Olga Alice Fernandes da Silva, de 79 anos, diz ter perdoado o capitão da Polícia Militar um dos acusados de matar seu filho, o sargento francano Rulian Ricardo Adrião da Silva, de 40 anos. O policial foi morto a tiros dentro de um quartel da PM, em São Paulo, em abril de 2023, enquanto estava deitado no próprio beliche.
Recém-promovido a sargento, Rulian foi atingido por quatro disparos, três feitos pelo capitão Francisco Carlos Laroca Júnior e um pelo cabo Fabiano Rizzo. Os dois policiais são acusados pela morte e alegam legítima defesa.
A família de Rulian contesta essa versão. Para Olga, a possibilidade de o filho morrer durante o trabalho sempre existiu, mas ela jamais imaginou que ele pudesse ser morto dentro de um quartel, por um colega de farda.
“Eu pensava que pudesse acontecer alguma coisa na rua. Nunca imaginei que pudesse acontecer isso dentro do quartel. Eu nem pensava que uma pessoa que estava lá, um amigo de farda, faria isso”, afirmou.
A mãe conta que ficou “sem chão” ao receber a notícia da morte. Depois da perda, chegou a deixar de cuidar das coisas de casa como fazia antes. “Minhas flores morreram todas.”
Antes de ingressar na Polícia Militar, Rulian começou a trabalhar ainda adolescente, em Franca. Vendia picolés e ajudava Olga na costura de sapatos. Depois, passou por fábricas e trabalhou em uma loja, onde estava prestes a ser promovido a gerente quando decidiu deixar o emprego para entrar na PM.
Na corporação, tornou-se cabo e estudou para ser sargento. A promoção aconteceu em dezembro de 2022, poucos meses antes da morte.
Mesmo trabalhando em São Paulo, Rulian mantinha contato frequente com a família e aproveitava as folgas para voltar a Franca. Segundo Olga, ele ligava quase todos os dias.
“Qualquer folguinha que tinha, ele vinha. Vinha dormindo no ônibus. Ele se preocupava comigo aqui em casa e dizia: ‘Vou trabalhar lá por mais ou menos um ano. Depois, tento voltar para Franca ou para alguma cidade próxima. Se não conseguir uma transferência para cá, nós nos mudamos, viu, mãe?’”, contou.
Rulian também ajudava a mãe e o irmão Rony, que tem problemas de saúde. Fazia compras, pagava contas e, segundo Olga, cumpria uma promessa feita ao pai no leito de morte, de cuidar da família.
A rotina da família foi interrompida pela morte do policial. Olga afirma que o filho continuava presente mesmo à distância e que fazia planos para voltar a morar em Franca.
Segundo a versão apresentada pelos acusados, Laroca foi até o alojamento depois de ser informado de que Rulian havia discutido com uma policial por causa de uma mudança na escala de serviço. Rizzo, que trabalhava como motorista do capitão, teria acompanhado o superior.
O capitão afirma que pretendia conversar com o sargento sobre o ocorrido, mas teria sido hostilizado por Rulian, que teria sacado um revólver escondido sob o cobertor, apontado a arma em sua direção e puxado o gatilho duas vezes. A arma teria falhado. Em seguida, Laroca teria atirado contra o sargento, enquanto Rizzo também efetuou um disparo.
A Promotoria rejeitou a alegação de legítima defesa. Segundo a denúncia apresentada pela promotora Giovana Ortolano Guerreiro, as provas periciais contradizem a versão de que Rulian teria tentado atirar contra o capitão.
O revólver calibre .32 encontrado próximo ao corpo do sargento estava sem a mola do percutor, com o tambor travado, sem condições de disparar e sem vestígios de uso recente. A arma funcional de Rulian, uma pistola .40 em condições de uso, foi encontrada trancada em um armário do alojamento.
Outro ponto questionado pela Promotoria é a posição em que o revólver foi encontrado. A arma estava próxima à mão esquerda de Rulian, embora registros funcionais e o depoimento da mãe indiquem que ele era destro.
Para o Ministério Público, o revólver teria sido colocado junto ao corpo depois dos disparos para sustentar a versão de legítima defesa. Além do homicídio, Laroca e Rizzo também são acusados de fraude processual pela suposta alteração da cena.
“A tentativa de justificar os disparos como reação a uma agressão iminente é refutada pela prova técnica, que demonstra que a vítima não teve qualquer chance de defesa, sendo atingida de forma súbita e letal, em ambiente confinado, por dois agentes armados, em posição de superioridade numérica e, também, hierárquica”, diz trecho da denúncia.
O julgamento dos dois policiais está marcado para 15 de setembro, na 4ª Auditoria Militar Estadual, primeira instância da Justiça Militar paulista. Como Rulian e os acusados eram policiais militares e a acusação envolve crime militar, o caso não será submetido ao Tribunal do Júri.
Os réus serão julgados por um Conselho de Justiça, formado por um juiz de direito e quatro oficiais da PM.
A defesa de Rizzo, formada pelos advogados Mauro Ribas e Renato Soares, afirma que sustentará a tese de legítima defesa de terceiros, alegando que o cabo agiu para defender Laroca.
Já a defesa do capitão, feita pelo advogado Abelardo Julio da Rocha, pedirá a absolvição e sustentará que ele agiu em legítima defesa. Segundo o advogado, não houve homicídio planejado, mas uma reação a uma ameaça que Laroca teria considerado real e iminente.
A defesa afirma que não foi identificado motivo para uma execução e que Laroca procurou Rulian para tratar de uma questão funcional, acompanhado de Rizzo. Também sustenta que perícias consideraram as marcas dos tiros e as posições dos envolvidos compatíveis com pontos da versão dos policiais.
Sobre o revólver, a defesa reconhece que um exame concluiu que a arma encontrada junto à vítima não estava em condições de disparar, mas afirma que Laroca não tinha como saber disso no momento da reação. Por essa razão, também invoca a hipótese de legítima defesa putativa.
A defesa afirma ainda que o Inquérito Policial Militar não confirmou fraude processual nem encontrou prova segura de que a arma tenha sido colocada artificialmente na cena.
Olga pretende viajar com familiares para acompanhar o julgamento. Apesar de dizer que perdoou o capitão acusado pela morte do filho, ela afirma que continua esperando Justiça. “Eu perdoo o que ele (capitão) fez. Porque a gente tem que perdoar. Mas eu quero Justiça. Para não acontecer com outra família”, disse.