18 de janeiro de 2026
OPINIÃO

Rato de biblioteca


| Tempo de leitura: 3 min

Convidado pela Desembargadora Luciana Almeida Prado Bresciani, hoje Presidente da Seção de Direito Público do TJSP, participei de um curso denominado “Bibliotecas do Poder Judiciário: elos entre passado e futuro”, promovido na Escola Paulista da Magistratura.

 Coube-me falar ao lado de sumidades, como o Professor Francisco Carlos Paletta, da USP e o desembargador Ricardo Henry Marques Dip, até à sua recente aposentadoria, Supervisor da Biblioteca do TJ.

 Comecei mencionando a influência materna. Dona Benedicta me ensinou o prazer da leitura. A cada mês em que meu boletim da Escola Paroquial “Francisco Telles” vinha com boas notas, ela me comprava um livrinho da “Coleção Melhoramentos”. E lia comigo as histórias. Conservo os exemplares até hoje!

 Depois, na biblioteca do Ginásio e depois Colégio Divino Salvador, eu era frequentador assíduo. Ia até aos domingos para ler. Costume que conservei na Faculdade de Direito da PUC-Campinas, onde a bibliotecária, D. Ivone Borsato, me auxiliava a encontrar os melhores livros para fazer trabalhos para o Professor de Direito Constitucional, Benedito José Barreto Fonseca.

 Na Biblioteca da USP fiz as pesquisas para o meu Mestrado e Doutorado, sob a segura e precisa – também preciosa – orientação do Maneco, Prof. Dr. Manoel Gonçalves Ferreira Filho.

E continuei a precisar da Biblioteca do Tribunal. Pesquisadores atentos me atenderam e continuam a me atender, embora aposentado.

Só que o “rato de biblioteca” também ficou viciado em livros. Sempre comprei livros. Ainda os compro. Formei, quando criança, uma biblioteca “Santa Rita de Cássia”. Minha irmã Raquel ajudava a numerar e a catalogar os livros. E as aquisições foram ocupando espaço. Cheguei a comprar um apartamento para guardar o acervo, do qual tive de abrir mão. Trouxe os livros para casa, para a fazenda em Lagoinha, para a chácara da Toca.

São milhares de livros, acrescentados com doações do meu colega Lauro de Almeida, do meu padrinho desembargador Young da Costa Manso e do desembargador Marcos Nogueira Garcez. Quanto a este, junto com os irmãos Lucas Nogueira Garcez, Padre Mateus e Professora Dulce, adquiriram com seus salários 150 mil livros. Que foram destinados à Academia Paulista de Letras quando todos faleceram, sem descendência direta. Em país mais civilizado, haveria uma “Fundação Nogueira Garcez” para preservar o acervo.

 Sou fanático por livros. Mesmo com o tempo que as redes sociais me tomam, ainda leio e leio e continuo a ler. Nunca interrompo uma leitura. Nenhum livro é tão ruim que não possa ser de alguma utilidade. Como dizia Francis Bacon, “alguns livros devem ser provados, outros devorados, e poucos, mastigados e digeridos”. Há obras que já reli. Mais de uma vez, lembrando de Sêneca: “não importa a quantidade dos livros que tens, mas a sua qualidade”.

Enfim, “a leitura faz do homem um ser completo; a conversa faz dele um ser preparado e a escrita o torna preciso”, novamente citando Francis Bacon. Falo continuamente, para meus filhos e meus alunos: “o homem que sabe ler fala com os ausentes e mantém vivos os que já morreram. Comunica-se com o universo – não conhece o tédio – viaja, ilude-se. Mas quem lê e não sabe escrever é mudo!”.

Enfim, “Quantos livros tem o mundo/e não saciam meu apetite profundo/ quantos consumi! E ainda morro de jejum” (Tomaso Campanella). Ler é o melhor remédio. Miguel de Unamuno dizia: “ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da Uninove e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo