23 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

A vida não é descartável


| Tempo de leitura: 3 min

Até parece que viver deixou de ser uma experiência única e intransferível. Desde cedo os jogos de videogame treinam as crianças para “ressuscitar” após uma batalha perdida, ou “ganhar” vidas, caso seja o grande vencedor. É só um jogo... Seu cérebro sabe disso?

Não vou entrar nas questões neurológicas, o caso aqui é sobre a flexibilidade do conceito viver ou morrer e quais são os valores implícitos. Quanto vale uma vida humana? Ela tem preço?

No final de 2025, tivemos uma série de eventos como ESG Summit Brazil, um dos principais encontros corporativos para debater o tema, assim como a COP30 que reuniu líderes empresariais, autoridades públicas e especialistas para debater sustentabilidade, governança e transição para uma economia resiliente e responsável. A conclusão é muito simples: não há economia sem planeta — valorizar a vida, proteger os ecossistemas e integrar sustentabilidade às decisões públicas e privadas deixou de ser discurso e passou a ser condição de sobrevivência humana, social e econômica.

Com grande pompa, as autoridades declararam que a vida humana depende de um ecossistema e todos somos responsáveis por ele. Lembrando que “ecossistema” é o conjunto integrado de seres vivos (plantas, animais, microrganismos) e os elementos da natureza (solo, água, ar, clima) que interagem entre si em um determinado ambiente, trocando matéria, energia e informação.

E o que assistimos no microcosmo da vida cotidiana?

Em um tempo em que tudo parece substituível — objetos, ideias, vínculos e até pessoas — parece óbvio que qualquer vida é uma preciosidade. Não apenas a vida humana, mas toda forma de vida. Estar vivo é um acontecimento raro, frágil e extraordinário. Um milagre silencioso que se repete todos os dias e, paradoxalmente, é cada vez mais banalizado.

Valorizar a vida está muito além da sobrevivência biológica. É responsabilidade sobre a sua vida e o que você está fazendo para e pelo outro, e, pelo planeta. É ter consciência sobre os limites... até onde posso ir? Recentemente tivemos um exemplo sobre o comportamento humano no qual o valor da vida foi totalmente corrompido.

O caso do cãozinho Orelha, torturado até a morte por adolescentes em Santa Catarina, não é apenas mais uma notícia triste. É um sintoma. Um alerta vermelho sobre o qual sociedade estamos formando.

A crueldade gratuita, especialmente quando praticada por jovens, expõe algo ainda mais preocupante, estamos presenciando a total desconexão emocional, a ausência de empatia e a falência de referências morais claras.

Estamos nos tornando robôs?

Quem é capaz de torturar um animal por diversão perdeu o senso de limite e de humanidade. Pior ainda, por adolescentes – homens em formação... o que estamos ensinando — ou deixando de ensinar sobre o valor da vida?

Vivemos em uma cultura que naturaliza a violência, estetiza o sofrimento e transforma tudo em conteúdo. O outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto. Se isso acontece com um animal, acontece também, em outro nível, com pessoas, com a natureza, com o próprio futuro.

Respeitar a vida não é um conceito abstrato ou romântico. É uma prática cotidiana que começa em casa, passa pela escola, pelas instituições, pela comunicação e pelas escolhas individuais. É ensinar que força sem inteligência não é poder, crueldade não é coragem, empatia não é fraqueza.

Hoje foi um animal irracional. Amanhã, pode ser você (animal racional?).

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação