11 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Inclusão: Muito além de um brinquedo


| Tempo de leitura: 3 min

Caro leitor. Foi lançada a tão comentada e discutida Barbie Autista! Sim, a Mattel lançou uma Barbie Autista para trabalhar a inclusão de crianças com o Transtorno do Espectro Autista. A ideia é boa? Não sei dizer, mas sei de uma coisa. Como Psicopedagoga e Neuropsicopedagoga, atendo crianças e adolescentes com diversos transtornos, inclusive o TEA ( Transtorno do Espectro Autista ) e não vejo na boneca características que sejam iguais ou aproximadas do Autismo.

Se o Autismo ou uma criança com Autismo se resume a um abafador ( na boneca parece um fone de ouvido ), um tablet e um finger toy, então, a Mattel ainda não entendeu nada sobre uma criança com autismo. Muitas pessoas gostaram da ideia, outras não gostaram e outras ironizaram de forma depreciativa ( absurdo !!! ).  Na verdade, o Autismo é muito mais profundo do que um brinquedo poderia comportar.

Querido leitor, o Autismo nunca está sozinho. Ele carrega consigo comorbidades como TDAH, TOD, DI, DISLEXIA etc. Há crianças que possuem, pelo menos, uma dessas comorbidades, há crianças que carregam 2 e há crianças que carregam muito mais. Eu, por exemplo, atendo pacientes que carregam consigo 10 CID's
( Código Internacional de Doenças ).

Além disso, o Autismo traz sofrimento, tanto para quem o possui quanto para a sua família, pois, esta vive uma luta diária, constante por direitos garantidos, porém, não adquiridos.

Uma boneca pode ser algo simples, um brinquedo financeiramente rentável para grandes empresas, porém, o fato de se ter uma boneca que, em nada remete ao Autismo, não vai fazer a criança se sentir incluída se na escola ela não tem o seu profissional de apoio ao seu lado, pois, não lhe foi disponibilizado.

Essa criança não vai se sentir incluída se ela precisar esperar de 1 a 3 anos na fila do SUS para conseguir uma vaga no Neuropediatra ( tenho pacientes nesta situação ). Essa criança não vai se sentir incluída se a família perde o seu benefício quando, ao passar na perícia e o médico olha 5 minutos para a criança ( que está medicada ), deduz que aquela criança Autista não precisa de benefício, benefício este que lhe é extremamente importante para que a família lhe compre fraldas ( tenho pacientes de 6 e 7 anos que utilizam fraldas ), lhe compre os alimentos necessários para uma criança que apresenta seletividade alimentar.

Benefício necessário para que a família possa pagar o transporte público para levar o seu filho (a) para as terapias que conseguem gratuitamente em ONG's como a que eu atendo, lembrando que, muitas famílias dependem desse benefício, pois, muitas mães são abandonadas pelos companheiros quando eles descobrem que o filho (a) não nasceu como eles idealizaram e assim, não tendo rede de apoio, essas mães ou pais solo ( porque há pais solo também ) não conseguem trabalhar, tendo o benefício como única renda. Com o benefício cortado, como fazer? Como sobreviver? Como suprir as necessidades de uma criança que demanda cuidados?

Enfim, a inclusão não é lançar uma boneca , ainda mais porque no Brasil, a maioria dos casos de Autismo são em meninos ( 3,8 % ) comparado às meninas ( 1,3% ) ou seja, a cada 5 crianças com Autismo, 4 são meninos e 1 é menina.

Meu querido leitor, a verdadeira inclusão está nas nossas ações para que as crianças Autistas, que se tornarão adultos e idosos Autistas, se sintam acolhidos e amados. Pense nisso !

Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de  Neuropsicanálise.