A palavra ‘sororidade’ vem do latim ‘soror’, sufixo que lhe confere a ideia de condição, relação, qualidade. É, portanto, uma espécie de irmandade definida pela língua. Seu parentesco com ‘fraternidade’ é revelador: se frater é irmão, soror é irmã. O termo, nesse sentido, parece corrigir uma velha assimetria inscrita até no vocabulário: durante séculos, a humanidade falou em fraternidade para designar a união entre todos, homens e mulheres, enquanto a experiência específica da união entre essas últimas permanecia sem nome próprio. Embora ‘sororidade’ seja antiga em sua formação, só recentemente entrou em franca circulação e seu ingresso mais vigoroso no português ocorreu nas últimas décadas, acompanhando a expansão das pautas feministas. A Academia Brasileira de Letras registra o verbete como sentimento de irmandade, empatia, solidariedade e união entre mulheres, especialmente em oposição à exclusão, à opressão e à violência.
Não se trata, entretanto, de entendimento sobre mulheres serem “boazinhas” umas com as outras. Sororidade é mais exigente: pede que uma mulher interrompa, dentro de si, a velha educação para a rivalidade. Para começo de conversa, que ela desconfie da frase aparentemente inocente segundo a qual “mulher não gosta de mulher”, ou daquela outra, ainda mais venenosa, segundo a qual “mulher é a pior inimiga de mulher”. Durante muito tempo meninas aprenderam que havia poucas cadeiras disponíveis e que precisavam disputar entre si quem ocuparia uma delas: a mais bonita, a mais desejada, a mais magra, a mais inteligente, a mais bem-sucedida, a mais admirada pelo grupo.
A culpa é da cultura. Por séculos o patriarcado não precisou colocar as mulheres umas contra as outras o tempo inteiro. Bastou convencê-las de que havia pouco espaço para todas. Eis por que a sororidade tem uma dimensão política. Não significa concordar com toda mulher, absolvê-la de seus erros, muito menos transformá-la em vítima apenas por conta de seu gênero. Significa reconhecer que a experiência feminina é atravessada por estruturas históricas de desigualdade e que, diante delas, a solidariedade pode ser uma forma de resistência, uma prática de reconhecimento e apoio mútuos.
É justamente nesse ponto que surge a palavra estranha, e estrangeira, ainda sem uma tradução pacificada: wollying, citada pela jornalista e professora Luciana Garbin no seu artigo “Wollying: nome novo, problema antigo”, publicada recentemente no Estadão. É claro que ainda falta um verbete em português para o wollying. Ou, quem sabe, nossa língua esteja apenas demorando a admitir aquilo que já sabemos. Mas porque toda palavra nova entra no léxico como quem abre uma janela para a luz, e começa como uma pergunta, tentemos respondê-la. Wollying, o que é isso?
Formado pela combinação de woman e bullying, ambas do idioma inglês, designa comportamentos de intimidação, humilhação, desqualificação e até violência emocional entre mulheres. Tem aparecido com frequência no universo adolescente, mas não está restrita a ele. Pode ocorrer na escola, no trabalho, entre amigas, em grupos específicos. E nas redes sociais. Nesta tem encontrado um território especialmente fértil.
Um exemplo dos mais banais: uma menina posta foto, a segunda comenta, a terceira acrescenta pitada de ironia, alguém compartilha, outra pessoa ri. Em poucos minutos, uma observação que poderia ter desaparecido numa conversa privada transforma-se em espetáculo. O que antes poderia ser apenas uma crueldade passageira ganha testemunhas, registro, repetição e algoritmo. É aí que o wollying se torna particularmente perverso porque as redes sociais oferecem uma espécie de praça pública permanente onde a agressão cresce quando encontra aplauso, curtida, compartilhamento, comentário. A mulher que ataca pode ganhar visibilidade; a que é atacada pode descobrir que sua vergonha agora pertence a centenas ou milhares de pessoas.
De volta à semântica, evidencia-se uma espécie de duelo entre sororidade e wollying. A primeira aproxima, a outra expõe; uma abriga, a outra ataca. Mas a oposição não é tão simples porque ambas nascem no mesmo lugar: na relação entre mulheres, nesse território de proximidade onde se decide o que umas farão com as outras. Se vão reproduzir a lógica da competição imposta pela cultura durante séculos ou se estão dispostas a interromper a velha história segundo a qual uma mulher sempre mede o próprio valor pela derrota de outra mulher.
Num contexto onde impere a sororidade, qualidades como sucesso, brilho, beleza, liberdade de uma não diminuem as características da outra nem são vistas como ameaça. Já no mundo de wollying, ao contrário, a existência de tais traços pode parecer uma acusação e assim tudo, da juventude ao êxito profissional, converte-se em motivo para ataques. A rivalidade torna-se maneira de sobreviver num jogo em que se foi treinada e convencida de que só uma pode vencer.
Mas é importante entender que entre sororidade e wollying há mais que diferença de comportamento, existe escolha. Gostaria de acreditar que neste momento a opção mais construtiva esteja se robustecendo para redundar em nova gramática das relações entre mulheres. E que fique claro: não é preciso romantizar o gênero feminino para defender a sororidade. Mulheres podem ser cruéis, humilhar, excluir, manipular, competir e destruir reputações. Podem também reproduzir o machismo com uma eficiência dolorosa. Reconhecer isso não enfraquece o feminismo; ao contrário, impede que a sororidade se transforme em uma palavra vazia, espécie de senha que dispensa a reflexão. Talvez seja também necessário compreender que sororidade não é a ausência de conflito. É a maneira de atravessá-lo sem transformar a outra mulher em inimiga absoluta.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras