Opinião

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No tempo do televizinho

No tempo do televizinho

19/09/2023 | Tempo de leitura: 3 min



19/09/2023 - Tempo de leitura: 3 min

Ver televisão sentado numa cadeira em frente a um aparelho "monstruoso", preto e branco e todo mundo no maior silêncio é coisa que não existe mais. Mas no ano de 1963 ver televisão era uma festa para mim. Nos meus 12 anos de idade jamais imaginei que me tornaria um televizinho, nem sabia o que era isso! E era assim: juntávamos, eu e meus irmãos, e corríamos para a casa de seu Antonio para ver televisão, nos transformando em televizinhos...

Cumprimentávamos os donos da casa, já com um abajur aceso para "melhorar a imagem da televisão", sentávamos rapidamente para não tirar a atenção das pessoas à cena que se mostrava na tela, respirávamos fundo e devorávamos tudo o que ali se via...

A Tevê Excelsior, canal 9, era líder de audiência. Era ali que apareciam os grandes artistas, os melhores programas. Depois vinha a Tevê Tupi, canal 4. Globo ainda não existia, era Nacional e tinha, ainda, a Tevê Record, canal 7.

Os programas de sucesso eram "A marca do Zorro", "Vigilante Rodoviário", "Moacyr Franco Show", "Programa Luiz Vieira", "Rin Tin Tin" e, claro, novela... Aliás, foi nesta época que apareceu a primeira novela na televisão e não haviam cenas externas. E a novela se chamava "2-5499 Ocupado" e me lembro dos principais atores: Tarcísio Meira, Glória Menezes e Lolita Rodrigues.

Claro que não vou contar aqui o que aconteceu na novela, nem quem casou com quem, mas era diferente ver televisão, principalmente quem não tinha. Mas o silêncio era primordial na sala. As únicas palavras que dizíamos era "Boa noite", quando chegávamos e "Boa noite", quando íamos embora. E a saída acontecia exatamente no momento em que entrava no ar a propaganda dos Cobertores Parahyba que diziam "Está na hora de dormir, não espera mamãe mandar..."

Mas seu Antonio controlava tudo. Não com controle remoto, pois isso não existia. Mas com o controle de voz: "muda daí", "vê se começou a novela", "olha o silêncio". Claro que nas primeiras ordens era dona Ana, sua filha, quem obedecia. Levantava rapidamente de sua cadeira, colocada mais próxima da televisão, exatamente para fazer as mudanças de canal, e seguia as ordens do pai. A última e mais austera determinação "olha o silêncio" era para todos os presentes. E isso obedecíamos, com certeza. Principalmente eu e meus irmãos, pois temíamos não poder voltar ali no dia seguinte.

Se queríamos conversar com alguém sobre assuntos de doença em família, tínhamos que ir à cozinha. E dona Ana nos levava até lá, mas atenta ao que o controlador da televisão dizia. E essas conversas não poderiam durar mais do que dois minutos ou continuar no dia seguinte. Mas antes de se ligar a televisão. E televisão não ficava no ar o dia inteiro... Alguns canais só entravam no ar no início da noite e, muitas vezes, antes da meia-noite já estavam fora do ar.

"Vigilante Rodoviário" e "Rin Tin Tin" eram nossos programas favoritos. Gostávamos de ver os cães obedecendo seus donos, combatendo bandidos e entusiasmando o televizinho. Mas rir não podia ser muito alto e muito menos conversar ou vibrar com alguma vitória de nosso "herói". Cutucávamos um ao outro, nos sorríamos e, na volta para casa contávamos a cena que tinha nos entusiasmado. Tudo isso para, no dia seguinte, ser televizinho outra vez...

Nelson Manzatto é jornalista (nelson.manzatto@hotmail.com)

Ver televisão sentado numa cadeira em frente a um aparelho "monstruoso", preto e branco e todo mundo no maior silêncio é coisa que não existe mais. Mas no ano de 1963 ver televisão era uma festa para mim. Nos meus 12 anos de idade jamais imaginei que me tornaria um televizinho, nem sabia o que era isso! E era assim: juntávamos, eu e meus irmãos, e corríamos para a casa de seu Antonio para ver televisão, nos transformando em televizinhos...

Cumprimentávamos os donos da casa, já com um abajur aceso para "melhorar a imagem da televisão", sentávamos rapidamente para não tirar a atenção das pessoas à cena que se mostrava na tela, respirávamos fundo e devorávamos tudo o que ali se via...

A Tevê Excelsior, canal 9, era líder de audiência. Era ali que apareciam os grandes artistas, os melhores programas. Depois vinha a Tevê Tupi, canal 4. Globo ainda não existia, era Nacional e tinha, ainda, a Tevê Record, canal 7.

Os programas de sucesso eram "A marca do Zorro", "Vigilante Rodoviário", "Moacyr Franco Show", "Programa Luiz Vieira", "Rin Tin Tin" e, claro, novela... Aliás, foi nesta época que apareceu a primeira novela na televisão e não haviam cenas externas. E a novela se chamava "2-5499 Ocupado" e me lembro dos principais atores: Tarcísio Meira, Glória Menezes e Lolita Rodrigues.

Claro que não vou contar aqui o que aconteceu na novela, nem quem casou com quem, mas era diferente ver televisão, principalmente quem não tinha. Mas o silêncio era primordial na sala. As únicas palavras que dizíamos era "Boa noite", quando chegávamos e "Boa noite", quando íamos embora. E a saída acontecia exatamente no momento em que entrava no ar a propaganda dos Cobertores Parahyba que diziam "Está na hora de dormir, não espera mamãe mandar..."

Mas seu Antonio controlava tudo. Não com controle remoto, pois isso não existia. Mas com o controle de voz: "muda daí", "vê se começou a novela", "olha o silêncio". Claro que nas primeiras ordens era dona Ana, sua filha, quem obedecia. Levantava rapidamente de sua cadeira, colocada mais próxima da televisão, exatamente para fazer as mudanças de canal, e seguia as ordens do pai. A última e mais austera determinação "olha o silêncio" era para todos os presentes. E isso obedecíamos, com certeza. Principalmente eu e meus irmãos, pois temíamos não poder voltar ali no dia seguinte.

Se queríamos conversar com alguém sobre assuntos de doença em família, tínhamos que ir à cozinha. E dona Ana nos levava até lá, mas atenta ao que o controlador da televisão dizia. E essas conversas não poderiam durar mais do que dois minutos ou continuar no dia seguinte. Mas antes de se ligar a televisão. E televisão não ficava no ar o dia inteiro... Alguns canais só entravam no ar no início da noite e, muitas vezes, antes da meia-noite já estavam fora do ar.

"Vigilante Rodoviário" e "Rin Tin Tin" eram nossos programas favoritos. Gostávamos de ver os cães obedecendo seus donos, combatendo bandidos e entusiasmando o televizinho. Mas rir não podia ser muito alto e muito menos conversar ou vibrar com alguma vitória de nosso "herói". Cutucávamos um ao outro, nos sorríamos e, na volta para casa contávamos a cena que tinha nos entusiasmado. Tudo isso para, no dia seguinte, ser televizinho outra vez...

Nelson Manzatto é jornalista (nelson.manzatto@hotmail.com)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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