15 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

O ator e o fotógrafo


| Tempo de leitura: 3 min

Duas exposições na mesma avenida mostram trajetórias incomuns e grandiosas. Uma exibe a vida de um dos mais completos artistas brasileiros, Grande Othelo; a outra destaca a obra de um ilustre fotógrafo estadunidense, Gordon Parks. As duas mostras estão na avenida Paulista, em São Paulo, separadas por pouco mais de dois mil metros. A 71ª Ocupação Itaú Cultural, no número 149 da avenida Paulista, é dedicada a Grande Othelo; a exposição “A América sou eu”, de Gordon Parks, está no Instituto Moreira Salles, no número 2424 da mesma avenida. Os dois artistas têm em comum a versatilidade. Othelo foi ator, cantor, compositor, poeta e atuou em circo, rádio, teatro, cinema e televisão. Parks foi fotógrafo, diretor de cinema, escritor e jornalista. Ambos são negros e não se esquivaram do debate e da polêmica.

Nascido em Uberlândia, Minas Gerais, em 1915, Sebastião Bernardes de Souza Prata começou ainda criança no circo. Era conhecido como Pequeno Otelo. Com o tempo, passou a assinar Grande Othelo, com “h”. Na década de 1930, trabalhou como ator em radionovelas. Migrou para o cinema, onde fez dupla com Oscarito, nas comédias “Matar ou correr” e “Carnaval Atlântida”. Eclético, participou também de dramas, como “Jubiabá”, baseado no romance de Jorge Amado e “Também somos irmãos”. Encarnou Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter”, no filme de Joaquim Pedro de Andrade a respeito do livro homônimo. A Ocupação apresenta 160 itens, dentre fotos, vestimentas, manuscritos, troféus, diplomas... Há trechos de entrevistas, reportagens, cenas de filmes e de programas de TV. Há muito o que ver e ouvir desse ícone da cultura brasileira, morto em 1993, aos 78 anos, depois de quase sete décadas de atuação.

Na outra ponta da avenida está o Instituto Moreira Salles (IMS), com a mostra a respeito de Gordon Parks. Nascido em 1912, no Kansas, nos Estados Unidos, Parks fez de tudo um pouco até comprar sua primeira máquina fotográfica, aos 25 anos. Começou fotografando festas e casamentos. Passou para o ensaio fotográfico, mostrando o cotidiano de gente comum, principalmente – mas não exclusivamente – negros estadunidenses. Na década de 1940, foi trabalhar para agência governamental ligada à agricultura. Mudou-se para Washington, e lá encontrou o mesmo racismo dos estados sulistas. Contratado pela prestigiosa revista “Life”, rodou seu país e o mundo capturando imagens. Esteve no Brasil, em 1961, e registrou a rotina do garoto Flávio, morador de favela carioca. Ele cuidava de seus irmãos menores e do barraco enquanto os pais trabalhavam fora. As fotos repercutiram nos Estados Unidos e no Brasil, com desdobramentos pelos anos seguintes.

As imagens de Parks são extraordinárias. Uma das mais impactantes, de 1956, mostra jovem mãe negra com a filha, as duas muito bem vestidas, à saída de um cinema, debaixo de placa gigantesca com os dizeres “Entrada para negros”. São cerca de 200 fotos, em que aparecem famosos, como Mohamed Ali, Martin Luther King e Malcon X, ou anônimos, todos em sua rotina.

Imperdíveis, as duas mostras são gratuitas e seguem até o início de março.

Fernando Bandini é professor de Literatura