Nos últimos meses, Jundiaí enfrenta períodos longos de frio ou calor e baixa umidade relativa do ar, como é esperado neste período do ano. O clima seco, comum entre junho e setembro, tem sido agravado por ondas de calor que chegam cada vez mais cedo. Esse cenário, aparentemente apenas desconfortável, tem consequências sérias para a saúde, especialmente para a população idosa.
O atendimento de saúde da rede pública e privada relatam aumento de atendimentos durante os picos de tempo seco. “O idoso chega ao hospital com tontura, confusão mental, queda de pressão e, em muitos casos, a causa principal é desidratação”, cena típica de pronto atendimento hospitalar neste período do ano.
A água, que compõe mais da metade do corpo humano, é responsável por funções vitais: regula a temperatura, transporta nutrientes, lubrifica articulações e mantém a pele íntegra. No cérebro, participa diretamente da condução elétrica que garante memória e raciocínio. “Uma queda pequena no nível de líquidos já provoca sintomas”.
Com o envelhecimento, a situação se agrava. Um idoso pode ter apenas 50% do peso corporal formado por água — contra 60% em adultos jovens. Essa diferença reduz a reserva natural e aumenta o risco de desidratação mesmo em situações leves, como uma tarde sem ingestão de líquidos.
A percepção de sede diminui com a idade devido a mudanças fisiológicas naturais do corpo. Em idosos, o mecanismo que indica ao cérebro que é hora de beber água funciona de forma menos eficiente, o que aumenta o risco de desidratação silenciosa. O idoso não sente sede de forma eficiente por uma combinação de fatores: cerebral, menor reserva de água, alterações hormonais, medicamentos e, às vezes, doenças cognitivas.
Menos sede, mais perigo
A desidratação é traiçoeira. Um dos principais fatores de risco é o fato de que, com a idade, a sensação de sede diminui. Muitos idosos simplesmente não sentem vontade de beber, mesmo quando o corpo já apresenta déficit de líquidos. Ressalto que “É um erro esperar a sede aparecer. Quando o idoso sente sede, provavelmente já está desidratado”.
Além da redução da percepção da sede, outros fatores contribuem. Os sintomas podem ser sutis: boca seca, cansaço, dor de cabeça. Mas, se não tratados, evoluem para quedas, confusão mental e até internações ou risco de infecções.
A desidratação não afeta apenas o bem-estar imediato. No cérebro, reduz a capacidade de concentração e acelera a perda cognitiva. Estudos mostram que a falta de líquidos pode diminuir em até 30% a eficiência da memória de curto prazo.
Na prática, isso significa que idosos desidratados podem esquecer compromissos, perder o equilíbrio ou até apresentar sintomas semelhantes aos de um AVC. Já atendi pacientes com quadro de confusão aguda que melhoraram apenas com hidratação.
Nos músculos, a falta de água provoca fraqueza e cãibras. Nas articulações, gera rigidez, aumentando o risco de quedas. A pele, mais fina e delicada na terceira idade, perde elasticidade, abrindo caminho para feridas e infecções. A hidratação, portanto, é mais que um conforto: é fator de prevenção de doenças e de manutenção da autonomia.
Segundo a Defesa Civil, Jundiaí registrou no último inverno vários dias com umidade relativa do ar abaixo de 30%. O índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde é de 60%.
Nessas condições, o corpo perde líquido mesmo sem suor visível. O ar seco resseca as vias respiratórias, aumenta crises de rinite e asma e dificulta a oxigenação. Em idosos, o quadro pode evoluir para infecções respiratórias e urinárias.
Um dos obstáculos para a hidratação adequada é a quantidade de informações desencontradas. Muitos idosos ainda acreditam em mitos antigos, que acabam atrapalhando a rotina. “Preciso beber 2 litros de água exatos todos os dias.”
Não existe um número mágico. A necessidade varia de acordo com peso, idade, atividade física e até clima. Para idosos, a recomendação média é de 30 ml por quilo de peso corporal. “Chá e café não contam como líquidos.”
É mito. Embora o café tenha efeito diurético leve, tanto ele quanto o chá e até sopas entram no cálculo da hidratação. O cuidado deve ser com o excesso de cafeína e açúcar. “Água com gás faz mal para os ossos.”
Não há comprovação científica. O que pode acontecer é desconforto intestinal pelo gás, mas os minerais presentes não prejudicam a saúde óssea.
“Só água pura hidrata.”
Verdade parcial. A água é a melhor fonte, mas sucos naturais, frutas, chás claros e até alimentos ricos em água ajudam. A alimentação pode contribuir com até 30% da hidratação diária.
Esclarecer esses pontos ajuda a criar uma cultura mais saudável. “O importante é somar líquidos ao longo do dia, de forma prazerosa e sem exageros de açúcar ou sal.”
A dieta é uma ferramenta poderosa para manter o corpo hidratado. Frutas como melancia, melão, abacaxi e laranja chegam a ter mais de 85% de água em sua composição. Legumes como pepino, abobrinha e tomate também são fontes valiosas.
Além de refrescantes, esses alimentos fornecem fibras, vitaminas e minerais, que ajudam a manter a saúde intestinal e a imunidade.
Em Jundiaí, conhecida por sua produção agrícola, feiras livres e hortas comunitárias oferecem abundância de frutas e verduras frescas. “É um privilégio da cidade. Comer bem e hidratar-se pode ser acessível se aproveitarmos a riqueza local”, verifique o dia de feira livre de seu bairro e região.
Sopas e caldos, tradicionais no inverno, também são opções eficazes. Preparados com legumes e temperos naturais, oferecem líquidos e nutrientes em uma única refeição.
Devemos lembrar que a terceira idade pode vir acompanhada de tratamentos contínuos. Muitos medicamentos influenciam diretamente no equilíbrio de líquidos.
Diuréticos: usados no tratamento da hipertensão, aumentam a eliminação de líquidos e podem levar à desidratação.
Laxantes: em uso frequente, reduzem a absorção de água no intestino.
Antidepressivos e ansiolíticos: podem causar boca seca e alterar a percepção de sede.
Antibióticos: em alguns casos, exigem maior ingestão de líquidos para proteger os rins.
“É fundamental que os familiares e cuidadores estejam atentos. Sempre que possível, o idoso deve beber um copo de água junto com a medicação, salvo contraindicação médica.
No atendimento domiciliar orientamos que beber água é simples, mas exige disciplina. Sugiro algumas estratégias práticas para idosos e cuidadores:
Estabelecer horários fixos para a ingestão,
Usar copos leves e lisos,
Ofertar em pouca quantidade,
Preferir alimentos ricos em água nas refeições,
Evitar excesso de refrigerantes, café forte e bebidas alcoólicas,
Manter atenção redobrada em dias de clima seco e quente.
A hidratação é um dos pilares da longevidade. “Às vezes, o melhor remédio está no copo de água. Um copo de água pode evitar uma internação e garantir mais anos de vida com energia e vitalidade.
Em uma cidade como Jundiaí, que envelhece e se fortalece a cada ano, a água deve ser vista como aliada diária. Hidratar-se não é apenas matar a sede: é cuidar da memória, da pele, da mobilidade e da qualidade de vida. No tempo seco, quando o ar parece roubar a umidade do corpo, cada gole é uma forma de preservar a saúde. Seja por meio de um copo d’água, de uma fruta fresca ou de uma sopa quente, a hidratação é um gesto simples que pode salvar vidas.
Edvaldo de Toledo é empresário, enfermeiro, especialista em Gerontologia e Geriatria, Apresentador do IssoPodAjudar, Criador da Cuidare Home Care (@edvaldo.toledo)