Quando falamos de afeto, tendemos a focalizar as faltas que por ventura vivemos, as carências, as ausências. Entretanto, se fizermos um exercício de reconhecimento, perceberemos, sem grandes esforços, que os presentes e as presenças são muito mais numerosos. Desde o útero materno que nos gestou e que, mesmo com possíveis dificuldades, nos trouxe a vida, até os braços que nos embalaram, as mãos que nos alimentaram e seguraram as nossas, para darmos os primeiros passos, os professores que mediaram nossa relação com o conhecimento nos processos do aprender.
Assim, quando fazemos este exercício de olhar e ver as diferentes forma através das quais o afeto nos alcança, entendemos que estamos no centro de uma grande teia que nos sustenta na vida. E por meio de diversas conexões, podemos entrar em contato com os nossos ancestrais e, a partir deles, identificar, ao longo do caminho percorrido até aqui, as pessoas com as quais pudemos contar e os recursos de consolo e acolhimento que nos chegaram nas horas de infortúnio: uma mensagem, uma ligação, um olhar, um abraço que nos reinicia, alguém que nos oferece uma flor, um sorriso, que nos escuta com atenção.
Que possamos refinar nosso modo de sentir, deixando que as sutilezas da jornada nos afetem e nos afaguem o coração, sobretudo, porque é durante as travessias mais difíceis, nas quais tantas vezes nos supomos sós, que Deus nos carrega no colo.
José Antônio Pereira é psicólogo e membro da Academia Francana de Letras; Marília Gabriella R. Peres é doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo