11 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Escrever com habilidade humana


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Escrever está se tornando uma habilidade rara e preciosa. O Brasil possui 71% da população considerada alfabetizada funcional, ou seja, pessoas que leem textos básicos e entendem gráficos, tabelas e informações simples do cotidiano. E temos 29% que estão entre analfabetos ou com alfabetização rudimentar, segundo o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf).

Contraditoriamente, o crescimento da utilização das ferramentas de IA é avassalador. Uma pesquisa de 2025 da Wiley informa que 84% dos pesquisados já utilizam IA para a escrita e 85% deles, relatam “aumento de eficiência, bem como da produtividade em vários cenários, mas também riscos cognitivos e estratégicos quando há dependência excessiva.” As pesquisas científicas também estão sendo delegadas para IA. Embora as máquinas ainda estejam aprendendo com os humanos e, muitas vezes, apresentem respostas sem sentido sobre fatos muito recentes ou específicos, a tendência é de que as ferramentas fiquem cada dia mais precisas e com menor índice de erro, mostra o relatório IA Generativa e as notícias 2025 (PDF – 5 MB), divulgado pela Reuters.

A IA está mudando o padrão de escrita global. Estudos mostram que sua utilização aumenta a clareza e a concisão, aproxima o estilo de iniciantes ao de especialistas. Nos negócios, tem auxiliado a padronizar a escrita corporativa e deixar a comunicação mais uniforme entre times globais.

Compreender a importância da escrita é fundamental para o desenvolvimento humano, pois ele organiza o pensamento, dá forma às emoções, compartilha e transforma conhecimento. É uma das bases da memória coletiva, da identidade cultural e da evolução das sociedades.

Enquanto a escrita se torna mais rara como competência humana profunda, ela se torna mais abundante como produção assistida por máquinas. Ou seja, quanto menor o domínio estrutural da escrita por parte da população, maior tende a ser a dependência de tecnologias que escrevem. Isso desloca a escrita de habilidade cognitiva para infraestrutura tecnológica — e é exatamente nesse ponto que surge o papel crítico da humanização dos modelos de linguagem.

A produção textual de modelos de linguagem estão se tornando mais do que ferramentas. São mediadores de conhecimento, tomada de decisão e comunicação organizacional. A IA está sendo treinada a partir de avaliações humanas sobre qualidade, utilidade, ética e coerência das respostas. Em termos simples, é o mecanismo que aproxima a linguagem da máquina à lógica humana de interpretação, contexto e intenção comunicacional, chamado de RLHF — Reinforcement Learning from Human Feedback (Aprendizado por Reforço a partir do Feedback Humano).

Sem esse tipo de treinamento, LLMs tenderiam a produzir textos tecnicamente corretos, porém frios, descontextualizados ou até estrategicamente inadequados para situações reais de negócio, liderança ou relacionamento humano.

O futuro da escrita, portanto, não será apenas sobre escrever melhor. É sobre saber orientar sistemas inteligentes a escreverem melhor, mantendo a intencionalidade humana no centro da comunicação.

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação