As chamadas canetas emagrecedoras transformaram o debate sobre perda de peso no Brasil. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida, utilizados sob indicação médica para determinadas condições, passaram a ocupar também as redes sociais, onde o emagrecimento rápido frequentemente aparece associado a corpos cada vez mais magros. No primeiro semestre de 2026, as vendas desses medicamentos cresceram 23,2% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Anvisa. Em meio à expansão do uso, especialistas alertam que a valorização excessiva da magreza pode ser especialmente perigosa para pessoas vulneráveis a transtornos alimentares.
É nesse cenário que se encontra uma estudante universitária de 23 anos, que prefere não ser identificada. A relação difícil com o próprio corpo começou ainda na infância, quando ela passou a enxergar uma imagem maior do que aquela que realmente tinha. Aos 11 anos, começou a restringir a alimentação e percebeu que a perda de peso era acompanhada por elogios. “Eu gostava de ouvir minha barriga roncando e sentir meu estômago doendo fazia eu me sentir bem”, conta. O reconhecimento externo acabou reforçando uma relação cada vez mais rígida com a comida.
Da restrição à perda de controle
A trajetória se intensificou durante e depois da pandemia, quando a jovem ganhou peso e voltou a ouvir críticas de pessoas próximas. Ao morar sozinha, passou a reduzir ainda mais a alimentação e alternar períodos de restrição com episódios de compulsão. O ciclo era seguido por culpa e novas tentativas de controlar o peso. “Eu sempre soube que havia algo errado na forma como me alimentava, mas via apenas como falta de vontade, não como um problema”, relata. Somente neste ano, já em acompanhamento psicológico, recebeu o diagnóstico de um transtorno alimentar.
A experiência da jovem ajuda a revelar um mecanismo que, segundo a psicóloga Victoria Souza, especialista em comportamento e transtornos alimentares em adolescentes e adultos, ultrapassa a preocupação individual com a aparência. “O padrão corporal dominante acaba determinando qual tipo de corpo é reconhecido como desejado, correto e até mesmo como referencial de saúde”, explica. Para ela, a busca por esse modelo pode estar ligada à necessidade de pertencimento e validação. Quando a aprovação passa a depender da aparência, emagrecer deixa de ser apenas uma escolha e pode se transformar em uma tentativa de se sentir adequada.
Para a estudante, as redes sociais se tornaram um dos maiores desafios durante o tratamento. Vídeos sobre dietas, exercícios, emagrecimento e, principalmente, canetas emagrecedoras funcionam como gatilhos. “Vejo corpos cada vez mais magros, as pessoas falando sobre as canetas emagrecedoras e sempre me pego pensando que seria muito mais fácil se eu começasse a usar”, afirma. A psicóloga explica que essa exposição constante pode aumentar a sensação de inadequação. “Essa hipervalorização pode sim ser um fator desencadeante e mantenedor de sintomas de transtornos alimentares”, diz, ressaltando que os transtornos têm causas multifatoriais e que as redes sociais não são, sozinhas, responsáveis pelo desenvolvimento dessas condições.
Quando emagrecer vira uma obrigação
A nutricionista Giovanna Spinardi, especialista em comportamento alimentar e em formação na área de transtornos alimentares, observa que a popularização das canetas também modificou a percepção sobre o próprio processo de emagrecimento. Segundo ela, a internet frequentemente apresenta a perda de peso como algo simples, enquanto o emagrecimento é influenciado por fatores sociais, econômicos e comportamentais. A consequência pode ser frustração e uma relação cada vez mais difícil com a comida e o corpo. “O emagrecimento, por si só, é muito complexo”, afirma. Para quem já apresenta uma relação fragilizada com a alimentação, a promessa de rapidez pode intensificar a cobrança.
A história da estudante também mostra como comentários sobre o corpo podem ter consequências duradouras. Quando perdeu peso na infância, os elogios que recebeu ajudaram a associar a magreza à aprovação. Giovanna explica que esse mecanismo pode reforçar comportamentos prejudiciais. “Se ela recebe muito elogio pela magreza, isso pode intensificar cada vez mais os comportamentos disfuncionais em relação a manter aquele corpo muito magro”, afirma. Victoria acrescenta que o sinal de alerta aparece quando a preocupação com peso e aparência ganha rigidez e começa a interferir nos pensamentos, emoções e comportamentos.
As especialistas destacam que buscar emagrecimento não é, por si só, um comportamento problemático. A questão está no lugar que o peso ocupa na vida da pessoa. Segundo Giovanna, quando a prioridade é saúde, o cuidado deve envolver sono, alimentação, atividade física, rotina e qualidade de vida, deixando o peso como consequência. “A partir do momento que a gente foca na questão da qualidade de vida e deixa o peso como uma consequência dessa mudança, não gera uma cobrança excessiva em relação ao peso”, explica. Já quando a estética se torna prioridade absoluta, podem aparecer culpa, medo de comer, restrição e exercícios compensatórios.
Canetas não substituem o cuidado
A popularização dos medicamentos também aumenta a necessidade de discutir seus limites. O GLP-1 tem indicações médicas específicas e deve ser utilizado com acompanhamento profissional. Para Giovanna, o problema está em imaginar que a medicação, sozinha, resolverá comportamentos que não foram compreendidos. “Quando o motivo não é identificado, ele fica silenciado durante o uso do medicamento”, afirma. A Anvisa determinou, em 2025, a retenção de receitas para medicamentos agonistas de GLP-1, diante da necessidade de ampliar o controle sobre o uso dessas substâncias. Os dados de crescimento das vendas e de irregularidades reforçam que se trata de um fenômeno que ultrapassou os consultórios e ganhou espaço na sociedade.
Os números disponíveis mostram que os transtornos alimentares já representam um desafio importante para a saúde pública. No Estado de São Paulo, as internações relacionadas a esses transtornos passaram de 76, em 2023, para 125, em 2024 — aumento de 64,47%. Os atendimentos também cresceram de 540 para 579 no mesmo período. Os dados não permitem estabelecer relação direta entre o aumento das canetas e o crescimento dos transtornos, mas ajudam a dimensionar um cenário em que a relação com o corpo e a alimentação merece atenção. Para a estudante, o impacto dessa pressão já é concreto. “Ter o corpo dos sonhos não tiraria meu medo de perdê-lo, talvez só o deixasse maior”, reconhece.