02 de outubro de 2026
OPINIÃO

Seu político favorito te enganou. E você não está sozinho

Por Marília Martins |
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Detonautas
Capa do álbum 'Político de Estimação', do grupo Detonautas

Que político tem má fama, todo mundo sabe. Mesmo assim, a gente continua acreditando. E não é por acaso. A política é feita de pessoas. E as escolhas dessas pessoas mudam a vida de quem depende do serviço público para conseguir consulta, cirurgia, escola, transporte, emprego, remédio e até o básico para viver.

O problema começa quando o político deixa de ser alguém que a gente escolheu para representar nossos interesses e vira quase um membro da família.
Aí complica.

Porque, quando descobrimos que o nosso político favorito não é exatamente aquilo que imaginávamos, parece que estão falando da nossa mãe. E talvez seja por isso que tanta gente esteja chocada com as novas revelações envolvendo o escândalo Master.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja apenas: “Como eles fizeram isso?” Talvez seja: “Como nós chegamos até aqui?” E, para responder, precisamos olhar um pouco mais para trás.

Muito mais.

A política brasileira é uma novela antiga e nunca foi exatamente um país de inocentes
Ao longo da nossa história, fomos construindo uma política em que direita, esquerda, centro e, mais recentemente, alguns personagens que parecem ter escolhido o caminho “morro abaixo”, aprenderam a mesma lição: poder raramente é uma coisa simples.

Em 2002, PT e PL estiveram juntos na mesma chapa, com Lula e José Alencar.

Pouco tempo depois, os dois partidos estariam em lados praticamente opostos do debate político nacional. Isso deveria servir para nos lembrar de uma coisa básica: alianças mudam, partidos mudam, discursos mudam, interesses mudam. 

O que parece impossível hoje pode virar acordo amanhã. O que ontem era companheiro pode virar inimigo. E aquele que dizia representar o povo pode descobrir, depois de chegar ao poder, que o poder tem muitos amigos interessados em continuar por perto.

Lula chegou à Presidência depois de três tentativas frustradas e governou por dois mandatos.
Depois veio Dilma.
Depois Temer.
Depois Bolsonaro.
Depois Lula novamente.

E, nesse caminho, vieram Lava Jato, impeachment, prisão, disputas jurídicas, polarização, pandemia, negacionismo, ataques às instituições, tentativa de ruptura democrática, manifestações em quartéis e uma sociedade cada vez mais dividida entre “nós” e “eles”.

No meio disso tudo, muita gente foi ficando pelo caminho. E, enquanto a população brigava para descobrir quem era o mocinho e quem era o vilão, o Brasil continuava sendo Brasil: um país onde dinheiro, poder político, interesses privados, instituições e relações pessoais frequentemente se encontram em lugares que o cidadão comum nem consegue enxergar.

É por isso que o escândalo Master causa tanto espanto.

Não porque seja o primeiro. Mas porque parece mais uma porta sendo aberta para um corredor que já estava cheio de portas. E talvez ainda existam muitas outras. E aí entra a parte mais difícil.

Como conseguimos convencer tanta gente a defender projetos e políticos que nem sempre colocam essas pessoas no centro das decisões?

Não é falta de inteligência. Não é burrice. E, principalmente, não acontece apenas com “os outros”. 

Ninguém constrói suas convicções sozinho.
Nossa família influencia.
Nossa igreja influencia.
Nossos amigos influenciam.
Nossa classe social , as redes sociais e até o grupo político do qual fazemos parte influencia.

E, quando uma opinião passa a fazer parte da nossa identidade, questioná-la pode doer. A Psicologia Social ajuda a entender isso. A dissonância cognitiva explica por que é tão desconfortável aceitar uma informação que contradiz aquilo em que acreditamos. E a Teoria da Identidade Social mostra como, quando nossa identidade está muito ligada a um grupo, uma crítica ao grupo pode parecer uma crítica contra nós mesmos.

É por isso que às vezes uma pessoa consegue aceitar qualquer coisa de um político, menos uma crítica ao político. Ela não está mais defendendo uma ideia. Está defendendo a própria identidade.

Talvez a gente esteja brigando pela coisa errada

Eu não quero convencer ninguém a trocar de lado. Aliás, talvez esse seja justamente o problema.

A política brasileira nos ensinou a perguntar: “De que lado você está?”

Talvez a pergunta devesse ser: “O que esse lado está fazendo pela sua vida?”

Se o político que você admira defende uma coisa boa, ótimo. Defenda.
Se o político que você não gosta fizer uma coisa boa, reconheça.
Se alguém do seu partido errar, questione.
Se alguém do outro partido acertar, reconheça também.

Isso não é traição.
Isso é autonomia.

Seu político não é seu marido. Seu partido não é sua família.

E político nenhum deveria exigir fidelidade maior do que aquela que você exige de quem administra o seu dinheiro. Porque, no final das contas, o dinheiro não é deles. É nosso.

Seu político favorito pode ter te enganado
E, se isso aconteceu, você não está sozinho.

Talvez você tenha defendido alguém porque acreditava que aquela pessoa representava aquilo em que você acreditava. Talvez tenha compartilhado vídeos. Brigado com amigo. Discutido com parente. Feito postagem. Tomado partido. E agora está descobrindo coisas que não queria descobrir.

Tudo bem.

Mudar de opinião não é falta de caráter. É uma das maiores demonstrações de honestidade intelectual que uma pessoa pode ter. O verdadeiro perigo não é descobrir que estava errado. O verdadeiro perigo é descobrir e continuar defendendo apenas para não admitir que estava.

Porque, no fim, o político passa.
O partido muda.
O governo acaba.
A eleição termina.

Mas nós continuamos aqui.

Pagando nossas contas.
Pegando ônibus.
Esperando atendimento.
Criando nossos filhos.
Cuidando dos nossos pais.

Vivendo com aquilo que as decisões políticas deixaram para a nossa cidade e para o nosso país. Enquanto isso, alguns dos que passaram anos pedindo nosso voto já acumularam patrimônio suficiente para viver algumas vidas. Então talvez esteja na hora de desapegar um pouco do político e se apegar mais à própria consciência.

Menos “meu político contra o seu”. Mais “o que estão fazendo com o nosso dinheiro?” Menos torcida. Mais fiscalização. Menos culto à personalidade. Mais cidadania.

Porque político não precisa ser amado.
Precisa ser cobrado.

E, se um dia você descobrir que aquele político que você defendia te enganou, respire. Você não perdeu sua inteligência. Você ganhou uma oportunidade.

A oportunidade de parar de defender pessoas como se fossem times de futebol e começar a defender aquilo que realmente importa:
a sua vida. A sua família. A sua comunidade. O seu dinheiro. Os seus direitos.

No fim das contas, eles podem até trocar de partido, de discurso, de cargo e de aliados. Mas quem continua pagando a conta somos nós.

Como diria a música "Político de Estimação", dos Detonautas,

"Político é pra ser cobrado
E não idolatrado
Então lute por ideias, valorize quem te dá valor
Pense coletivamente, olhar pra nossa gente é obrigação do
Estado nem nunca foi favor"

Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora em Franca pelo Psol e Procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Franca.