A morte da torcedora Gabriella Anelli, de 23 anos, atingida por pedaço de vidro no pescoço nos arredores do Allianz Parque, antes da partida entre Palmeiras e Flamengo, reacendeu a discussão sobre a sensação de insegurança e o medo da violência em estádios de futebol que ainda assombram famílias e mulheres.
Brigas de torcidas, ataques, emboscadas e confrontos entre torcedores e policiais, infelizmente, ainda são comuns no futebol. A rivalidade - que deveria ficar apenas dentro de campo - às vezes se transforma em tragédia.
MEDO CONSTANTE
Torcedora do Palmeiras, Camila Vivo frequenta estádios de futebol desde os 8 anos. Hoje em dia, ela costuma acompanhar sozinha o time do coração, mas revela que o medo é constante. "Durante minha infância e adolescência sempre fui acompanhada aos estádios. Hoje já vou sozinha e tenho algumas estratégias para lidar com a insegurança, como ficar sempre o mais longe possível de confusão e não ir para o estádio em clássicos, porque o medo da violência fica ainda maior", explica a palmeirense.
Para Camila, os casos crescentes de violência afastam, cada vez mais, mulheres e crianças dos estádios de futebol. A morte de Gabriella é mais um alerta de crimes que parecem não ter fim. "A gente fica com medo de virar um ciclo, uma rotina. A rivalidade deveria ser só dentro de campo e não essa selvageria que estamos vendo nos últimos dias, com certeza isso vai fazer as pessoas pensarem duas vezes se realmente vale a pena arriscar sua vida para assistir seu time do coração."
A torcedora já presenciou clima de terror nos arredores do estádio. "Na primeira vez que fui no estádio do Palmeiras, com 13 anos, estava acompanhada com familiares e, ao sair do local, estava tendo uma briga na rua entre torcedores do próprio time. Na hora, só pensamos em nos esconder, então corremos para um bar e ficamos lá até a confusão terminar", relembra.
RIVALIDADE
Na opinião da palmeirense, o cenário só vai mudar quando existirem leis mais duras. "Enquanto não tiver punição e leis mais rígidas, essas cenas de violência vão continuar sendo comuns. Temos a questão da torcida única, que considero muito importante e válida, mas não é suficiente. Infelizmente, a Justiça e a CBF ainda falham muito em relação aos criminosos. A impressão é que estão tratando a morte da Gabriella como mais um caso qualquer", conclui Camila.
SONHO ADIADO
A torcedora Sandra Ziviani, de 60 anos, sonha em levar sua filha, Ana Clara, 17, para assistir a uma partida do seu time do coração, o Corinthians, no estádio, mas a violência afasta cada vez mais as duas do palco do jogo. "É um sonho que tenho há muito tempo. Ela é torcedora fanática do Corinthians, mas ainda não teve a oportunidade de ver o time no estádio e, infelizmente, ainda não tenho coragem de ir por causa da violência e todos esses casos recorrentes de brigas de torcida. Sou viúva e teria que levá-la sozinha, o que aumenta ainda mais o medo. Os estádios não são lugares seguros e confiáveis, principalmente para mulheres", conta a mãe.
Sandra ainda ressaltou a importância de punições mais severas para os criminosos. "Infelizmente isso se tornou uma cultura no futebol brasileiro e essas brigas entre torcidas estão sendo cada vez mais normalizadas. É necessário ter uma punição mais dura para quem comete esses atos e que os pais também possam educar os jovens que arranjam brigas em estádios."