01 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Vem a pedido de quem?


| Tempo de leitura: 3 min

Pergunta insólita, situação esdrúxula.

Em uma coluna anterior, faz um tempo, enquanto escrevia sobre dores crônicas e minha visão sobre uma abordagem incomum, mas bem eficaz, sugeri o estranho “encontro” do paciente e sua dor personificada, para tomarem um café, em uma padaria.

Na ocasião eu auxiliei o leitor(a) na transformação do sintoma em sua forma humana sugerindo um tipo físico bem caricato, umas roupas extravagantes (afinal, toda dor chama a atenção e é um tanto inconveniente) e elementos assim.

Hoje, vamos continuar o nosso café com o que é estranhamente familiar? Minha proposta é que, na nossa frente, não somente sintomas mais físicos, mas até comportamentais, emocionais e mesmo as compulsões e obsessões.

Sabe aquela “mania” que alguns têm de se colocar à margem da própria vida, para que outros brilhem com o seu trabalho enquanto ele mesmo fica só com “o que sobrar”? Caso isso aconteça de forma sistemática, é justo perguntar o porquê.

O “dedo podre” para escolher parceiros de relacionamento, já ouviram falar? Vem e vão as pessoas, mas o motivo parece ser sempre o mesmo? Parece algo obsessivo por uma determinada situação, por que será que ocorre? Outra ainda: uma compulsão alimentar, digamos, por doces ou chocolate.

Pois bem, vamos nos colocar nos papeis e “na mesa”, pois agora iremos não só visualizá-lo, mas também, com respeito e reverência, perguntar ao nosso convidado quem o colocou ali.

Vejam, sintomas têm conteúdo simbólico. Estão alinhados com a parte inconsciente da manifestação do nosso corpo e, justamente por fazerem parte de um “conteúdo delicado” têm dificuldade de emergirem palavras. O corpo o exprime, com o que lhe é próprio, algo como uma dor, uma coceira ou mesmo um comportamento permeado por um automatismo.

“Comecei a comer um chocolate e, quando vi, tinha comido uma barra inteira e estava começando a segunda” – quem nunca ouviu essas palavras, ou mesmo as proferiu? Na realidade elas são um discurso de uma parte do cérebro que pode descrever o que aconteceu, mas não é responsável pelo desejo compulsivo.

“Para quem?” e não “por quê?” deve ser a nossa pergunta, de forma amorosa, para o nosso interlocutor, enquanto ele beberica o café. Frequentemente não é uma demanda genuinamente nossa, ainda que o desejo de ser satisfeito seja legítimo. Crenças arraigadas desde a infância sobre acolhimento, de comida e afeto (elementos similares ao nosso inconsciente) e o efeito protetor deles, podem atuar mesmo em adultos, criando uma ansiedade por saciedade constante.

Uma história de escassez na família pode ter sido suficientemente dramática a ponto de criar uma herança de medo onde privação e fome são um prenúncio de perda, dor e tormento. Em vez de se “olhar” para os eventos ocorridos dar-lhes um lugar no coração e na história familiar, legitimando-os e deixando-os em paz no passado, escolhe-se por vezes o caminho mais doloroso de combater o “mal invisível”, através de rotinas automáticas e cegas para as consequências na saúde de quem as têm.

Olhar o sintoma nos olhos e recebê-lo no coração pode dar uma pista de quem ele trás o recado para nós, de forma que possamos agir de forma mais efetiva para um resultado.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia.