Dez pessoas desaparecem a cada hora no Brasil. Entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 43.910 casos no país, o maior número para um primeiro semestre em dez anos, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública. Em Franca e região, desaparecimentos recentes e ocorrências sem solução há décadas expõem a angústia de famílias que seguem à procura de respostas.
O total nacional representa um aumento de 23% em relação ao primeiro semestre de 2016, quando foram contabilizados 35.663 desaparecimentos. No mesmo intervalo, a média diária passou de 196 para 242 casos.
São Paulo liderou o número de registros, com 10.414 ocorrências nos seis primeiros meses de 2026. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 4.864 casos, e Rio Grande do Sul, com 4.037. A faixa etária de 30 a 49 anos concentrou o maior número de desaparecimentos, seguida pelos grupos de 13 a 17 anos e de 18 a 29 anos.
Na região de Franca, os casos acompanhados pelo GCN incluem adolescentes, adultos e idosos cujo paradeiro permanece desconhecido. Entre eles estão Vivian Ventura Faian, de 17 anos, e Mario Sergio Souza, de 37, desaparecidos em 2026, além de pessoas procuradas há anos.
Vivian está desaparecida desde a noite de sexta-feira, 9 de outubro, quando saiu da casa onde mora com o irmão, no Jardim Santo Agostinho, em Franca. Segundo o boletim de ocorrência, ela deixou a residência por volta das 19h15, sem informar para onde iria.
O desaparecimento foi comunicado à Polícia Civil naquela noite. O irmão, responsável legal pela adolescente, relatou preocupação com a integridade física dela. Após perceber sua ausência, procurou familiares e amigos, mas não conseguiu informações sobre seu paradeiro.
Outro caso recente é o de Mario Sergio Souza, de 37 anos, morador de Pedregulho. Ele está desaparecido desde julho de 2026, quando saiu de casa, embarcou em uma van e desembarcou na Vila São Sebastião, em Franca.
Segundo familiares, a confirmação do embarque ocorreu após contato com a responsável pelo transporte. Desde então, Mario não foi mais visto. A família afirma que ele nunca havia desaparecido anteriormente e que não conseguiu obter imagens de câmeras de segurança que esclarecessem seu trajeto após o desembarque.
Em Franca, algumas famílias convivem há anos com a falta de respostas. Wesley Pires Alves Filho tinha 13 anos quando desapareceu, em 28 de agosto de 2020.
Naquele dia, o adolescente saiu de casa, no Jardim Aeroporto, dizendo aos irmãos que iria a um varejão. Como não voltou, os familiares iniciaram as buscas e registraram a ocorrência no dia seguinte.
Imagens de câmeras de segurança mostraram Wesley caminhando pelo Jardim Flórida e, posteriormente, empurrando uma bicicleta pela rodovia Ronan Rocha, no sentido de Patrocínio Paulista. Denúncias posteriores apontaram possíveis aparições em diferentes cidades, mas nenhuma informação levou à localização do adolescente.
Em fevereiro de 2022, equipes das polícias civis de Franca e Santos realizaram buscas em Cubatão, na Baixada Santista. Segundo o delegado Márcio Murari, responsável pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Franca, diversos locais foram vistoriados, mas Wesley não foi encontrado.
Outro caso sem esclarecimento é o de Miguel Berdú Egéa, que tinha 87 anos e Alzheimer quando desapareceu, em 4 de fevereiro de 2019.
Na ocasião, ele aguardava a mulher em uma praça enquanto ela foi a uma padaria. Quando voltou, ela não o encontrou mais no local. A última informação sobre o paradeiro de Miguel apontava para a região do Jardim Guanabara, na zona oeste de Franca.
A família promoveu carreatas, distribuiu cartazes e divulgou informações nas redes sociais. Em 2023, a Justiça reconheceu a morte presumida do aposentado, mas seu paradeiro nunca foi esclarecido.
“Faz seis anos e, infelizmente, não temos notícias dele. Não houve nenhuma pista concreta”, afirmou a filha, Márcia Maria Berdú, em relato publicado pelo GCN.
Em Cristais Paulista, Rosinai Cardoso de Oliveira desapareceu em 3 de maio de 2024, no mesmo dia em que um incêndio atingiu a casa onde morava, às margens da rodovia Manoel Carrijo, no sentido de Águas Quentes.
Quando bombeiros e policiais chegaram ao imóvel, encontraram a porta aberta, dois carros e objetos pessoais da moradora, mas nenhum sinal dela. No relato publicado pela reportagem, a investigação ainda não havia esclarecido o desaparecimento.
A irmã de Rosinai, Eliana Soares de Oliveira, fez um apelo por informações sobre o paradeiro da mulher. A família também relatou o impacto emocional provocado pela falta de respostas.
Outro caso é o de Geni Marques de Morais, de 55 anos, desaparecida desde 16 de fevereiro de 2025. Ela havia se mudado de Ribeirão Preto para Franca e estava hospedada em uma pousada no Centro.
Após ser encontrada sem reação no banheiro do estabelecimento, Geni foi encaminhada pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Aeroporto. Segundo a Secretaria de Saúde, ela recebeu atendimento e deixou a unidade por vontade própria. Desde então, seu paradeiro é desconhecido.
A família questionou as informações disponíveis sobre o atendimento e pediu acesso a documentos e imagens que pudessem ajudar a esclarecer o caso.
A lista inclui ainda Benedito Turqueti, conhecido como “Ditão da Apae”, desaparecido desde 26 de setembro de 2001, depois de deixar a Escola de Educação Integrada, na região do bairro Cidade Nova, em Franca.
Na época, familiares percorreram cidades, delegacias e hospitais em busca de informações. Apesar de relatos de possíveis avistamentos, nenhuma pista confirmou o paradeiro do estudante.
A orientação apresentada no levantamento nacional é procurar uma delegacia assim que o desaparecimento for percebido e registrar um boletim de ocorrência. Não é necessário esperar 24 horas para comunicar o caso.
O material também destaca a importância da articulação entre os órgãos responsáveis pelas buscas, como polícias, serviços de saúde e instituições de assistência, para compartilhar informações e ampliar as possibilidades de localização.
Enquanto os números nacionais mostram a dimensão do problema, os casos de Franca e região revelam o impacto prolongado da falta de respostas. Para algumas famílias, a busca começou há poucos dias. Para outras, a espera já dura anos ou décadas.