Uma estagiária de um escritório de advocacia de Franca foi demitida após a repercussão de vídeos publicados nas redes sociais em que debocha de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirma que uma empresa ligada ao escritório demitiria 112 funcionários por motivação política. Identificada como Leticia Hetiene, de 23 anos, ela reconheceu posteriormente que fez uma associação equivocada e imprudente.
Nos vídeos publicados nos stories do Instagram, Leticia ironizou a situação financeira de eleitores de Lula e atribuiu ao presidente uma frase sobre acordar na hora do almoço quem não tivesse dinheiro para tomar café da manhã.
“13h08, e a pergunta que não pode faltar: teve dinheiro para comprar o seu café da manhã? Teve dinheiro para comprar a marmita do almoço? Porque, se você não teve dinheiro para o café da manhã, é muito fácil de resolver. Segundo o papai L (se referindo ao Lula), não tem dinheiro para comprar café da manhã? Acorda na hora do almoço”, afirmou.
Na mesma sequência de vídeos, a então estagiária relatou que uma empresa teria comunicado ao escritório a demissão de 112 funcionários por serem petistas. Ela disse que não responderia se considerava a atitude correta, mas afirmou que não temia ser alvo de cancelamento nas redes sociais.
“Mas, agora, uma coisa com a qual vocês vão concordar comigo: se o Lula tivesse avisado pra gente que ele ia f\*d3r com todos os petistas, nós todos teríamos votado nele”, concluiu.
Procurado pelo Portal GCN/Sampi, o advogado Alex Santos, representante do escritório Alex Santos Advogado & Associados, confirmou que Leticia é sua irmã e informou que decidiu encerrar o estágio após tomar conhecimento dos vídeos, nessa terça-feira, 27.
Segundo ele, a conduta da irmã contrariou os princípios do escritório, que, de acordo com o advogado, não apoia esse tipo de posicionamento político.
“A Leticia era estagiária aqui do escritório, ela não é advogada. A gente tomou conhecimento disso ontem à tarde (terça-feira), quando eu soube do caso. Depois que tomamos conhecimento, sentamos e conversamos. Tive que fazer o desligamento dela, mesmo ela sendo minha irmã, porque é o seguinte: a gente não apoia esse tipo de política. Por que nós vamos apoiar esse tipo de política? Porque isso foge completamente dos nossos princípios”, disse Alex.
O advogado explicou que o escritório representa quatro empresas, três delas com posicionamento político de direita e uma de esquerda. Ao assistir ao vídeo, afirmou ter pensado especialmente no cliente de esquerda, atendido pelo escritório desde 2023.
Alex afirmou que Leticia interpretou equivocadamente uma conversa sobre a demissão dos funcionários. Segundo ele, a empresa em questão atua no setor calçadista, exporta sapatos e enfrenta dificuldades financeiras.
De acordo com o advogado, o empresário já considerava fechar o negócio desde o início de 2026 e pretende encerrar as atividades até fevereiro de 2027. A decisão, conforme o relato, estaria relacionada à situação financeira da empresa, e não à preferência política dos funcionários.
“É uma empresa de calçados que depende de vendas e exporta sapatos para fora. Desde 2023, quando assumi a assessoria dessa empresa, ela vem passando por trancos e barrancos. [...] Esse cliente é de direita. Ele queria fechar a empresa no ano passado. Depois do Natal e do Ano-Novo, quando há um aumento nas vendas, em janeiro deste ano, de 2026, ele já queria fechar as portas, porque estava com medo de não conseguir concluir o ano”, explicou.
“Ele simplesmente tomou uma decisão drástica após as eleições: reduzir o quadro de funcionários e decretar a falência da empresa. Ele pretende fechar a empresa até fevereiro de 2027. [...] Ele já é empresário desse ramo há 15 anos. É uma empresa bem consolidada aqui em Franca. Ele falou que pagaria todo mundo”, completou.
Alex relatou que Leticia participou de uma reunião sobre um processo trabalhista com o empresário. Na ocasião, segundo ele, o cliente comentou que esperava a vitória de Flávio Bolsonaro e que poderia deixar a cidade caso o resultado fosse diferente.
O advogado afirmou que a irmã associou essa conversa à possibilidade de demissão dos funcionários após a vitória de Lula. Ele disse que explicou a ela que o empresário realmente pretendia deixar a cidade com a família e encerrar as atividades da empresa.
“Ela perguntou se seriam 112 pessoas. Falei que, infelizmente, seriam 112 famílias, que as 112 pessoas seriam mandadas embora e que, em fevereiro, o número total de funcionários demitidos chegaria a 600. É muita gente. Com isso, virei as costas e fui fazer minhas coisas: delegacia, Ministério Público, rotina de advogado. Quando voltei ao escritório, encontrei a bomba”, relatou.
O advogado também afirmou que evita compartilhar informações sobre determinados processos com estagiários justamente para prevenir situações semelhantes. Ele classificou a atitude da irmã como um caso de imaturidade e reiterou que o escritório é contrário a qualquer tipo de discriminação, inclusive política, sexual e religiosa.
Também procurada pelo Portal GCN, Leticia confirmou o desligamento e reconheceu que fez uma associação equivocada ao relacionar as demissões à preferência política dos funcionários.
Ela afirmou que costumava fazer brincadeiras de teor político com amigos e seguidores, mas admitiu que esse hábito não justificava o conteúdo publicado nem a repercussão causada.
“Sei que existem situações em que não cabe fazer piada, especialmente quando envolvem o sustento e o futuro de trabalhadores e suas famílias. Quando percebi a dimensão e a gravidade das minhas palavras, apaguei os vídeos. Entendi que o que considerei, equivocadamente, uma brincadeira de mau gosto poderia ser interpretado como uma acusação séria e causar danos a outras pessoas”, escreveu.
A ex-estagiária também declarou que não tinha conhecimento suficiente para afirmar que as demissões ocorreriam por motivação política e reconheceu ter sido irresponsável ao tirar conclusões precipitadas.
Sobre o desligamento, disse compreender a decisão do irmão, que a havia acolhido para aprender e estagiar no escritório. “Quando meu irmão tomou conhecimento do vídeo, tivemos uma conversa séria. Ele me explicou a gravidade do ocorrido, as possíveis consequências e os prejuízos que minha atitude poderia causar ao escritório e à sua reputação profissional. Como ele me acolheu para aprender e estagiar ao seu lado, compreendo a decisão de encerrar meu estágio. Estou profundamente arrependida por ter colocado em risco o trabalho e a imagem de alguém que não teve responsabilidade pela minha conduta”, afirmou.
Leticia informou ainda que pretende reativar suas redes sociais e publicar um vídeo de retratação para esclarecer os fatos e pedir desculpas formalmente às pessoas que possam ter sido prejudicadas ou ofendidas. “Estou aprendendo uma lição muito difícil, mas necessária, sobre responsabilidade, respeito e as consequências do que publicamos na internet. Lamento sinceramente o ocorrido e peço desculpas a todos os envolvidos, aos trabalhadores atingidos pela repercussão, ao Dr. Alex e a todas as pessoas que se sentiram ofendidas”, concluiu.
Nesta quarta-feira, 28, a OAB Franca divulgou uma nota assinada pela presidente Luiza Gouvêa em que manifestou preocupação e repúdio à circulação, nas redes sociais e em grupos de mensagens, de listas que incentivam boicotes a advogados, escritórios de advocacia, profissionais autônomos e estabelecimentos comerciais por causa de opiniões ou posicionamentos políticos.
“A OAB Franca reafirma seu compromisso com o Estado Democrático de Direito, com a liberdade de expressão e com o respeito às diferentes convicções políticas. O direito de pensar, opinar e escolher livremente deve ser respeitado. Divergências políticas jamais podem justificar intimidação, discriminação ou retaliação”, diz a nota.
A entidade também alertou que eventuais condutas ilícitas devem ser apuradas pelas autoridades competentes, conforme a legislação vigente.