15 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Entre a estante e o esquecimento


| Tempo de leitura: 2 min

Nesta semana, recebi e-mails de alguns amigos que estavam se desfazendo de suas bibliotecas pessoais. A pergunta era simples: para quem doar os livros? Não soube responder. Fiquei constrangido de sugerir a reciclagem. Seria trair algo que sempre considerei sagrado.

Isto trouxe à memória o encerramento das atividades do Gabinete de Leitura Rui Barbosa, o ano passado. Naquele momento, a maior dificuldade foi decidir o destino do acervo. Construída ao longo de décadas, a biblioteca reunia um volume expressivo de obras, com temas variados, moldados pelas demandas dos associados nas décadas de 1950 e 1960, um tempo em que poucas casas possuíam estantes de livros, e comprar um exemplar não estava ao alcance de todos. As bibliotecas pessoais tinham um papel importante.

A diretoria optou por leiloar a parte mais valiosa do acervo e colocar o restante à venda por preços simbólicos— eu comprei alguns. Mas a maioria permaneceu nas prateleiras. Tentou-se doá-los às bibliotecas da cidade, sem sucesso: o volume era grande e os temas, pouco compatíveis com as demandas atuais. Sebos também recusaram, alegando excesso de doações e falta de espaço. Até hoje não sei ao certo qual foi o destino do acervo.

Lembrei-me também do período em que estive como Secretário Municipal de Educação. Era comum chegarem à biblioteca da Secretaria veículos carregados de livros a serem doados por famílias que estavam “limpando a casa”. Na maioria das vezes, não aceitávamos as doações, o que gerava indignação dos doadores. Mas a verdade é que muitas obras não se ajustavam mais às necessidades das escolas e não havia espaço físico para recebê-las.

As gerações atuais já não cultivam o hábito de manter bibliotecas pessoais. Seja pelo desinteresse, pela redução dos espaços nas residências ou pela sua substituição pelos livros digitais, o livro físico não ocupa mais o mesmo lugar de destaque de antes. Não desapareceu — mas tornou-se um objeto sem lugar definido.

No meu caso, a relação com os livros é afetiva. Embora tenha me desfeito de parte da minha biblioteca, ainda preservo a maioria dos livros. Cada exemplar guarda uma memória: o momento em que foi comprado, o tempo em que foi lido, o significado que teve, quem eu era naquela fase da vida. Ao retirar um livro da estante, não revisito apenas um texto, mas um pedaço da minha própria história. Desfazer-me deles seria como deixar que uma parte de mim fosse embora junto.

Por enquanto, meus  livros seguem ocupando suas prateleiras. Um dia, caberá aos meus filhos decidir o que fazer com eles. Talvez enfrentem a mesma pergunta: o que fazer com livros físicos em um mundo que parece já não saber muito bem para que eles servem?

Francisco Carbonari é ex-secretário de educação de Jundiaí