21 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

A distância às vezes ajuda


| Tempo de leitura: 3 min

Sabe aquela corrente de ouro, de trama fina e delicada, que muita gente usa no pescoço para dar suporte a um pingente ou algo assim? Agora, imagine que, por qualquer motivo, ela se enrosque e forme um “nó”.

A delicadeza da estrutura já pede muito cuidado com a situação, pois qualquer movimento mais tempestivo pode piorar a laçada ou mesmo romper a corrente, o que completaria o desastre. O que se faz, então?

Com tempo para dedicar-se à situação, tira-se a corrente do pescoço para  posicioná-la em uma mesa iluminada e, com auxílio de pinça ou alfinete, faz-se pequenos movimentos para afrouxar o aperto até devolver-lhe a forma original.

Insistir em uma solução rápida para o emaranhado, sem ao menos tirar a corrente do pescoço, é receita garantida para uma complicação. Um olhar atento, com o suporte adequado e do lugar seguro, por outro lado, é a melhor chance de contornar a situação crítica.

Usei o exemplo para mostrar como abordo alguns sintomas, vindos de doenças cujo tratamento ainda é bem desafiador, como é o caso da fibromialgia. Neste quadro o paciente sente dor desmedida a qualquer contato, mesmo que seja delicado, tal como se a pele do corpo estivesse toda ferida.

Normalmente, os exames para “rastrear” outras doenças não evidenciam nada em especial ou apresentam lesões discretas demais para um sintoma doloroso tão intenso, o que acaba causando uma sensação de insegurança para o paciente, refletido em comentários como “os médicos não descobrem o que eu tenho, então me deram o diagnóstico de fibromialgia”

Percebam que a informação fornecida pela “autoridade” médica, ainda que possua algum grau de verdade, é colocada para a pessoa que sofre com a doença de uma maneira tão inadequada quanto uma tentativa de desfazer o emaranhado de um cordão delicado sem ao menos o tirar do pescoço e, portanto, sem o olhar do lugar adequado.

Com sintomas intimamente ligados a condições emocionais, a fibromialgia é desencadeada por eventos que provocam percepções de desvalorização das próprias capacidades, gerando insegurança e instabilidade psíquica, desequilibrando ainda mais um sistema nervoso já sobrecarregado.

O paciente não consegue, por si, entender o que há de “errado” com o seu corpo e, por isso, informá-lo de forma simplória que é algo “ligado ao emocional”, solicitando uma solução imediata para isso é como dar uma pinça para a pessoa e esperar que, sem nenhum tipo de auxílio, desfaça o nó do cordão que usamos como exemplo.

Na minha opinião, a metodologia da abordagem é tão importante quanto a técnica que será utilizada no tratamento.

Trazer o sintoma para “a mesa” para que possa ser observado com calma e da distância segura pelo seu portador, vai revelar o que ele está querendo dizer, sendo que muitas vezes não é algo “errado”, mas um ponto carente de atenção.

Nestes casos, mais efetivo do que uma prescrição de antidepressivos e recomendação para se “animar” diante das situações difíceis da vida, está o papel facilitador do terapeuta que, do lugar e do “jeito” certo, evidencia ao paciente a postura que pode ser mudada para resolver um problema que frequentemente começou distante, em permissividades que afetaram a própria dignidade.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia.