"A cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, marcas, sulcos, desvios." - Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
ENTRADA: Venha pelo chão batido, entre colinas e matas sinta os ventos da mudança. Antes do desenho no mapa, cidades nascem do sussurro da necessidade, e dos sonhos por caminhos inventados: pelo medo, pelas guerras, por fugas e esperança. No final do século 18, a cidade onde dorme o povo francano era um pedaço de sertão bruto. Mesmo antes de ser vila, Franca era pouso, paragem, estalagem. Ponto convergente, caminho entre passagem e descanso. Surgiu distraída, mas com a função de suprir as rotas de abastecimento para as “Entradas” e as “Bandeiras”, aqueles movimentos de expansão colonial que você, leitor, estudou no ensino fundamental. O fluxo ia e vinha da Capitania de São Paulo e das Minas Gerais para Goiás. Caminhos abertos para o interior do continente que desfizeram em pouco tempo o Tratado de Tordesilhas que dividia entre portugueses e espanhóis as terras do recém-descoberto Mundo Novo. O isolamento geográfico desse pedaço de chão revelou-se o destino de muita gente e logo foi batizado de "Belo Sertão da Estrada dos Goyazes". Franca esteve ligada, desde o primeiro casebre, aos sobressaltos da história que redesenharia o mapa do país nos idos de 1789. Mas antes de lembrarmos aqui dos eventos dramáticos da Inconfidência Mineira e a consequente diáspora após o declínio do ciclo do ouro, demoremos um pouco mais no silêncio das matas ancestrais.
OS NATIVOS: O silêncio das matas ancestrais por onde passa o branco desbravando a terra parece verso de poeta parnasiano, aristocrata ou burguês descontente a sonhar um paraíso perdido. O silêncio nas matas, impenetráveis para o colono do interior paulista, guardava uma vida pulsante e antiga, uma história muito anterior à chegada dos primeiros europeus em 1500. Eram terras já povoadas e a solidão cantada em versos e trovas era moda de viola dos que chegaram para coabitar. Toda essa vastidão era território dos Caiapós (kayapós), povo instalado em comunidades que conheciam cada curva dos rios e todos os segredos da floresta. Viviam da caça, da coleta e de uma agricultura sustentável dinâmica que seguia os ciclos da natureza. Eram mestres na arte de cultivar a terra sem feri-la. Espalhavam plantações itinerantes de milho, mandioca e, principalmente, de batatas-silvestres (cultivo tão farto que acabou batizando a futura cidade vizinha de Batatais). Essa nação, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê, desenvolveu rica pintura corporal e botoques de madeira ou osso que usavam para decorar lábios e orelhas, símbolos de identidade e pertencimento à floresta. Longe do capitalismo mercantil e da Companhia de Jesus trazida pelos jesuítas, esses povos conviviam em harmonia milenar sem o som do machado, sem a ganância do ouro, sem a noção de pecado ou de salvação pela cruz de Cristo. Tudo isso mudaria com os conflitos sangrentos que viriam na esteira da exploração colonial em expansão.
GENTE ESCRAVIZADA: Embora o Brasil como um todo tenha recebido entre 4 e 5 milhões de africanos escravizados ao longo de 300 anos, no sertão paulista onde Franca existiria no futuro a população escravizada era trazida em grande parte por fluxos migratórios vindos das Minas Gerais e compunha cerca de 30% dos habitantes locais, em sua maioria já nascidos em solo brasileiro. Para essa região, o fluxo mais intenso foi de povos do grupo Banto, da África Central e Meridional, negociados nos portos localizados onde hoje ficam Angola, República Democrática do Congo e Moçambique. Foram braços pretos que ergueram os primeiros engenhos rústicos, as primeiras lavouras de subsistência e cuidaram dos rebanhos. É dos povos bantos que herdamos grande parte do vocabulário do dia a dia tais como caçula, moleque, fubá, jiló, canjica, dengo. Também as estruturas rítmicas e as primeiras manifestações religiosas das festas do Congado e do Moçambique, tradicionais até hoje no interior paulista e mineiro.
OS CHEGANTES: Para quem chegasse ao que seria Franca um dia, aquele era um sertão inóspito e desafiador. A sobrevivência era um teste diário de resiliência. A vida dos colonos se atrelava aos dois córregos conhecidos hoje como Córrego dos Bagres e Córrego Cubatão. Os primeiros brancos e mestiços a permanecerem era gente simples que tinha construído pequenos ranchos rústicos de sapé e pau-a-pique. Erguiam essas estruturas para acolher as caravanas e os carros de boi que viajavam por meses a fio entre Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Comercializavam indígenas escravizados (os "negros da terra") já que na primeira fase das Bandeiras, a captura e a venda de nativos para trabalhar nas lavouras era a atividade mais lucrativa, seguida da mineração do ouro e pedras preciosas. Com a descoberta de jazidas, tornaram-se os principais negociantes e transportadores de ouro em pó, diamantes e esmeraldas vindos dos interiores do Brasil. O gado e as mulas (ou muares) eram negociados por tropeiros que seguiam esse percurso passando pela região. Os animais eram vitais para o transporte de carga e força de trabalho. Também eram comercializadas ferramentas e armas, como foices, machados, enxadas, facas, pólvora e espingardas, trazidas do litoral para abastecer os arraiais e garimpos onde esses produtos eram raros e caros. Gêneros alimentícios de subsistência eram vitais, alimentos de fácil conservação como o charque (carne seca), a farinha de mandioca, o milho, o feijão e o toucinho. O sal grosso era uma das mercadorias mais valiosas e disputadas que vinha das salinas do litoral e era indispensável para conservar a carne e alimentar o gado. Os tecidos e roupas rústicas eram feitos de algodão grosso e sarja, vestimentas resistentes para quem trabalhava dia e noite. Outros itens muito desejados e valiosos para o comércio que surgia eram o fumo (tabaco) e a aguardente (cachaça), produtos de altíssima demanda nos arraiais, usados tanto para o consumo dos mineradores e peões quanto como moeda de troca nas negociações locais. O sustento dos primeiros sertanejos dependia da pesca. Os pequenos ribeirões dos Bagres e do Cubatão, que hoje cruzam avenidas movimentadas da cidade, alimentavam as bacias maiores formadas pelo Rio das Canoas, o Rio Grande, o Rio Sapucaí-Mirim, o Ribeirão Pouso Alegre e o Ribeirão das Macaúbas. Somava-se à mesa muitas frutas nativas e mel silvestre, a colheita das roças de milho e feijão, a caça de antas e queixadas na mata. Diante do isolamento geográfico afastado por semanas de qualquer centro urbano estruturado, a autossuficiência era obrigatória. As roupas vinham de teares manuais rudimentares, os sapatos eram simples pedaços de couro amarrados aos pés.
OS FRANCANOS: Nessa fronteira bravia, a solidariedade tornou-se a lei. À medida que as famílias começaram a se fixar ao redor do Arraial de Covas, na região atual do bairro Miramontes, nasceu uma forte cultura de mutirões. Vizinhos se uniam para erguer mais paredes de barro e abrir novas trilhas. Contudo, essa expansão territorial custou um preço trágico. O avanço das roças, das pousadas e dos casebres provocou tensão constante. Os guerreiros Caiapós, defendendo seu território e sua liberdade, reagiam às invasões. Os habitantes da vila viviam em permanente estado de alerta, equilibrando o deslumbramento pela vida nova com o medo dos ataques. O avanço dessa expansão foi implacável com os povos originários, empurrando-os para a invisibilidade. Nesse caldeirão de sobrevivência, Franca era forjada. Antes mesmo que as fronteiras da comarca traçassem qualquer cartografia, a alma da nossa gente era forjada: foi o sangue dos Caiapós, a força e os saberes da ancestralidade africana, a perseverança dos tropeiros paulistas, o suor dos mineiros trabalhando de sol a sol. Identidade forte, resiliente e generosa, eis o caráter do povo francano.
DE VOLTA AO INÍCIO: Sinta os ventos da mudança, os ecos do mundo exterior logo alcançariam o sertão. No ano de 1789, a Capitania de Minas Gerais ardia em febre. Intelectuais, comerciantes, parte do exército e poetas conspiravam contra a Coroa Portuguesa na (lembra da sua aula de História?) Inconfidência Mineira. A conspiração foi sufocada sob o peso do cadafalso e do exílio. Tiradentes sofreu de forma exemplar. O sonho de uma República independente foi temporariamente calado, mas a poeira levantada pelas botas dos tropeiros e colonos continuou a se espalhar. Fugindo do rigor fiscal ou buscando novas chances longe dos olhos do fisco real, o homem colonial avançava, empurrando as fronteiras e rompendo de vez o equilíbrio dos povos nativos com a natureza. Foi essa gente, impulsionada pelos ventos da rebeldia e da necessidade, que migrou, fincando seus sonhos de liberdade e subsistência nessas paragens recém-habitadas. O calendário marcava 3 de dezembro de 1805: Franca nascia como um pequeno povoado à beira da Estrada dos Anhangueras. Casebres erguidos não como um ponto final das jornadas, mas feitos porto seguro para novos viajantes. Mas o mundo, que sempre muda, estava prestes a virar de ponta-cabeça. De novo. Apenas três anos depois, em janeiro de 1808, fugindo do avanço implacável das tropas de Napoleão Bonaparte na Europa, toda a elite da corte portuguesa (nobres, burgueses e latifundiários influentes) cruzou o oceano Atlântico sob escolta caríssima da Inglaterra e veio para o Brasil. Desembarcaram primeiro em Salvador e, logo em seguida, no Rio de Janeiro. Num piscar de olhos, a colônia esquecida tornou-se a sede do Império Português. Com a Abertura dos Portos às Nações Amigas (leia-se: “agora comercializamos escancaradamente com os ingleses”), o velho Pacto Colonial desmoronou, e aquelas estradas poeirentas do interior paulista transformaram-se, inegavelmente, em artérias vitais para a expansão da colônia, que em 1815 recebia o título oficial de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Toda essa efervescência preparou o terreno para o que viria depois. Menos de duas décadas após a fundação do arraial, precisamente em 28 de novembro de 1824, o povoado aqui recém-estabelecido rompeu os laços com a Vila de São José de Mogi Mirim e conquistou sua emancipação política. Franca nascia para si mesma e para a História.
ÚLTIMA PARADA ANTES DE PROSEGUIR: No próximo dia 28 de novembro, a comunidade francana celebra orgulhosa os 202 anos da cidade. Uma jornada feita de contrastes que começou no equilíbrio da floresta e foi embalada pelos grandes estrondos da história mundial. Esse olhar para o passado da cidade não termina neste parágrafo. Na segunda parte dessa crônica de quatro capítulos, o leitor lembrará das aulas de história sobre o conturbado Período Regencial (1831–1840), quando o Brasil foi governado por regentes enquanto o pequeno D. Pedro II esperava a maioridade. Foi nesse período de transição, precisamente no ano de 1838, que por aqui explodiria a sedição, ou revolta armada e sangrenta, que ficou conhecida com o nome de seu controverso líder: a Anselmanda, um conflito entre coronéis e juízes que consolidaria os rumos das estruturas jurídicas e de poder para a jovem Franca do Imperador.
Baltazar Gonçalves é formado em História pela Unesp, pós graduado em Terapia Comportamental Cognitiva pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo (FAMEESP), é educador na rede pública estadual e membro da Academia Francana de Letras.