O plenário se acomoda assim que o presidente da Câmara de Bauru anuncia o próximo orador inscrito. Ele se levanta, fecha o botão do paletó e caminha em direção ao púlpito. Os vereadores, atentos, aguardam o discurso. Silêncio, por favor, é a vez de José Roberto Segalla se pronunciar.
Decano da Casa de Leis e hoje no terceiro mandato, Segalla, 74 anos, não é um político de primeira hora. Muito pelo contrário: só se candidatou aos 60 anos, em 2008, e demorou para moldar sua personalidade como parlamentar. "Eu só me tornei realmente político a partir da segunda eleição, em 2016", lembra.
Embora não tenha nascido no município (é de Marília), a vida daria a Segalla - como de fato deu - a alcunha de bauruense. Seu pai, José Antônio, já morava na cidade. Trabalhava na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, emprego que só conseguiu porque se dispôs a integrar o time Noroeste como zagueiro.
Nas horas vagas, estudava para prestar o concurso do Banco do Brasil. Deu certo: José Antônio entrou no quadro da instituição em 1944 numa época em que o banco pagava surpreendentemente bem. "Nunca passei necessidade, graças a Deus", celebra Segalla, que veio ao mundo em 1 de outubro de 1948.
Antônio foi promovido no BB em 1956, o que possibilitou à família o retorno a Bauru. E aqui Segalla cresceu. Estudava no colégio Ernesto Monti numa época em que Bauru se limitava ao centro, na região do calçadão da rua Batista de Carvalho.
A primeira casa própria dos Segalla estava na quadra 11 da rua Cussy Júnior, acima da avenida Rodrigues Alves, que àquela altura não tinha um terço da atual estatura. Até era a principal via do município, mas em hipótese alguma poderia ser chamada de "artéria" de Bauru, como é considerada hoje.
Segalla chegou a Bauru numa época em que o DAE ainda não havia sido criado - a autarquia foi fundada em 1962 -, o que obrigava as famílias a buscar água potável na fábrica da Coca Cola, localizada onde hoje é o banco Santander em frente à praça Portugal. "Não havia mais nada depois dela [da indústria]. A cidade terminava ali", lembra o vereador.
Segalla ia a pé até a torneira da Coca segurando dois garrafões. O trajeto já não é perto. E o peso dos galões dificultava ainda mais a viagem. "Demorava umas duas horas", conta o parlamentar. Mas valia a pena: ganhava uns cruzeiros, moeda da época, toda vez que ia buscar água. "Era o dinheiro do lanche, do sorvete", afirma.
O jovem José Roberto ingressou no curso de engenharia da Fundação Educacional de Bauru assim que completou 18 anos. Terminou aos 22. Segalla estava formado havia pouco meses quando a FEB abriu concurso para contratar professores. Recém-saído da faculdade, o então bacharel em engenharia mecânica prestou a prova e passou. Foi quando se casou com Anacirema Maria Rodrigues, ao lado de quem está até os dias de hoje.
A situação era inusitada: Segalla dava aulas para colegas com quem estudou e que tinham reprovado em anos anteriores. Daí tirou uma lição que carrega até hoje.
Um aluno com quem havia estudado não tinha nota suficiente para passar de ano e bateu na janela do professor novato à meia-noite do dia anterior à prova substituta. O problema é que a nota do estudante não garantia nem mesmo o direito ao segundo teste. "Vai lá, eu finjo que não vi e, se você for bem na avaliação, aumento a nota da primeira. E não fale para ninguém", disse Segalla ao colega.
No dia seguinte, o aluno apareceu com um outro estudante na mesma situação. Segalla se irritou, mas manteve o acordo. O resultado? O primeiro aluno tirou nota 1. O outro, 2. Não havia a menor chance de que o professor aumentasse as primeiras pontuações. "Mas eu preciso passar de ano", gritou um estudante com Segalla, que imediatamente mandou os dois para fora da sala.
Desde então, o professor nunca mais misturou aspectos da vida pessoal, como amizade, com a profissional. Foi a primeira grande lição da vida adulta do hoje vereador.
Segalla dava aulas ao mesmo tempo em que conduzia sua empresa de engenharia, na época em franca expansão. Mas percebeu que precisava lidar melhor com as ciências humanas, sobretudo nas relações interpessoais. Entrou na faculdade de Direito da Instituição Toledo de Ensino (ITE), pela qual se formou em 1984.
A era Sarney foi um fracasso para a economia. A inflação estourou e afetou substancialmente o setor industrial - principal fonte de renda de Segalla. Era hora de partir para outros rumos. Prestou o concurso para o Ministério Público e passou em 12.º lugar.
O detalhe é que Segalla, àquela altura, nunca havia sequer entrado no Fórum ou escrito uma petição. "O começo foi terrível. Tive bons colegas do MP que me auxiliaram muito", lembra.
Em 1992, o promotor se tornou professor de Direito Constitucional da ITE, onde lecionou até 2006, quando passou a ensinar Direito Penal nas Faculdades Integradas de Bauru (FIB). Um ano antes, em 2005, Segalla se aposentou no MP.
Filiou-se ao Democratas (DEM) pouco depois. E recebeu de Dudu Ranieri, o maior nome em Bauru da legenda que hoje se chama União Brasil, o convite para se candidatar a vereador. Aceitou, mas mal fez campanha. Foi eleito, acredita até hoje, pelos votos dos milhares de alunos para os quais lecionou.
Um deles virou seu colega na Câmara: Guilherme Berriel, vereador do MDB, teve aulas com Segalla durante a faculdade de engenharia mecânica. É impossível prever o futuro, mas certamente outros alunos do engenheiro e mestre do Direito ocuparão as cadeiras do Legislativo local.