Por muito tempo, a história oficial de Jundiaí foi contada a partir da chegada dos imigrantes europeus. Italianos, espanhóis e portugueses ganharam protagonismo nas narrativas sobre o desenvolvimento do município. Mas, entre as páginas menos conhecidas dessa história, há uma presença essencial: a da população negra. Foram homens e mulheres negros que, com seu trabalho e sua cultura, ajudaram a construir a base econômica, social e simbólica da cidade.
Estudos históricos apontam que, em meados do século XIX, mais de um terço da população de Jundiaí era composta por pessoas negras — em sua maioria, escravizadas. Eles trabalharam nas lavouras, na construção civil, nas ferrovias e nos serviços domésticos. Quando a ferrovia Santos–Jundiaí começou a ser construída, em 1863, foi a mão de obra negra que ergueu os trilhos que conectariam o interior ao litoral e impulsionariam o desenvolvimento paulista.
Com a abolição, em 1888, essa população enfrentou um novo tipo de exclusão. Sem políticas públicas de integração, muitos foram empurrados para as periferias ou para atividades informais. Ainda assim, a comunidade negra resistiu — e criou espaços próprios de convivência e identidade. Um dos maiores símbolos dessa resistência é o Clube Beneficente, Cultural e Recreativo 28 de Setembro, fundado em 1897, apenas nove anos após a abolição. O clube é reconhecido como o mais antigo clube social negro em atividade no Estado de São Paulo e até hoje mantém viva a tradição de festas, bailes, samba e ações culturais que valorizam a memória afro-brasileira.
O Clube 28 de setembro existe há 130 anos. A origem do clube está ligada à necessidade da comunidade negra recém-liberta ou em processo de libertação, de ter espaços próprios de sociabilidade, cultura, educação e lazer, em um contexto em que eram excluídos ou marginalizados nos espaços dominados pela população branca. Seu nome “28 de Setembro” faz referência à Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871, que declarou livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir desta data. Aqui abro um parênteses, ouçam o Podcast que está no ar, com d. Edna, presidente atual do Clube 28 de Setembro, no jj.com.br. Uma delícia de história e resiliência.
A valorização da cultura negra, no entanto, não se limita ao campo simbólico. Ela também se manifesta em políticas de igualdade racial, nas cotas educacional e de concurso público, na ampliação de editais culturais voltados a artistas negros e no reconhecimento de que o combate ao racismo estrutural deve estar presente em todas as esferas do poder público.
Como sempre escreve o Dr. Eginaldo Honório, em seu espaço em Opinião, as leis existem, o que falta é o seu cumprimento determinante e punitivo. A injúria racial e o preconceito não podem ter mais penas brandas, como é comum até os dias de hoje. O preconceito é algo inadmissível e insuportável em nossa sociedade.
Hoje, Jundiaí se movimenta para recontar essa história. Nas escolas, cresce o interesse por projetos pedagógicos sobre cultura afro-brasileira e letramento preto. Nos palcos, grupos de maracatu, afoxé e samba afirmam sua ancestralidade. Nos espaços públicos, o debate sobre representatividade ganha força.
Reconhecer a presença negra em Jundiaí não é apenas resgatar o passado — é construir um futuro mais justo e plural. É entender que a cidade não nasceu apenas dos vinhedos e das indústrias, mas também do suor, da fé e da resistência de um povo que nunca deixou de existir, mesmo quando tentaram apagá-lo.
Ao revisitar essas raízes, Jundiaí se redescobre: mais diversa, mais consciente e mais fiel à sua verdadeira história.
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ