02 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Próceres de antanho


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Repito, qual mantra, que somos desmemoriados. Esquecemos quem partiu e continuamos, como sociedade, a repetir os mesmos erros. Só que a situação do planeta piora a cada momento. E não parece existir, em âmbito nacional, a figura de quem ofereça um Projeto de Brasil, que ultrapasse o período da próxima eleição, mas que seja um norte para algumas décadas.

Por isso é bom recordar o que tem se passado nesta República surgida de uma escancarada ingratidão ao Imperador Pedro II, o magnânimo estadista que colocou o Brasil em situação de realce no concerto das nações e que chegou a ser votado para presidir os Estados Unidos. Fato que pouca gente sabe e já não se comenta.

A República tupiniquim nunca esteve a navegar em “céu de brigadeiro”. Sempre enfrentou crises. A sucessão do grande paulista Rodrigues Alves, em 1906, suscitou animosidades. O indicado à sucessão deveria ser Bernardino de Campos. Mas com isso não concordava o líder gaúcho Pinheiro Machado. Para isso, lançou como adversário Afonso Pena. O plano seria que este renunciasse à candidatura, para que fosse lançada, em seu lugar, a de Campos Sales.

Carlos Peixoto foi incumbido de pedir a Afonso Pena a carta de renúncia. Mas foi surpreendido com a recusa dele em renunciar. Por isso, Afonso Pena é considerado o único homem que conseguiu enganar Pinheiro Machado.

A política rasteira, de conchavos, de “puxação de tapetes”, de manobras nas quais a sinceridade não entra, sempre desagradou os homens de bem. Inclusive e principalmente os pensadores, os intelectuais, os escritores, filósofos e poetas. Olavo Bilac foi poeta, mas fecundou um sagrado sonho patriótico.

Vendo frustrar o seu ideal, por força de pequena política mais afeiçoada a interesses subalternos, Bilac chegou a declarar, de forma grave e compungida:

- “Sabe? Cada vez eu me convenço mais de que a única salvação do Brasil está numa guerra!”

E quando as pessoas estranhavam, ele completava:

- “Sim, numa guerra... Mas numa guerra em que sejamos batidos, vencidos, derrotados.

E com idêntica entonação, completava:

- “Será o único meio de destruir essa máquina política que aí está, e que é toda a desgraça do Brasil. Uma guerra de que saíssemos vitoriosos, seria para nós infelicidade ainda maior, porque consolidaria ainda mais nas posições que hoje desfruta, essa camarilha que explora o país. E pelo que eu vejo, só o estrangeiro, intervindo aqui com as suas esporas de vencedor, poderá desmontar essa oligarquia nacional, permitindo o aparecimento de figuras novas, saídas do povo e que compreendam, por terem sofrido com o povo, as nossas necessidades”.

Há também quem sustente que o fato de o Brasil nunca ter se envolvido numa guerra de verdade, após o golpe republicano, é um fator de pauperismo de nossa política partidária e do conformismo resignado de um povo inerte. Uma guerra, com suas tragédias, com fome e penúria, faria a sociedade se articular e exigir compostura em todos os Poderes.

São elucubrações que dão o que pensar, agora que o Brasil vai mergulhar em outro período eleitoral, em que as opções são as mesmas e sem o ambicionado “Projeto de Brasil”, que é o anseio incontido dos patriotas otimistas.

José Renato Nalini é reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.