15 de março de 2026
BATE-PAPO

De onde vêm suas palavras: entrevista com Jeferson Tenório

Por Mariana Checoni |
| Tempo de leitura: 6 min
Jornal de Jundiaí
Jeferson Tenório acaba de lançar livro “De onde eles vêm”

Jeferson Tenório, autor nascido no Rio de Janeiro, mas radicado em Porto Alegre, escreve como quem observa, com delicadeza e fúria, os “Beijos na Parede” de uma casa silenciosa. Sua literatura nasce d’O Avesso da Pele’ — não aquilo que se vê, mas o que pulsa escondido sob as camadas da história, da violência e da memória. E entre luta, coragem e resistência, ele desenha o retrato de uma ‘Estela sem Deus’, adolescente que sonha em ser filósofa e caminha procurando o lugar que é seu no mundo. E, com olhos atentos às margens da história, pergunta com inquietação e ternura: ‘De onde eles vêm’? Esses corpos marcados, essas vozes caladas, esses nomes esquecidos que ele insiste em resgatar do silêncio em seus livros e histórias tão bem contadas.

Em entrevista e bate-papo no Sesc Jundiaí, o autor contou sobre sua experiência com a leitura e escrita, recepção do público, censura e como a representatividade pode - e deve - estar presente na literatura.

Mariana Checoni:  Gostaria que você me contasse um pouquinho como iniciou nesse meio da literatura e como surgiu essa paixão pela escrita?
Jeferson Tenório: O mundo dos livros surgiu tardiamente na minha vida. Comecei a gostar de literatura com 23 anos. Antes disso, eu gostava de escrever, mas escrevia diários, fazia letras de músicas como rap, hip-hop, mas eu não era um leitor, não gostava de literatura. Entro na faculdade de letras e a partir da faculdade que eu começo a gostar de ler e começo a escrever poemas. Só vou escrever mesmo o meu primeiro livro aos 33 anos. E depois eu começo a minha carreira de escritor. Não foi planejado, não tinha o sonho de me tornar escritor, isso foi acontecendo na minha vida e toda vez que eu publicava um livro, sempre achava que era o último. Eu era professor, dava aula em escolas públicas e particulares e pretendia me aposentar como professor, mas aí veio O Avesso da Pele e mudou tudo.

MC: E falando um pouquinho do seu processo criativo, como você pensa na história? 
JT: Depois que reli Machado de Assis, ele tem uma expressão que usa em vários livros, que é a ideia fixa. É o que acontece comigo, eu preciso ter uma ideia fixa e essa ideia precisa me acompanhar por algum tempo, às vezes por alguns anos, de modo que ela se torna bastante sólida e aí é que eu começo a escrever. Eu não paro na frente do computador e fico esperando a ideia chegar. Eu primeiro convivo com a ideia e quando percebo que ela é forte o bastante, eu vou para a escrita.

MC: E os livros, eles trazem vivências suas ou de situações que você convive ou é uma análise de fora?
JT: Tem de tudo um pouco. Tem a experiência de vida, tem a experiência de pessoas próximas, tem muita coisa que eu li, muita coisa que eu vi no cinema, muita música que eu ouvi, muito museu que eu fui, viagens que eu fiz, ou seja, é tudo junto. Você não escreve o livro só baseado na própria vida, é impossível. Mas também não consegue escrever sem estar baseado na sua própria vida. Hoje, relendo os meus livros, eu não consigo identificar muito bem o que é meu e o que é do personagem porque a nossa memória também vai mudando com o tempo.

MC:  E você é uma pessoa que relê seus livros? Ou não gosta muito de voltar a história depois que escreveu? 
JT: Eu releio quando é preciso, quando me pedem alguma leitura. Mas como eu passo muito tempo debruçado sobre o livro, quando ele finalmente é publicado, eu quero ‘me livrar’, deixar as pessoas lerem. E aí começa um outro processo que é você receber a leitura das pessoas. É a parte mais legal, porque a leitura se completa no outro e você começa a aprender sobre o seu livro. Eu evito reler muito porque começo a achar defeitos neles, uma frase ou verbo que eu trocaria.

MC: E em relação à recepção dos leitores, como você recebe isso? As pessoas entram em contato com você? 
JT: Todos os dias eu recebo. Desde que eu lancei O Avesso da Pele, todos os dias eu recebo no e-mail ou nas redes sociais, sempre tem alguém falando sobre ele ou sobre os outros livros. Acredito que sou um escritor de sorte, porque eu tenho pouca experiência com crítica negativa. Talvez tenha uma ou duas pessoas, mas aí já entra numa outra questão que são os haters, pessoas que não gostam de mim, mas tirando isso, eu tive poucas experiências negativas e nem sei como eu reagiria se saísse uma crítica negativa sobre os meus livros.

MC: Não foi uma crítica, mas como você recebeu a notícia de quando tentaram censurar o seu livro em uma escola no Sul do país? 
JT: Recebi com surpresa. Surpresa não pela censura em si, porque eu já havia sofrido outras tentativas. Desde 2020, eu sou atacado. A minha surpresa foi mais pelo argumento que foi utilizado, de ser um livro que tinha uma linguagem imprópria. Acho que a reação foi muito forte, muito contundente. O livro acabou tendo mais visibilidade, chegou em mais pessoas. Acho que o saldo que ficou da censura foi o medo instalado, principalmente em professores, de usar o meu livro em sala de aula. A gente sabe que a classe docente é bastante atacada. Não tem literatura que não vá causar algum tipo de incômodo, de tensão. A literatura serve para isso.

MC: Em relação a representatividade negra que você traz para os livros, você acha que, apesar do Brasil ser majoritariamente negro, a literatura vem como uma aliada para combate ao racismo?
JT: O que está acontecendo é que a história da literatura brasileira foi escrita por uma classe média, burguesa, branca, por homens. E o que tem acontecido dos anos 2000 para cá é um outro ponto de vista da própria história do Brasil, feito por indígenas, pessoas negras. Isso tem mostrado o quanto a nossa sociedade foi fundada a partir da violência, a partir da escravidão, da aniquilação de povos originários. Tudo isso está vindo à tona. E no último censo do IBGE, que mostrou que mais de 50% da população se identifica como pessoa negra, mostra um pouco do amadurecimento da própria população. Quando uma pessoa branca que não tem acesso, pelo meio que vive, consegue ler um livro com essa narrativa, ela tem a possibilidade de experienciar uma outra vida que não seja a dela, acho que é um livro que vai sensibilizar e vai aproximar a dor do outro.

MC: E apesar de você ter acabado de lançar um livro, tem alguma ideia já fixa surgindo para um próximo? 
JT: Eu tenho ideias fixas para o próximo romance, mas ainda preciso deixar amadurecer por mais um ano, talvez dois. No ano que vem eu devo lançar um livro de ensaios  sobre escrita e leitura dentro dessa ótica de um escritor negro.

MC: Tem alguma coisa que você gostaria de escrever que você não teve oportunidade? 
JT: Acho que letras de música. Escrevi na adolescência, mas não sei se eu tenho condições ainda de escrever letras. Tem que ter um ouvido bem apurado para a música.

MC: Para finalizar, eu gosto de fazer uma pergunta para quebrar a tensão. Tem alguma pergunta que ninguém nunca te fez, mas que você gostaria de responder? 
JT:
As pessoas fazem tantas perguntas para mim que eu acho que já respondi todas. Eu gosto muito de ser surpreendido e mesmo quando as perguntas são repetidas, me fazem pensar na resposta e eu respondo coisas de formas diferentes.