O maior desafio posto à humanidade é brecar a emissão dos gases venenosos causadores do efeito-estufa. Está mais do que cientificamente demonstrado que é esse veneno que causa o aquecimento global, gerador das emergências climáticas que hoje assustam o mundo.
Sabemos como evitar. Mas somos irresponsáveis. Continuamos a usar petróleo e a procurar mais petróleo. Até que já não haja vida sobre este planeta.
O ponto do não retorno está a nos espreitar no horizonte. Se os problemas chegam aos extremos, as providências também deveriam ser extremas, radicais, indiscutíveis.
É mais do que urgente trilhar novos caminhos para enfrentar o cataclismo. Eles têm de estar no radar do Poder Público, mas devem se espraiar e ganhar escala em toda a sociedade civil. É da cidadania que poderá provir resposta efetiva. Os africanos costumam dizer que pequenas coisas, feitas de forma anônima, mas por um coletivo de indivíduos convictos de estarem a fazer o que é certo, produzem milagres.
Precisamos disso e temos pressa. Para nossa reflexão, além dos inúmeros documentos produzidos pela ONU, dos estudos que nos oferecem os cientistas e pensadores, é interessante mencionar os cinco eixos adotados pelos arquitetos na 14ª Bienal de Arquitetura realizada no Ibirapuera em São Paulo.
O primeiro: Preservar as florestas e reflorestar as cidades. Todos sabem que a árvore é a principal aliada da vida. Principalmente da vida humana. Esse eixo propõe a incorporação radical da biodiversidade como forma de reverter o aquecimento global, ao capturar carbono da atmosfera, mas também de criar microclimas que atenuem as ondas de calor.
O segundo: conviver com as águas. É preciso multiplicar as experiências de renaturalização dos córregos e de adotar, para valer, soluções baseadas na natureza para estabilizar encostas, recuperar margens e trabalhar a favor do ciclo da água. Esse líquido é mágico e imprescindível. Sem água não se vive, ao passo que de petróleo nós podemos nos abster, sem perigo para a continuidade da existência.
Terceiro eixo: reformar mais e construir verde. É o reúso adaptativo de construções obsoletas e a adoção de sistemas construtivos sustentáveis com baixo carbono, para enfrentar o desafio da redução das emissões de gases de efeito estufa, envolvidas na construção e uso das edificações. Usar mais madeira e menos cimento e ferro, cuja fabricação é poluente, sem deixar de observar que 35% desse material é desperdiçado durante o processo de edificação.
Um quarto eixo: circular e acessar juntos com energias renováveis. É o trato adequado das possibilidades de planejamento urbano e das redes de mobilidade para reduzir a necessidade de deslocamentos individuais e estimular a modalidade ativa, a considerar também a transição energética nos transportes coletivos.
Por fim, o quinto eixo: garantir a Justiça Climática e a habitação social. É a centralidade que se deverá conferir à desproporcional vulnerabilidade das populações mais pobres – frequentemente racializadas e com presença marcante de mulheres e crianças – aos eventos climáticos extremos. É mais um dos nossos paradoxos: o grupo social que historicamente menos colaborou com o aquecimento global, mas que habita as áreas de maior risco, assentamentos em condições precárias, muitas vezes situados em encostas e várzeas, é a vítima preferencial das catástrofes.
São eixos que devem habitar a reflexão de cada um de nós. O que estamos fazendo para o adequado enfrentamento das tragédias? Elas continuarão, com intensidade e frequência cada vez maiores.
José Renato Nalini é reitor, docente de pós-graduação e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo