APÓS ENCHENTE

Eldorado do Sul tem ruas com lama e lixo; retomada é lenta

Por Isabela Menon | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Os rastros da lama tingem a cidade, que tenta limpar o estrago causado pelas fortes chuvas que tiveram início no fim de abril
Os rastros da lama tingem a cidade, que tenta limpar o estrago causado pelas fortes chuvas que tiveram início no fim de abril

Lixo, entulho e odor forte são vistos nas ruas logo na chegada a Eldorado do Sul, localizada na região metropolitana de Porto Alegre. Os rastros da lama tingem a cidade, que tenta limpar o estrago causado pelas fortes chuvas que tiveram início no fim de abril.

No município, cuja população estimada é de 39,6 mil, foram necessários 30 dias até a água baixar --por ali, o governo estadual afirmou que 98% do território ficou submerso.

Na saída de Porto Alegre em direção ao pequeno município, pessoas se amontoam, com cavalos e cachorros, em barracas embaixo de pontes na rodovia. Elas improvisam tendas ou dormem dentro de automóveis.

Eldorado do Sul, que fica há 12 quilômetros da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, é uma das cidades mais afetadas pela cheia do lago Guaíba Bruno Santos - 17.mai.24 Folhapress Eldorado do Sul, que fica há 12 quilômetros da capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, é uma das cidades mais afetadas pela cheia do lago Guaíba **** Moradores de Eldorado do Sul definem o momento de retomada como lento e demonstram preocupação com o futuro do município.

Claudia Bottega, 49, limpava o imóvel em que vive na região central da cidade na tarde deste sábado (15). Ela lamenta o ritmo da reconstrução na região. "Ainda tem muita sujeira, a água demorou para chegar", diz Bottega, que se refugiou na casa da sogra durante um mês em Porto Alegre.

Segundo ela, como grande parte da cidade foi afetada pelas enchentes, há poucas pessoas disponíveis para ajudar na faxina e reconstrução. Grande parte dos comércios e restaurantes seguem fechados. Igrejas foram atingidas também. "Ninguém conseguiu efetivamente retomar com força total", diz Bottega, que afirma que o marido está há 25 dias limpando o local que trabalho, mas não consegue finalizar. "Parece que tu limpas, limpas, limpas, mas não és nem 2% do total", diz ela, que decidiu sair de casa quando a água começou a invadir o imóvel por medo de perder o carro.

Como atua remotamente na área de tecnologia, não deixou de trabalhar. "Mas, fica aquela aflição de saber como vai encontrar a casa." Ela diz que há uma dificuldade da prefeitura, que também foi atingida, para organizar a situação, mas considera que a resposta deveria ser muito mais eficaz. "A limpeza tinha que ser mais ágil para que as pessoas tivessem mais força de voltar e reorganizarem."

Bottega nota uma debandada de pessoas da pequena cidade. Seu filho de dez anos retornou para a escola, mas diversos colegas já não estão mais matriculados, pois mudaram de cidade. "É triste ver uma cidade que estava em desenvolvimento e que agora vai regredir certamente", diz a moradora, que explica que, antes das chuvas, a cidade tinha eventos, encontros nas praças, construção de condomínios e investimentos no comércio.

A poucas quadras dali, Elida Pereira, 55, observava o movimento na rua. Ela diz que tem sentido medo e chegou a sugerir para a filha que elas juntem o pouco que restou e saiam da cidade. "Vai saber se vai subir de novo?", indaga ela, que conseguiu arrumar um cômodo e a cozinha da casa.

Quando conseguiu voltar para casa, ela fez tanta força para arrombar a porta que machucou a costela. Apesar do cenário de destruição, ela afirma que teve acesso muito fácil à saúde, uma vez que o local está sendo atendido pelo Exército, que comanda a força-tarefa de ajuda na região. "Nunca fomos tão bem atendidos quanto agora, precisou vir uma enchente para isso acontecer", diz ela, que está afastada do emprego em uma empresa de elevadores --a sede foi alagada e ainda não retomou as atividades.

Em meio a previsões de retorno de fortes chuvas para a semana, Pereira formulou um plano B para caso sua residência volte a inundar. "Separei um dinheiro para frete, vou chamar um caminhão lá de Guaíba e me mudo para Santa Catarina." Durante as chuvas, ela foi retirada de casa com a ajuda de uma amiga com a água já no ombro. A família conseguiu salvar quase todos os animais que mantinha: dois cavalos e dois cachorros. Apenas um cão ainda não foi encontrado.

Pereira que vive com a filha, dois cunhados e uma irmã, brinca que depois da tempestade aguarda um momento de paz. "Tô esperando para ser exaltada porque humilhada já fui demais", brinca.

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