17 de janeiro de 2026
OPINIÃO

Desinteresse político nas ondas de calor


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Em dezembro, mês em que o desastre climático associado à atuação da Enel deixou mais de 2 milhões de paulistanos sem energia, mas o evento não terminou ali. Na última quarta-feira, a concessionária corrigiu os números inicialmente divulgados, admitindo, em atualização oficial, que o total de consumidores afetados ultrapassou 4 milhões de unidades consumidoras na Região Metropolitana de São Paulo.

O episódio escancarou não apenas a fragilidade da infraestrutura elétrica diante de eventos extremos, mas também a deficiência da Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica- com seus contratos de concessão que, mesmo diante de falhas recorrentes, não preveem interrupção ou revisão efetiva. Volta, assim, ao centro do debate a questão dos fenômenos climáticos extremos.

Esse janeiro já se mostra como um dos meses mais quentes dos últimos anos. São Paulo atingiu picos de temperatura de 33°C, e os efeitos sobre o consumo energético tornaram-se ainda mais evidentes. Dados do ONS indicam picos históricos de demanda elétrica, que cresceram 5,6% em relação a janeiro do ano passado, impulsionados pelo uso contínuo de ar-condicionado, ventiladores e sistemas de refrigeração comercial.

No Rio de Janeiro, 12 bairros ficaram sem fornecimento de energia após o sistema entrar em colapso devido ao aumento abrupto do consumo. Em algumas áreas a sensação térmica ultrapassou 55 °C, e a sobrecarga comprometeu subestações e redes de distribuição.

A Justiça determinou, a pedido do Ministério Público, que o Estado apresente um Plano Emergencial para as escolas públicas, que não detém ar-condicionado como infraestrutura, até o início das aulas no dia 5 de fevereiro. Ano passado foram registrados 52 casos graves de desmaios de alunos em ambientes que chegavam 42°C.

As ilhas de calor, que repetidamente falamos aqui, agravam o consumo energético e coincidem justamente com as áreas mais densamente construídas e impermeabilizadas das cidades. Ainda assim, essas mesmas regiões continuam lançando edifícios de gabarito altíssimos e pouca vegetação.

Em São Paulo, edifícios residenciais e corporativos já ultrapassam 150 a 170 metros de altura, como ocorre no eixo central e na região da marginal Pinheiros. Em Jundiaí, bairros específicos já registram torres que se aproximam ou ultrapassam 90 a 100 metros, um patamar elevado para uma cidade de porte médio, com impactos diretos sobre ventilação urbana, insolação, drenagem e microclima.
Chama atenção o fato de que, dos valores totais aprovados em emendas parlamentares pelo Congresso e pelas câmaras legislativas, apenas cerca de 1% a 2% foi efetivamente destinado a ações ambientais e climáticas. Esse dado evidencia o descolamento entre o discurso político e as prioridades orçamentárias reais.

Concluir que, dos valores que as emendas foram aprovadas pelo Congresso ou Câmara, cerca de 2% foram destinados ao meio ambiente e questões climáticas, o que mostra que não do voto meio ambiente e ondas de calor.

Aqui poderíamos rever as ações em curso e sobretudo divulgá-las. Sabemos que na Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente trabalham sobre a identificação das ilhas de calor, mas procurando em seu site nada está atualizado, embora em atuação permanente nas análise e aprovações de projetos!

Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista