Arquiteto de formação, mas artista por essência, Dreison Santini descobriu cedo que sua relação com o desenho não era apenas passatempo infantil, mas algo maior. Do lápis de cor ao pincel, das primeiras experiências no balcão do bazar do pai às séries que hoje expõe em sua galeria, tem trajetória marcada por emoção, experimentação e pela busca constante de transformar a arte em espelho da vida.
Ele lembra com carinho de quando tudo começou, por volta dos 7 anos, ao desenhar a bandeira do Brasil numa tarefa de escola. “Eu fiz o meu desenho, meu colega fez o dele e, honestamente, achei que o meu ficou mais bonito. O pai dele viu os desenhos e acabou elogiando apenas o trabalho do filho. Eu fiquei frustrado e pensei: ‘poxa, mas o meu estava tão legal’. Foi aí que percebi que talvez isso fosse algo que eu poderia levar em frente.”
Na adolescência, entre 12 e 13 anos, Dreison coloria gibis, desenhando personagens enquanto ajudava no bazar do pai. “Para mim, era uma condição natural. Eu ficava no balcão desenhando, pintando, inventando.” E foi assim que a arte se tornou parte inseparável da vida.
Aos poucos, o lápis abriu caminho para as tintas. Seu primeiro quadro nasceu de uma imagem de calendário: uma loba amamentando os filhotes. “Comprei o material, pintei e, até hoje, esse trabalho está na casa de uma sobrinha. Foi meu primeiro trabalho mais clássico, ainda sem influência de nenhum pintor que eu conhecesse.”
Com o tempo, sua produção ganhou identidade própria e hoje são mais de 50 anos envolvido com a arte. Embora se considere um artista eclético, uma das séries mais marcantes de sua trajetória é “Etnias”, composta por retratos de mulheres e crianças. “Sempre busquei imagens que me dissessem algo, que carregassem emoção. Muitas vezes explorei a figura da mulher negra, que considero de uma beleza e força marcantes", conta o artista.
Foi nesse processo que o artista desenvolveu uma técnica pessoal, que batizou de “ondulismo”. Camadas de cores em degradê criam diferentes impressões conforme a distância do observador. “De perto, você vê uma expressão, um detalhe; de longe, a imagem se compõe de maneira muito definida. É uma linguagem particular que me orgulha muito.”
Suas referências vão dos grandes mestres aos contemporâneos. “Caravaggio sempre me emocionou profundamente, assim como Renoir e Toulouse-Lautrec, com sua espontaneidade. Já no modernismo, admiro Tomie Ohtake pela pureza das cores e, nos dias de hoje, sou fã do muralista Kobra. Ele leva a arte brasileira para o mundo todo. Tem que tirar o chapéu", comenta.
Para Dreison, a arte sempre foi emoção. “Cada tela traz uma expressão única, capaz de emocionar de formas diferentes.” Essa busca se reflete em sua nova série, “Aves”, que já reúne mais de 15 trabalhos em giz pastel e lápis de cor. Araras, pavões e pássaros raros ganharam vida em cores vibrantes e devem compor uma próxima exposição individual.
Entre a arte e a arquitetura, vê uma simbiose natural. “Na arquitetura, sempre há um elemento escultórico que compõe a volumetria. Da mesma forma, antes de criar uma obra, penso: será que alguém gostaria de ter isso em casa, na parede? Porque a arte também precisa dialogar com o espaço. Já fiz trabalhos lindos, mas que ninguém gostaria de ter em casa e olhar todos os dias. Hoje, penso muito nisso.”
Ainda assim, ele reconhece as dificuldades de viver de arte no Brasil. “Ela ainda é vista como artigo de luxo, como simples decoração. A arte é emoção, é mensagem, mas na nossa cultura acaba ficando em segundo plano. Por isso, sobreviver dela é uma grande aventura.”
Apesar dos desafios, Dreison mantém a esperança no futuro. Ele acredita que o mundo vive um momento de efervescência criativa, com talentos emergindo em todas as áreas artísticas. Entre lápis, pincéis e projetos arquitetônicos, segue produzindo incansavelmente, certo de que sua arte é, antes de tudo, a expressão mais sincera de quem ele é.
Algumas de suas obras estão a venda na "Galeria Dreison Santini", em Campinas, e o trabalho pode ser acompanhado pelo Instagram do artista @galeriadeartedreisonsantini