23 de janeiro de 2026
OPINIÃO

Membros mal-assombrados


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Eu o atendi faz uns dez anos, mas me lembro bem dele. Era um homem, esbelto, alto e um pouco mais jovem do que eu. Apesar da pouca idade, já exibia as “entradas” no alto da cabeça, um número excessivo de rugas e um certa marca escurecida sob os olhos que davam pistas que a “vida” deveria estar lhe cobrando pesado, há algum tempo.

Sorridente e educado, apresentou-se como engenheiro e disse que chegara até mim através de um dos meus pacientes, que tivera a bondade de me indicar, pois me considerou capaz de tratar do caso dele, um tanto incomum.

Durante a nossa conversa notei uma certa reticência dele em falar sobre o assunto, expondo o motivo só depois de um tempo, com um gesto de aceno com a mão direita para evidenciar algo que eu, até então, não notara. Faltava-lhe a falange (a ponta) de um dos dedos.

Perguntei-me mentalmente como não havia notado antes, já que costumo observar os pacientes mesmo antes deles entrarem na minha sala, vendo como andam, como se sentam, para onde olham; conclui que, provavelmente, a amputação lhe era incômoda e então deveria ter desenvolvido a habilidade de ocultar a mão atrás da outra, ou no bolso, coisas assim.

A história estava só começando. Explicara que sofrera um acidente com uma máquina durante um curso de formação que frequentou, pouco depois de ter alcançado a maioridade, fraturando o dedo em tal magnitude que a melhor escolha no momento fora a amputação.

- O que acontece, doutor – me falou – é que, por vez ou outra, a ponta do meu dedo dói! – referindo-se à “ponta” que já não existia mais, há alguns anos. Era um fenômeno estranho e incomodava não somente pela dor, pois além de não haver um remédio com indicação clara para o caso, sentia-se envergonhado dos questionamentos das pessoas, que o levava invariavelmente explicar os fatos ocorridos, de novo e de novo.

Na medicina essa queixa é chamada de “membro fantasma”, caracterizado quando se sente dor (ou outra sensação equivalente) em uma parte amputada do corpo. Pouca gente sabe, mas acupuntura é uma técnica efetiva para o seu tratamento.

Anatomicamente, acredita-se que partes do nervo que cobria o membro amputado possam estar expostas e por isso criar a sensação de dor para o cérebro. Energeticamente sabemos que os meridianos não se” fecham” automaticamente em uma amputação, principalmente se ela for traumática. Em um caso ou outro, a técnica pode regularizar esse fluxo e melhorar a sensação “fantasma”.

No entanto, existe algo a mais.

Toda a dor tem seu conteúdo simbólico. Ao menos em parte, ela serve para trazer à consciência, algo que a mente não consegue trabalhar abertamente, por se tratar de um conteúdo emocionalmente difícil, às vezes com muita dor, às vezes com julgamentos e culpas associados.

Considero fundamental e meu dever como médico esclarecer e auxiliar o paciente a tomar contato com esse aspecto, dentro do que me for possível, me mantendo dentro do meu “lugar” de terapeuta. No caso dele, havia uma projeção de muita raiva pelo ocorrido, ainda que fosse um acidente. Essa raiva, por sua vez, tinha raízes profundas fincadas em pensamentos de “eu deveria ter tomado mais cuidado” e “deveria ter escutado conselhos de outras pessoas antes”.

Esse caráter de punição dava um peso excessivo a um fato que fora traumático, mas era somente acidental. O controle da dor, neste caso, para além da técnica, envolvia o ato de perdoar.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia.