Vinte dos 38 mortos no trânsito de Jundiaí entre janeiro e agosto deste ano estavam em motocicletas, o equivalente a 52,6% das vítimas fatais, segundo o Infosiga. Mesmo com a queda de 24% nas mortes gerais em relação a 2025, os acidentes com motos continuam deixando feridos: nos quatro pronto-atendimentos municipais, 698 motociclistas foram atendidos até agosto, alta de 30,5% em um ano. Em setembro, seis motociclistas morreram em diferentes pontos da cidade.
No Hospital São Vicente, 47 motociclistas foram atendidos entre janeiro e agosto, contra 70 no mesmo período de 2025. Segundo o enfermeiro supervisor do pronto-socorro adulto, Fellipe Santos de Oliveira, os acidentes com motos estão entre as principais ocorrências. “As lesões mais frequentes são as fraturas e os traumas em extremidades, como braços e pernas. Também são comuns escoriações e outras lesões decorrentes do impacto e do contato com o solo”, explica.
Um acidente que mudou tudo
Em agosto, o autônomo Clayton Lima, 28 anos, sofreu um grave acidente na Rodovia Dom Gabriel Paulino Bueno Couto. Ele bateu na traseira de um caminhão e foi arremessado para dentro de um banheiro químico transportado pelo veículo. Apesar da cena inusitada, sofreu fraturas na tíbia e na patela da perna direita, precisou ser internado e permanece em recuperação. “Foi o meu primeiro acidente com essa gravidade. Estou em cima da cama, não podendo encostar o pé no chão para não haver trauma no joelho, pois ele saiu totalmente do lugar”, conta.

Sem poder trabalhar, Clayton também ficou sem sua principal fonte de renda. A moto teve perda total e ele não tinha seguro. Uma cirurgia no joelho ainda é avaliada. “Preciso de outra moto para voltar a trabalhar, porque é minha única renda e preciso sustentar minha família. Os médicos informaram que possivelmente serão mais quatro meses de recuperação, contando com a fisioterapia.”

Quem vive nas ruas
O motoboy Kaique Ricardo está há cinco anos na profissão e passa de cinco a dez horas por dia pilotando. Em 13 anos conduzindo motocicleta, diz já ter escapado de acidentes e perdido amigos no trânsito. “Os principais riscos são a falta de disciplina dos motoristas da região. Mudam de faixa sem dar seta, aceleram além do limite de velocidade, colocando os outros motociclistas e motoristas em risco. Se todo mundo tivesse disciplina e seguisse as regras, iria reduzir e muito os acidentes na região de Jundiaí”, afirma.
A Rodovia Dom Gabriel está entre os locais que mais preocupam Kaique. Ele conta que já escapou de três acidentes na via e procura antecipar situações de risco. “Eu piloto imaginando o acidente, para saber como reagir rapidamente. Então entendo que o maior risco é a disciplina das pessoas no trânsito.”
Aprender antes de acelerar
A instrutora Luciane Alves da Silva, proprietária de uma escola de pilotagem para motociclistas no Jardim Tulipas, em Jundiaí, trabalha com treinamentos de pilotagem defensiva para o dia a dia e também para quem busca condução esportiva. “Os três principais cuidados são atenção, equipamentos de segurança e a moto em bom estado de conservação, além de respeitar as leis de trânsito. Muitos acidentes poderiam ser evitados com atitudes simples, como não ter pressa, não pilotar sob efeito de álcool e estar preparado e habilitado para conduzir. A principal dica é ter paciência e empatia no trânsito”, relata.

Para o coronel Aloysio Queiroz, ex-gestor da Unidade de Gestão de Mobilidade e Transporte (UGMT), o comportamento de quem circula pelas ruas está entre os principais fatores dos acidentes. “Todos aqueles que transitam têm sua parcela de responsabilidade na medida em que não obedecem, desrespeitam as regras de trânsito e não têm o senso de coletividade”, afirma.
Queiroz defende fiscalização permanente e monitoramento das vias. “É preciso intensificar a fiscalização e que não sejam só operações sazonais, mas que seja a fiscalização constante.” Segundo ele, o acompanhamento dos pontos críticos também pode indicar onde são necessárias intervenções de engenharia.
Entre janeiro e agosto, Jundiaí registrou 50 mortes no trânsito em 2025 e 38 neste ano, queda de 24%. As motos, porém, responderam pela maioria das vítimas fatais de 2026. No sistema Anhanguera-Bandeirantes, foram 616 acidentes até agosto, contra 581 em 2025. 155 envolveram motocicletas, ante 170 no ano passado. As mortes de motociclistas nesses trechos caíram de dez para três.