquinas paradas, quebra de ritmo das linhas produtivas contínuas, custos de religamento, perdas de eficiência energética e reprogramações logísticas entram nessa conta. São ônus raramente considerados por quem defende mais dias de descanso ou jornadas menores como solução simples para o bem-estar coletivo.

Pois bem, 2026 será um desses anos críticos, pois a portaria sobre o calendário publicada no Diário Oficial da União assusta quem se preocupa com o caixa das empresas, a produtividade e a necessidade de o Brasil ascender ao patamar das nações de renda alta. Além de datas clássicas como o Dia do Trabalho, numa sexta-feira, e a Independência, numa segunda, há feriados que suscitam emendas, como o de Tiradentes, numa terça-feira. Com apenas uma folga adicional, essas datas transformam-se em fins de semana prolongados. Se esse comportamento repetir-se, como costuma acontecer nessas ocasiões, até nove feriados nacionais podem acabar emendados este ano.

Somam-se a isso os pontos facultativos, como Carnaval e Corpus Christi, que na prática funcionam como feriados, embora não sejam em termos formais. O primeiro ocupou três dias úteis consecutivos e paralisou atividades muito além do setor público. Estados e municípios ainda acrescentam suas próprias datas, como aniversários de cidades e celebrações religiosas. No agregado, o número de dias de trabalho “sob risco” de paralisação ultrapassa facilmente a casa dos dez.

É verdade que o Brasil não figura entre os campeões mundiais de feriados. Ainda assim, estamos acima da média da OCDE, cujos membros são países que, em sua maioria, já alcançaram níveis mais altos de renda, produtividade e organização do trabalho. Lá fora, o debate sobre descanso costuma vir acompanhado de ganhos claros de eficiência.

Aqui, ocorre o inverso: mais interrupções convivendo com produtividade estagnada e baixa, o equivalente a um quarto do índice dos Estados Unidos, por exemplo.

Nada disso significa demonizar feriados ou negar a importância do descanso. O problema está no desequilíbrio. Em um país que luta para crescer de modo sustentado, gerar empregos e incrementar a competitividade, tratar o calendário como se fosse neutro na agenda do desenvolvimento é um luxo que não cabe mais. Cada feriado e a soma de dias parados ao longo do ano pesam muito no faturamento das empresas, na arrecadação, nos investimentos e no potencial de crescimento econômico.

Talvez esteja na hora de olhar o calendário anual de um modo mais pragmático e alinhado à nossa realidade. Não temos produtividade que nos permita exageros em feriados e emendas de dias sem trabalho. Afinal, até o tempo parado tem custo alto em nosso país.

Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).