Na semana passada pude participar de mais uma reunião concorrida no Clube de Leitura mediado por Eneida Nalini e Matheus Maritan, ela diretora, ele professor na renomada escola de idiomas “Stop and Learn”. Nalini, doutora em Linguística e dona de alentado repertório de leituras, e Maritan, professor e também leitor apaixonado por títulos e autores de língua portuguesa e inglesa, comemoravam na ocasião as 104 edições do Encontro. Há muito mérito nisso a se considerar que o número corresponde a uma década de dedicação ao segmento de pessoas que amam literatura e gostam de discutir autores e escritas. O funcionamento obedece a um cronograma: a cada trinta dias lemos um livro, escolhido no começo ano, e na última sexta-feira de cada mês o discutimos. Dessa vez, coube-nos em agosto esmiuçar o romance “Cantiga para ninar menino grande”, de Conceição Evaristo, uma das vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea. É o quinto título da autora e entrou em 2024 na lista de livros obrigatórios para o vestibular da Fuvest.
Nascida em 1946 na favela do Pendura Saia, em Belo Horizonte, a escritora cresceu em família humilde e trabalhou como empregada doméstica antes de se mudar para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras pela UFRJ, tornando-se posteriormente mestre e doutora em Literatura. Sua obra é marcada pelo conceito de "escrevivência", a escrita que nasce da vivência diária, da memória coletiva e da ancestralidade das mulheres negras brasileiras. Por meio de uma prosa lírica mas visceral, Evaristo confere protagonismo a sujeitos historicamente marginalizados e entre suas obras, já traduzidas para quatro idiomas, destacam-se o romance Ponciá Vicêncio (2003) e os contos de Olhos d'água (2014), pelo qual venceu o Prêmio Jabuti.
“Cantiga para ninar menino grande”, contrariamente ao mostrado em ficções anteriores, não se constrói sobre a exposição do racismo ou da miséria material. Seu terreno de investigação é o machismo estrutural e a arquitetura afetiva do patriarcado, personificados na figura de Fio Jasmim.
Sobre esse personagem, há que se dizer ser negro, pobre e atraente. Funcionário de uma ferrovia, ajudante de maquinista, atravessa seu Estado, em determinado momento definido como Minas Gerais, encarnando a própria contradição da masculinidade moldada pela cultura patriarcal. De um lado, a força do masculino conforme concebido até aqui por nossa cultura: expansivo, voluntarioso, atraente, com forte poder sobre as mulheres cuja vida atravessa como um fio, palavra que talvez explique seu nome. É o arquétipo do sedutor que a cada estação onde o trem para faz questão de se relacionar com uma mulher, como se isso fosse mais que necessidade, obrigação.
Por outro, é um sujeito infantilizado e emocionalmente imaturo, conforme se vai percebendo à medida que o enredo evolui. Como já sugere o título, "menino grande", ele é incapaz de se responsabilizar pelos afetos que desperta, pelos filhos que gera e pelas expectativas que constrói. Sua travessia de ‘fio’ é marcada pela fuga sistemática do compromisso. Diante da dor alheia ou do peso das escolhas, sua postura é o recuo e o abandono, o que perfila o sujeito incapaz de se deixar envolver emocionalmente pelas mulheres a quem conquista e de responder com ética por seus atos.
Encontramos por aí muitos seres parecidos com Fio, “um homem de muitas brincadeiras e piadas, cuja motivação do riso se tratava sempre de mulheres. Apesar de as conversas de Jasmim com outros homens girarem sempre em torno de mulheres, ele, como grande parte de seus amigos, pouco sabia sobre elas. Fio, por exemplo, nunca tinha buscado dentro dele as mulheres que viviam em seus dias. Que lugar elas ocupavam na vida dele? Onde as mulheres de Jasmim habitavam nele? No entremeio do corpo dele? No entremeio dele todo como pessoa, como homem?”
Seria de se supor, diante do perfil desse personagem, que o leitor, e especialmente a leitora, fossem afetados de forma a desenvolver raiva por ele. Mas isso não acontece, a reação fica no máximo no nível da antipatia, porque o discurso não o vilaniza de forma maniqueísta, apenas cumpre o papel de expor como o patriarcado (ainda tão vigente na nossa cultura) facilita aos homens essa licença para a irresponsabilidade afetiva, permitindo que homens que deveriam ter se tornado adultos permaneçam meninos mimados e protegidos, enquanto o custo de sustentar a vida recai sobre as mulheres. No caso, são elas Pérola Maria, a esposa escolhida; Juventina Maria Perpétua, a Tina, amante de longa data que compõe a canção que dá título ao livro; Neide Paranhos da Silva, a que desejava ter um filho mas não queria casar; Angelina Devaneia da Cruz, que comete suicídio após mal-entendido amoroso; Aurora Correa Liberto, que gostava de se banhar nua no rio; Antonieta Véritas da Silva, a mais velha e independente; Dolores dos Santos, a mãe das filhas gêmeas; Dalva Ruiva, que queria ter filhos ‘enegrecidos’; Eleonora Distinta, cujas interações com Fio geram muitas reflexões na narrativa; Alda Jovelina, mãe de Tina, a matriz dos relatos: “Busquei escrever a história que Tina me contou. Não é só a história dela, mas das várias mulheres que, direta ou indiretamente, tiveram os caminhos cruzados com os de Tina”, escreve a narradora no último capítulo.
Mas se Fio Jasmim é um ser volátil, sem raízes, a rede de mulheres que cruza seu caminho durante mais de duas décadas ergue o verdadeiro arcabouço dessa construção que é o romance. Vozes femininas constroem um coral harmonioso onde cada uma traz ao grupo sua própria experiência de amar e perder o mesmo homem. Entretanto, que não nos enganemos enquanto leitores e leitoras: elas não se sentem meras vítimas da irresponsabilidade do sedutor Fio Jasmim porque as ações dele acabam percutindo na vida delas como fator de transformação da dor individual em força coletiva. Depois do luto pelo abandono de Fio, vem a luta que promove movimentos internos construtivos e mudam a ilusão em consciência, a dor em resiliência, o individualismo em solidariedade.
Cada voz feminina retrata o momento em que a cegueira romântica cede lugar à lucidez: ao compartilharem suas vivências, as mulheres desmistificam a figura do sedutor e enxergam a fraqueza por trás do mito masculino. Diante do abandono, elas prosseguem, gestam, trabalham, cuidam umas das outras e reinventam seus cotidianos porque a capacidade de superar a adversidade não vem do esquecimento mas da reorganização do afeto. E aquilo que poderia ser uma disputa pelo amor de um homem, acaba se tornando aliança velada entre as amantes. É dessa forma que o coral funciona como um ritual de cura comunitária: ao contarem suas histórias, as mulheres subtraem de Fio Jasmim o poder de narrar e tomam para si a condução de seus próprios destinos.
“Cantiga para ninar menino grande” é uma narrativa primorosa do ponto de vista das relações humanas e das observações sobre subjetividades. Ao afastar a denúncia social do primeiro plano, Conceição Evaristo, intelectual de extrema relevância, abre espaço para a crítica à moral patriarcal que ainda nos impacta, mostrando que, enquanto muitos homens se acomodam na fragilidade da infantilização, cabe à solidariedade e à resiliência feminina a tarefa de sustentar a vida e tecer a dignidade humana.
Na página de rosto escreve a Autora: “Este livro(...) me permite embaralhar tudo: vivência e criação, vivência e escrita. Escrevivência”. Esta palavra, como se pode ver, é mais que um neologismo. É ficção muito rica em sentidos. Dessa experiência inusitada em nossas letras, o livro de que tratamos aqui nos oferece representatividade ao se mostrar como texto que ao se construir para contar uma história singular se confunde com um sujeito coletivo.