12 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Antonia Melo da Silva


| Tempo de leitura: 3 min

Os Anjos vieram buscar minha querida Da. Antonia Melo da Silva.Encontrei-a em 2005, no Jardim Novo Horizonte, assim que foi instalada a Casa da Fonte, por iniciativa da Companhia Saneamento de Jundiaí – CSJ. Tornamo-nos próximas desde aquela época, mesmo depois de sua mudança de bairro.  Uma querida de sangue indígena de Pernambuco; indígena com o perfil como escreveu Gonçalves Dias em Canção do Tamoio: “Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida: Viver é lutar. /A vida é combate, /Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos, /Só pode exaltar. / (...) Sê bravo, sê forte!” Criou sozinha os filhos. Amava os netos e bisnetos.

Gostava demais de ouvir suas histórias do passado e do presente. Quando chegou em Campinas, vinda do Nordeste, morou com o companheiro debaixo de uma torre antiga de água. Fecharam os lados com papelão. Ela ia a um convento distante com uma lata de 20 litros para pegar água. Era recebida com carinho por uma religiosa muito bonita segundo ela, como as Carmelitas. Disse-me, mês passado, que em breve iria vê-la. Com ela aprendeu a devoção a Nossa Senhora Aparecida. Testemunhou-me uma graça recebida 20 minutos depois de acender uma vela, pedindo a intercessão da Padroeira do Brasil.

Mulher de fé. Heroína da fé, pois, apesar das dificuldades tantas, jamais deixou de crer. Repetia que Deus sempre a honrara.

Não a vi, em momento algum, desde que a doença foi detectada, questionar o Senhor. Entregou-se ao tratamento sofrido, mas na certeza de que Deus estava de mãos dadas com ela. Na vivência de sua fé, rezava sempre e, em especial, pelos de “coração peludo” que não sabiam perdoar. Lamentava, sem destruí-los.

Conheceu o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia no ano passado, e ele se encantou pela Da. Antonia e sua fé. Pediu a ele o Batismo para um bisneto, o que aconteceu há um mês. Ao saber de sua partida, ele me escreveu: “Uma coisa fica no meu coração: até o fim, Dona Antônia foi sal da terra e luz do mundo.

Quem está com as mãos dadas com Deus, mesmo no sofrimento, é feliz. Dona Antônia é uma prova disso. Ela continuará sendo esse grande aceno de Eternidade”.

Da. Antonia contou-me que, quando trabalhava em uma pensão em São Paulo, em troca de comida e pousada para os filhos e ela, o dono de uma concessionária apaixonado a pediu em casamento, mas sem os filhos.  A dona da pensão que a tratava como Sinhazinha, disse-lhe que perdera uma grande oportunidade, pois o indivíduo era endinheirado. Respondeu que sua riqueza maior eram os filhos. Jamais os abandonaria.

Suas mãos eram plenas de vida: aquilo que plantava nascia.

Ela me faz lembrar a música “Canção para Meu Deus” do Padre Zezinho: “O orvalho da manhã criança/ Me fala do meu Deus. (...) Minha vida uma canção ensina/ A canção que eu fiz para meu Deus”.

Sentirei muita saudade dela e de suas mensagens diárias. Já sem abrir os olhos e falar, ficou, no hospital, de mãos dadas comigo, poucas horas antes de receber os Anjos.

Deixou-me uma experiência forte de Deus e a confirmação do que Ele me pede.

Ouvirei sua voz, da fortaleza e da doçura, quando o vento mover, com delicadeza, as pétalas das orquídeas.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista