TURISMO

Mulheres superam o medo e transformam viagens em liberdade

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 4 min
Jornal de Jundiaí
Arquivo pessoal
A agência é um espaço para unir mulheres por meio de vivências únicas
A agência é um espaço para unir mulheres por meio de vivências únicas

Viajar pode ser considerado uma forma de descanso, descoberta e liberdade, que possibilita conhecer novos lugares, viver experiências diferentes ou simplesmente sair da rotina. Mas, quando a viajante é uma mulher — especialmente sozinha —, a decisão de embarcar sem companhia continua cercada por receios e cuidados que influenciam desde a escolha do destino até o planejamento da viagem. 

Uma pesquisa do Ministério do Turismo e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), com 2.712 mulheres, concluiu que 62% das entrevistadas deixaram de viajar sozinha por questões de segurança, enquanto 61% disseram já ter vivido alguma situação de perigo durante viagens desacompanhadas.

VIAJAR EM GRUPO

Mas não é fácil encontrar companhias para viajar, principalmente com o mesmo pique e o mesmo destino em mente. Dessa frustração, nasceu uma agência de viagens exclusiva para o público feminino, atualmente gerenciada pelas sócias Raquel Cirino e Fernanda Derasmo.

As sócias Raquel Cirino e Fernanda Derasmo defendem o turismo como ferramenta de liberdade e conexão

A agência é um espaço para unir mulheres por meio de vivências únicas que criam conexões para a vida. Fernanda destaca a importância das viagens na própria liberdade das mulheres. “É muito gratificante quando elas ganham independência ao longo da viagem, porque elas chegam com medo de fazer as coisas e, no final, já se sentem mais à vontade”.

Para as sócias, estar longe das famílias permite que as mulheres sejam autênticas e aproveitem a viagem sem preocupações. “Elas podem falar besteira, dar risada e ser o centro das atenções. Elas só precisam pensar na mala”, ressalta Raquel.

Entretanto, o fato de ser um grupo apenas de mulheres exige atenção especial à segurança, principalmente em destinos mais conservadores. “Nós fazemos uma reunião pré-embarque para todos os destinos, com orientações sobre costumes e hábitos do país que vamos visitar. Deixamos claro que nós estamos indo visitá-los, então nós temos que nos adaptar”, explica Fernanda.

“Até para viajar as mulheres precisam ser corajosas, porque têm várias barreiras para vencer. A primeira delas é a segurança, porque desde que a gente nasce, a gente precisa brigar com esse aspecto”, conclui Raquel.

Raquel Cirino e Fernanda Derasmo reforçam a importância de conhecer a cultura local

EXPERIÊNCIA SOLO

Mas ainda há mulheres corajosas que entram de cabeça na aventura de conhecer o mundo. Segundo a pesquisa da Unesco, 31,4% das entrevistadas viajam sozinhas com frequência, sinalizando que a experiência é considerada gratificante e libertadora, apesar das incertezas e dos riscos.

Uma dessas mulheres é Adriana Rodrigues de Camargo Lopes, professora de Artes e artista têxtil que, aos 55 anos, já conheceu diversos lugares, no Brasil e no mundo. Adriana conta que, desde pequena, sempre gostou de conhecer lugares diferentes e, depois de casada, encontrou apoio no marido para continuar. “Meu marido começou a viajar a trabalho e me incentivava a encontrá-lo nos lugares onde estava. Até hoje, ele é quem mais me incentiva a realizar minhas viagens”.

Adriana Rodrigues compartilha experiências de viagens solo

Apesar de a primeira viagem solo a ter deixado ansiosa, Adriana não desistiu. Hoje, tendo superado um pouco do medo e da insegurança, ela enxerga vantagens em viajar sozinha. “Adoro a possibilidade de organizar meus próprios roteiros e horários, pois gosto de acordar cedo para explorar ao máximo os lugares. Gosto dessa liberdade de escolher tudo o que desejo conhecer e compreender o dia a dia e o estilo de vida dos moradores locais”.

Com o passaporte recheado de carimbos, Adriana destaca que o Brasil possui diversos destinos acolhedores para o público feminino, como Gramado, Ouro Preto, Campos do Jordão, Lençóis Maranhenses e muitos outros. Em terras internacionais, países europeus, como Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal, Bélgica e Holanda, e vizinhos da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai, foram muito elogiados pela sensação de segurança que despertaram.

Porém, nem tudo são flores: segundo ela, já enfrentou diversas situações desagradáveis viajando sozinha, uma delas, em Bruxelas. “Estava dentro de um táxi e, ao término da corrida, o taxista esticou o braço e pediu que eu mostrasse minha carteira para verificar quanto dinheiro possuía. Como a porta já estava destravada, abri a porta, joguei o dinheiro no banco e me afastei rapidamente. Fiquei extremamente assustada, pois jamais havia vivido algo parecido”.

Mesmo assim, Adriana não pensa em parar com as viagens. “Você sai da zona de conforto, então é uma grande oportunidade para superar medos, aumentar a autoestima e fortalecer a confiança. Posso garantir que vale a pena, porque é uma oportunidade de descobrir novas características sobre si mesma”. 

Ela também ressalta que, para quem quer viajar sozinha, o mais importante é o planejamento e a pesquisa, mas também a prevenção, compartilhando a localização com pessoas de confiança e garantindo um seguro. Além disso, conclui: “Comece com lugares próximos e entenda suas preferências, mas também observe se você gosta da própria companhia. Isso é importante antes de fazer sua primeira viagem solo”.

Com diversos destinos no currículo, Adriana acredita que viajar sozinha fortalece a autoestima, amplia a confiança e proporciona autoconhecimento

Para viagens internacionais, principalmente à Europa, é preciso ter cuidado redobrado com os pertences. Já para o território nacional, o governo federal preparou o Guia para mulheres que viajam sozinhas, com relatos, orientações e dicas de planejamento e segurança para antes e durante a viagem. Compreender contextos culturais, reconhecer sinais de alerta e conhecer direitos são atitudes que ampliam a autonomia.

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