28 de outubro de 2026
VEJA

'Imaturidade': advogado demite estagiária após deboche a petistas

Por Giovanna Attili | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Sampi/Franca
Reprodução/Redes sociais
Leticia Hetiene dos Santos, de 23 anos, publicou vídeo em suas redes sociais

Uma estagiária de um escritório de advocacia de Franca foi demitida após a repercussão de vídeos publicados nas redes sociais em que debocha de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirma que uma empresa ligada ao escritório demitiria 112 funcionários por motivação política. Identificada como Leticia Hetiene, de 23 anos, ela reconheceu posteriormente que fez uma associação equivocada e imprudente.

Nos vídeos publicados nos stories do Instagram, Leticia ironizou a situação financeira de eleitores de Lula e atribuiu ao presidente uma frase sobre acordar na hora do almoço quem não tivesse dinheiro para tomar café da manhã.

“13h08, e a pergunta que não pode faltar: teve dinheiro para comprar o seu café da manhã? Teve dinheiro para comprar a marmita do almoço? Porque, se você não teve dinheiro para o café da manhã, é muito fácil de resolver. Segundo o papai L (se referindo ao Lula), não tem dinheiro para comprar café da manhã? Acorda na hora do almoço”, afirmou.

Na mesma sequência de vídeos, a então estagiária relatou que uma empresa teria comunicado ao escritório a demissão de 112 funcionários por serem petistas. Ela disse que não responderia se considerava a atitude correta, mas afirmou que não temia ser alvo de cancelamento nas redes sociais.

“Mas, agora, uma coisa com a qual vocês vão concordar comigo: se o Lula tivesse avisado pra gente que ele ia f\*d3r com todos os petistas, nós todos teríamos votado nele”, concluiu.

O que diz o escritório de advocacia?

Procurado pelo Portal GCN/Sampi, o advogado Alex Santos, representante do escritório Alex Santos Advogado & Associados, confirmou que Leticia é sua irmã e informou que decidiu encerrar o estágio após tomar conhecimento dos vídeos, nessa terça-feira, 27.

Segundo ele, a conduta da irmã contrariou os princípios do escritório, que, de acordo com o advogado, não apoia esse tipo de posicionamento político.

“A Leticia era estagiária aqui do escritório, ela não é advogada. A gente tomou conhecimento disso ontem à tarde (terça-feira), quando eu soube do caso. Depois que tomamos conhecimento, sentamos e conversamos. Tive que fazer o desligamento dela, mesmo ela sendo minha irmã, porque é o seguinte: a gente não apoia esse tipo de política. Por que nós vamos apoiar esse tipo de política? Porque isso foge completamente dos nossos princípios”, disse Alex.

O advogado explicou que o escritório representa quatro empresas, três delas com posicionamento político de direita e uma de esquerda. Ao assistir ao vídeo, afirmou ter pensado especialmente no cliente de esquerda, atendido pelo escritório desde 2023.

Empresa pretende encerrar atividades, diz advogado

Alex afirmou que Leticia interpretou equivocadamente uma conversa sobre a demissão dos funcionários. Segundo ele, a empresa em questão atua no setor calçadista, exporta sapatos e enfrenta dificuldades financeiras.

De acordo com o advogado, o empresário já considerava fechar o negócio desde o início de 2026 e pretende encerrar as atividades até fevereiro de 2027. A decisão, conforme o relato, estaria relacionada à situação financeira da empresa, e não à preferência política dos funcionários.

“É uma empresa de calçados que depende de vendas e exporta sapatos para fora. Desde 2023, quando assumi a assessoria dessa empresa, ela vem passando por trancos e barrancos. [...] Esse cliente é de direita. Ele queria fechar a empresa no ano passado. Depois do Natal e do Ano-Novo, quando há um aumento nas vendas, em janeiro deste ano, de 2026, ele já queria fechar as portas, porque estava com medo de não conseguir concluir o ano”, explicou.

“Ele simplesmente tomou uma decisão drástica após as eleições: reduzir o quadro de funcionários e decretar a falência da empresa. Ele pretende fechar a empresa até fevereiro de 2027. [...] Ele já é empresário desse ramo há 15 anos. É uma empresa bem consolidada aqui em Franca. Ele falou que pagaria todo mundo”, completou.

Alex relatou que Leticia participou de uma reunião sobre um processo trabalhista com o empresário. Na ocasião, segundo ele, o cliente comentou que esperava a vitória de Flávio Bolsonaro e que poderia deixar a cidade caso o resultado fosse diferente.

O advogado afirmou que a irmã associou essa conversa à possibilidade de demissão dos funcionários após a vitória de Lula. Ele disse que explicou a ela que o empresário realmente pretendia deixar a cidade com a família e encerrar as atividades da empresa.

“Ela perguntou se seriam 112 pessoas. Falei que, infelizmente, seriam 112 famílias, que as 112 pessoas seriam mandadas embora e que, em fevereiro, o número total de funcionários demitidos chegaria a 600. É muita gente. Com isso, virei as costas e fui fazer minhas coisas: delegacia, Ministério Público, rotina de advogado. Quando voltei ao escritório, encontrei a bomba”, relatou.

O advogado também afirmou que evita compartilhar informações sobre determinados processos com estagiários justamente para prevenir situações semelhantes. Ele classificou a atitude da irmã como um caso de imaturidade e reiterou que o escritório é contrário a qualquer tipo de discriminação, inclusive política, sexual e religiosa.

Leticia reconhece erro e pede desculpas

Também procurada pelo Portal GCN, Leticia confirmou o desligamento e reconheceu que fez uma associação equivocada ao relacionar as demissões à preferência política dos funcionários.

Ela afirmou que costumava fazer brincadeiras de teor político com amigos e seguidores, mas admitiu que esse hábito não justificava o conteúdo publicado nem a repercussão causada.

“Sei que existem situações em que não cabe fazer piada, especialmente quando envolvem o sustento e o futuro de trabalhadores e suas famílias. Quando percebi a dimensão e a gravidade das minhas palavras, apaguei os vídeos. Entendi que o que considerei, equivocadamente, uma brincadeira de mau gosto poderia ser interpretado como uma acusação séria e causar danos a outras pessoas”, escreveu.

A ex-estagiária também declarou que não tinha conhecimento suficiente para afirmar que as demissões ocorreriam por motivação política e reconheceu ter sido irresponsável ao tirar conclusões precipitadas.

Sobre o desligamento, disse compreender a decisão do irmão, que a havia acolhido para aprender e estagiar no escritório. “Quando meu irmão tomou conhecimento do vídeo, tivemos uma conversa séria. Ele me explicou a gravidade do ocorrido, as possíveis consequências e os prejuízos que minha atitude poderia causar ao escritório e à sua reputação profissional. Como ele me acolheu para aprender e estagiar ao seu lado, compreendo a decisão de encerrar meu estágio. Estou profundamente arrependida por ter colocado em risco o trabalho e a imagem de alguém que não teve responsabilidade pela minha conduta”, afirmou.

Leticia informou ainda que pretende reativar suas redes sociais e publicar um vídeo de retratação para esclarecer os fatos e pedir desculpas formalmente às pessoas que possam ter sido prejudicadas ou ofendidas. “Estou aprendendo uma lição muito difícil, mas necessária, sobre responsabilidade, respeito e as consequências do que publicamos na internet. Lamento sinceramente o ocorrido e peço desculpas a todos os envolvidos, aos trabalhadores atingidos pela repercussão, ao Dr. Alex e a todas as pessoas que se sentiram ofendidas”, concluiu.

OAB de Franca publica nota de repúdio

Nesta quarta-feira, 28, a OAB Franca divulgou uma nota assinada pela presidente Luiza Gouvêa em que manifestou preocupação e repúdio à circulação, nas redes sociais e em grupos de mensagens, de listas que incentivam boicotes a advogados, escritórios de advocacia, profissionais autônomos e estabelecimentos comerciais por causa de opiniões ou posicionamentos políticos.

“A OAB Franca reafirma seu compromisso com o Estado Democrático de Direito, com a liberdade de expressão e com o respeito às diferentes convicções políticas. O direito de pensar, opinar e escolher livremente deve ser respeitado. Divergências políticas jamais podem justificar intimidação, discriminação ou retaliação”, diz a nota.

A entidade também alertou que eventuais condutas ilícitas devem ser apuradas pelas autoridades competentes, conforme a legislação vigente.