10 de julho de 2026
JUNDIAÍ

Marido é preso após esposa ser libertada de cárcere e denunciar espancamentos e estupros

Por Fábio Estevam | Polícia
| Tempo de leitura: 6 min
JORNAL DE JUNDIAÍ
Os PMs suspeitaram de que o marido estivesse mentindo, e acabaram localizando e libertando a esposa

Se o inferno de fato existe, então uma mulher de 46 anos, moradora em Jundiaí, esteve lá. Pelo menos, de acordo com suas declarações, após ser libertada na noite desta segunda-feira (16), por policiais militares, da situação de cárcere privado a que vinha sendo mantida pelo marido, de 42. O choro ao ser salva pelos PMs - ela estava trancada dentro de um quarto -, se repetiu por diversas vezes na delegacia durante depoimento ao delegado Rodrigo Carvalhaes. Estuprada, espancada, ameaçada de morte, encarcerada, enganada, convencida de que era a culpada de toda a violência que sofria... Ela viveu de tudo em um relacionamento abusivo com o suspeito que, em várias oportunidades durante o relacionamento, prometia que iria mudar e se tornar uma pessoa melhor. O marido, que, por sua vez, tentou enganar os militares dizendo que não havia mais ninguém na residência, foi preso em flagrante por violência doméstica, sequestro, cárcere privado e maus-tratos, e ainda será investigado por por lesão corporal e estupro.

A PM foi acionada para atendimento de possível ocorrência de violência doméstica e enviou uma equipe para o local. Quando os agentes chegaram, fizeram contato com o suspeito, que num primeiro momento, negou que estivesse ocorrendo qualquer tipo de violência em sua casa, dizendo que morava sozinho. Após algum tempo de conversa, apesar de relutante, autorizou os PMs a entrarem em sua casa para uma averiguação. Ele levou os agentes a todos os cômodos da casa, exceto um, o que chamou a atenção de uma policial. Questionado, ele disse que o quarto era as vezes utilizado pelo seu pai, mas que ele não estava lá.

A policial desconfiou e, ao sair da casa, quando estava na varanda, notou que havia alguém tomando banho no referido quarto. A agente então solicitou que ela saísse do quarto, momento em que notou a vitima com várias lesões pelo corpo, principalmente no rosto. Num primeiro momento ela alegou que havia caído no banheiro e se ferido. Mas a policial, desconfiada de que fosse mentira, insistiu. E então o medo que ela sentia do marido, deu lugar à coragem. A vitima começou a chorar e a desabafar, contando que vinha sendo mantida presa desde a última sexta-feira, quando foi submetida a uma sessão de espancamento com chutes e socos pelo corpo, principalmente na cabeça e rosto. No lençol havia manhas de sangue e, sob a cama, um facão que ele usava para amedrontá-la.

O marido recebeu voz de prisão e foi algemado, sendo conduzido ao Plantão Policial, junto com a esposa.

DEPOIMENTO

Em depoimento ao delegado Carvalhaes, a vítima relatou não apenas a violência que sofreu neste fim de semana, mas em outras situações durante o relacionamento. Inclusive estupro. Em um dos casos, ocorrido em Minas Gerais, onde eles moravam, ela chegou a prestar queixa. Extremamente abalada e chorando muito, conforme relatado pelo delegado e documento oficial, ela contou: "na sexta-feira estávamos no quarto e iniciamos uma discussão por bobeira. Após eu dizer que não estava mais afim de ir à igreja, como havíamos combinado, ele então pediu que eu fizesse um bolo para ele comer antes de ir rezar. Respondi que, se ele fosse comprar fermento, eu faria o bolo. Só que ele não aceita ouvir 'não', ele surtou e me pegou pelos cabelos, me arrastou até o quarto e me colocou na cama. Em seguida começou a dar vários chutes em meu rosto, que ficou todo inchado e ensanguentado. A todo instante eu pedia pelo amor de Deus para ele parar de me bater. Depois ele abriu minha boca e jogou uma grande quantidade de comprimidos (calmantes). Eu tentei não engolir, mas, como havia muito sangue na boca, eu engasguei e acabei engolindo tudo. Depois ainda me fez tomar mais dois comprimidos de um remédio para ansiedade", relatou ela.

Após isso, ele ordenou que ela fosse tomar banho, momento em que, no banheiro, ao se ver no espelho, a vítima se assustou com a própria aparência. "Eu fui tomar banho, meu rosto sangrava muito. Quando me vi no espelho, não acreditei e comecei a chorar, fiquei em pânico, porque eu não me reconhecia, fiquei desfigurada."

Dopada - após ingerir vários comprimidos -, ela acabou dormindo. No dia seguinte (sábado - 15), após tomar o celular dela, o marido pediu perdão, mas a culpou por tudo o que havia acontecido, alegando que ela havia deixado ele nervoso. "E nessa hora eu ainda nem me reconhecia, tinha uma bolha de sangue no meu rosto. Mas no sábado ele não me bateu mais e nem olhava no meu rosto, dizendo que estava com vergonha. Mas eu sei que é tudo falsidade".

Também ao delegado, ela relatou que já foi agredida outras vezes, mas que não prestou queixa ou não contou a ninguém, por medo de que as pessoas a julgassem. Em duas ocasiões, de acordo com o depoimento, ela foi estuprada. Uma desses estupros ocorreu em fevereiro de 2022, época em que eles estavam separados. "Eu estava morando em São Paulo e ele pediu que eu viesse a Jundiaí para fazermos as pazes (antes disso, durante o casamento, ela já havia sido espancada outras vezes, inclusive com registro de ocorrência em Minas Gerais). Eu cheguei e ele estava bêbado. Fomos para o quarto e ele começou a me mostrar um monte de fotos de mulheres que ele havia ficado, ele gosta de mostrar que é homem, e que as mulheres o desejam. Comecei a chorar e a pedir que parasse de me humilhar. Foi então que ele passou a me bater, e eu via nos olhos dele a satisfação em me agredir. E em seguida começou a fazer sexo forçado", contou ela. "Eu me senti culpada e me questionava sobre os motivos que me fizeram a estar com ele novamente", comentou ela. Neste momento o depoimento precisou ser interrompido, pois a vítima teve uma crise de choro.

Após alguns minutos, já mais calma, ela relatou o segundo estupro. "O segundo abuso sexual aconteceu em maio de 2022 (no dia das mães). Fui à casa dele e novamente o encontrei bêbado. Enquanto conversávamos, ele começou a conversar com uma mulher pelo telefone, para me provocar. Em seguida, começou a me agredir, dizendo que ninguém iria me querer, tirou meu vestido e fez sexo forçado comigo, mesmo eu dizendo que não queria", disse ela, completando. "Eu não contei para ninguém isso, estava constrangida, pois as pessoas iriam dizer que eu quis aquilo, que eu procurei a situação, ninguém iria acreditar em mim".

DELEGADO

Em seu despacho, o delegado Rodrigo Carvalhaes determinou a prisão em flagrante, registrando: "reputo configurado o flagrante, pois o indiciado foi encontrado privando a liberdade da vítima, sua esposa, e condições de maus-tratos e grave sofrimento físico e moral. Também é certo que, embora não em situação de flagrante, que o indiciado constrangeu sua própria esposa a praticar sexo, por suas vezes, mediante grave ameça. Da mesma forma, apesar de também fora de estado flagrante, ele a agrediu no dia 14 mediante chutes violentos chutes no rosto e cabeça. Ademais, é importante destacar que a vítima requereu medidas protetivas de urgência e o indiciado demonstra alta periculosidade, de modo que é cabível a decretação de sua prisão preventiva".

Após isso o marido foi levado para o Centro de Triagem de Campo Limpo Paulista. Já nesta terça-feira (17), durante audiência de custódia, o indiciado teve o flagrante convertido em prisão preventiva.

O caso será investigado pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).