11 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Sabesp privatizada não terá prejuízo com crise hídrica


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Acredite se quiser, mas a Sabesp, agora privatizada, não terá seu lucro afetado pela crise hídrica. Mesmo com os reservatórios em níveis críticos, risco de rodízio e insegurança no abastecimento, o resultado financeiro da companhia está blindado. Está no contrato. Após a privatização da companhia feita pelo governo Tarcísio de Freitas, a Sabesp assinou um acordo com a URAE-1, que reúne 371 municípios atendidos no Estado de São Paulo. Pelo texto, o equilíbrio financeiro em uma eventual situação de escassez de água deve ser transferido à população.

Cláusula 37: “A cada processo de revisão tarifária periódica ou revisão extraordinária (...) a Arsesp deverá considerar que são alocados à URAE-1 os riscos decorrentes dos seguintes eventos: (n) - Situação crítica de escassez de recursos hídricos nos corpos d’água que abastecem a área atendível, cuja natureza seja extraordinária e fora do controle operacional habitual da Sabesp”.

Ou seja, se faltar água, a Sabesp não perde. Quem paga a conta são os municípios e, na ponta, o cidadão. Esse detalhe revela o verdadeiro espírito das privatizações que estão sendo feitas pelo Governo Tarcísio de Freitas. Falta transparência, para dizer o mínimo. 
E isso não é um desvio pontual: é método. A privatização da Sabesp é cercada de pontos nebulosos desde o primeiro momento. O Estado vendeu as ações da empresa por um valor 18,3% abaixo do preço de mercado, segundo noticiado pela imprensa, gerando uma perda estimada em R$ 4,5 bilhões aos cofres públicos.

Também ficou pelo caminho a promessa de que a iniciativa privada traria alívio para o bolso da população. Logo no primeiro dia de 2026, a tarifa de água sofreu reajuste de 6,11%. O aumento chegou antes de qualquer benefício concreto. Aliás, desde a privatização, a qualidade do serviço despencou e os problemas se acumulam. 
Isso sem falar nos aumentos injustificados da conta de água em imóveis que tiveram trocados o hidrômetro. Há dezenas de relatos de moradores que enfrentam esse problema em toda a Grande São Paulo, em especial Franco da Rocha, Francisco Morato e Caieiras.

Com lucro garantido por contrato, a Sabesp tem apenas observado o avanço da crise hídrica. Não vemos, por parte da companhia, agora privatizada, soluções capazes de enfrentar o problema de forma séria e duradoura.

No fim do ano passado, a Sabesp adquiriu 70% da Emae. Por que não investir na despoluição da represa Billings? Seu volume de água é equivalente ao do Sistema Cantareira, mas permanece inutilizável para abastecimento por conta da contaminação histórica, resultado do despejo de poluentes vindos do rio Pinheiros.

Outra frente óbvia é o combate às perdas na rede de distribuição. Mais de um terço da água tratada pela Sabesp se perde em vazamentos e falhas de tubulação. É um índice escandaloso, incompatível com a gravidade do cenário atual. Há tecnologia disponível, há experiências bem-sucedidas. A crise hídrica não pode servir de oportunidade de negócio nem de pretexto contratual para lavar as mãos. Caso contrário, quem vai pagar a conta será a população de São Paulo.

Mário Maurici de Lima Morais é jornalista e deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo.