25 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Ele nadou 4 horas para salvar a familia


| Tempo de leitura: 3 min

Confesso que poucas histórias recentes me impactaram tanto quanto a deste garoto de 13 anos, Austin Applelbee, que nadou cerca de quatro quilômetros para salvar a própria família. Eles praticavam stand up paddle em uma praia na Austrália Ocidental, destino popular para estas atividades, quando uma correnteza extremamente forte os arrastou para longe da costa. Depois de muito tempo tentando vencer aquela força que os puxava cada vez mais para o mar aberto, a mãe percebeu que não conseguiriam retornar juntos. Foi então que tomou a decisão mais difícil que uma mãe pode imaginar: pediu ao filho mais velho que tentasse sozinho atravessar a correnteza para buscar ajuda, já que estava ainda com outros filhos de 12 e 8 anos. E ele foi.

Durante quatro horas ininterruptas, metade do percurso remando e metade nadando, aquele menino avançou contra o cansaço, contra o medo e contra limites físicos que muitos adultos talvez não suportassem. Ele sabia que cada minuto contava, e enfrentou ondas e mar agitado até alcançar a costa. Quando finalmente conseguiu acionar o resgate, todos foram salvos. Mas foi uma frase dele que permaneceu ecoando dentro de mim. Ao ser perguntado sobre o que passava em sua mente enquanto nadava, respondeu com uma simplicidade quase desconcertante: “Hoje não. Hoje não.” Ao aprofundar a pergunta, o jornalista ouviu algo ainda mais revelador. Nos momentos mais difíceis, ele não pensava na morte. Pensava nos momentos felizes vividos com a família. Pensava em quem amava. Lindo não é?

Essa atitude revela uma das expressões mais elevadas da mente humana: a capacidade de ir além de si mesmo quando a vida do outro está em risco. Deslocar o foco do próprio sofrimento e direcioná-lo para algo maior do que nós mesmos. Isso não significa ausência de dor, de medo ou de exaustão. O corpo segue sob  bruta tensão, na exaustão, o perigo é real e o limite físico se impõe. Ainda assim, algo interno reorganiza prioridades e faz com que o amor, o senso de responsabilidade e vínculo afetivo falem mais alto do que qualquer impulso de desistir, pois eles deixam de ocupar o centro palco que é nossa mente. O propósito e o amor falam mais alto. Uma força quase milagrosa emergiu na mente desse garoto, que perseverou e salvou sua família.

Quando existe um sentido claro, o cérebro reorganiza prioridades e ativa circuitos ligados à sobrevivência, à motivação e à resistência. Não é apenas o corpo que segue adiante. É a mente que conduz cada movimento. E nesse estado de "luta”, quando acionamos o "modo sobrevivência”, não é a dor que conduz à ação, mas o compromisso com a vida do outro.

A mente humana é treinável e, ao contrário do que muitos imaginam, ela não se fortalece apenas nas grandes adversidades. Ela é construída silenciosamente nas pequenas escolhas diárias. Fortalece-se quando sustentamos um compromisso apesar do cansaço, quando toleramos desconfortos sem desistir e quando fazemos algo que beneficia alguém além de nós mesmos. Resiliência não nasce no caos. Ela é preparada antes.

A firmeza mental e silenciosa de Austin nasceu de um lugar muito profundo: do hoje não! Hoje eu não vou desistir. Hoje o medo não vai me paralisar. Hoje a dor não define o meu destino.

Porque coragem, muitas vezes, não é ausência de exaustão. É apenas a decisão de continuar se movendo mesmo quando tudo em nós pede para parar.

Talvez a maior lição dessa história seja justamente esta: quando a mente já não consegue sustentar a esperança, que ao menos sustente o movimento. Uma braçada de cada vez. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil