“A barbárie do conflito consumou-se na estrada da "Vendinha". Em um erro de cálculo fatal, acreditando que poderia negociar a paz de forma isolada com os coronéis da Borda da Mata, o Juiz Rodrigues Pombo viajou ao encontro do Capitão Anselmo no dia seis de novembro. Foi capturado e levado à força. Três dias depois, seu corpo putrefato foi encontrado em um buraco à beira do caminho. Estava sem as orelhas, o troféu sangrento da vingança ruralista contra a elite urbana conservadora. O assassinato brutal de Pombo silenciou, por medo, a rotina dos francanos. Naquela mesma madrugada, uma portaria do Padre João Cardoso nomeava Anselmo "defensor oficial do sossego geral", e ele entra triunfante na Vila Franca como dono absoluto das pessoas e da lei.”
Este trecho foi pinçado do artigo “História de Franca, segunda parte, de 1831 a 1840: Faroeste Caboclo”, autoria de Baltazar Gonçalves, professor de História formado pela Unesp, pós graduado em Terapia Comportamental cognitiva pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo, educador na rede pública estadual, membro da Academia Francana de Letras.
O relato impactante, sobre episódio quase mítico, a Anselmada, mostra detalhes pouco revelados até aqui nas publicações eventuais, e se encontra na página ‘Nossas Letras’ do portal GCN. O texto dessa segunda crônica (palavra tão cara aos historiadores), como o da anterior, de sábado 7, caracteriza-se por alta qualidade histórica e literária, mantendo o leitor preso a cada frase, curioso pelos detalhes trazidos à baila a respeito da formação de Franca que neste novembro celebra 202 anos. Outros dois artigos serão publicados nos dias 21 e 28. Se mantiverem as qualidades dos primeiros, ousarei sugerir à Municipalidade que os publique como opúsculo.
Como jornalista, professora e leitora, acompanho há décadas o que se escreve sobre a fundação da cidade, pois o Comércio da Franca, por 43 anos, e o Portal GCN, desde 2007, sempre publicaram farto material por ocasião da efeméride. O aniversário de nossa cidade mereceu de todos os diretores, desde José de Mello, o fundador, em 1915, grande consideração, acreditando todos que não se constrói presente fidedigno à identidade de um lugar se não se resgatam os alicerces do passado. E tendo lido tanta coisa ao longo de um tempo já extenso, digo que os dois primeiros artigos de Baltazar Gonçalves me surpreendem pela riqueza de detalhes que eu ignorava e geralmente ficam escondidos em camadas de uma história oficial que omite peculiaridades essenciais para entender o dinamismo do espaço urbano. Assim revelados pelo historiador, elas desvelam facetas singulares de um coletivo que nasceu sob condições específicas, firmou-se pela via da luta dos opostos, resistiu bravamente e está sempre se reinventando. Com estilo fluido, narração elegante, argumentação lógica, os textos de Baltazar Gonçalves oferecem ao leitor a oportunidade rara de entrar em contato com episódios que, contextualizados também na vida política do país, mostram porque somos francanos com nossas qualidades e idiossincrasias.
Leiam, senhoras e senhores. A Atenas da Mogiana não pode ter morrido com o Mercado Livre.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras