18 de março de 2026
Opinião

Não se iludam

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Domingo de ramos. Celebração da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Vinha de uma vida pública de três anos em que ressuscitou mortos, curou enfermos, fez cegos enxergarem, deficientes andarem e expulsou demônios que ocupavam corpos humanos. Era um fenômeno. As multidões acorriam a ele. Queriam vê-lo, ouvi-lo, tocar nele.

Ao saberem que iria entrar em Jerusalém, nas proximidades da festa da Páscoa, fizeram-no montar uma alimária. Estendiam seus mantos e tapetes para que ele caminhasse, agitavam ramos e cantavam hosana ao filho de Davi.

Essa empolgação durou pouco. Talvez esperassem que ele proclamasse a independência do povo de Israel do jugo romano e assumisse o poder material. Quando constataram sua vulnerabilidade, preso e torturado<ctk:10>, não hesitaram em pedir sua crucifixão. Preferiram Barrabás, um temível malfe<ctk:5>itor, para beneficiário da graça da vida.

É uma lição para os iludidos com o poder. Qualquer partícula de poder atrai moscas. Principalmente as varejeiras, as mais perigosas. Aquelas que estão aptas a sugar o sangue e se alimentar dessa extração. Só que elas percebem, ao longe, quando a autoridade se esvai. Abandonam o que até havia pouco era incensado, para procurar outro alvo.

É o que ocorre em todas as manifestações do fenômeno do poder. Interesseiros, ambiciosos, áulicos, cortesãos, toda a escória sem caráter envolve a figura revestida de momentânea capacidade de atender aos apetites dos gananciosos. Sugam-na de todas as formas. Agradam-na, elogiam-na, protestam os mais elevados sentimentos.

Procure saber o que acontece quando já não podem retribuir ao que delas se espera. São ignoradas, abandonadas, relegadas ao ostracismo.

Se isso aconteceu com Cristo, que se prontificou a assumir a humanidade para religá-la com o Criador, imagine-se o que não acontece com seres normais, envoltos nas vicissitudes que cercam todos os mortais.

É preciso estar atento na subida, porque a descida pode surpreender quem chegou a contar com o apoio dos que protestavam amizade eterna. Os exemplos são abundantes, servem como escola para quem prestar atenção. Mas a regra é o se deixar levar pelo agrado e pelo mimo dispensado a quem dispõe de condições de prestar favores aos que deles necessitarem. As histórias de frustração também se repetem. Basta prestar atenção e revisitar, de quando em quando, quem eram os poderosos há trinta, vinte ou dez anos. E quem está hoje no topo.

Essa reflexão poderia ajudar a compreensão de que a peregrinação pelo planeta propicia experiências várias. Para momentos de alegria, horas, dias, semanas e anos de tristeza. Abastecer-se nos poucos instantes em que se pode reconhecer a frágil felicidade que assiste os humanos, pois o que virá pode ser doloroso, amargo e triste.

Por isso era acertada a prática do início da Semana Santa em tempos idos. Na noite do sábado, fazia-se a procissão do transporte. A bela imagem do Senhor dos Passos era levada – coberta com tecido roxo – até à Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, mais conhecida como "Santa Cruz", na Praça das Bandeiras. No domingo à tarde, após a celebração dos ramos, fazia-se a procissão do encontro: Jesus saía do Largo de Santa Cruz, Nossa Senhora saía da Matriz – hoje Catedral – e as procissões se encontravam na Praça Pedro de Toledo. Ali o belíssimo sermão do encontro. Ajudava a lembrar que os afagos e agrados são transitórios. Enquanto a dor é permanente. Quem não aprende, sofre ainda mais

José Renato Nalini é diretor-geral de universidade, docente de pós-graduação e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras (jose-nalini@uol.com.br)