15 de outubro de 2026
ELEIÇÕES 2026

'A polícia ainda mata muito pouco', diz João Pedro Cardoso

Por Pedro Dartibale | da Redação
| Tempo de leitura: 30 min
Sampi/Franca
Pedro Dartibale/GCN
Corrêa Neves Jr., jornalista do Portal GCN, e João Pedro Cardoso, candidato a deputado federal pelo Missão

A defesa de uma reforma administrativa para reduzir privilégios no funcionalismo público, a ampliação do combate ao crime organizado, o fortalecimento da autoridade dos professores em sala de aula, a adoção de escolas cívico-militares e novas privatizações estão entre as principais posições apresentadas pelo candidato a deputado estadual João Pedro Cardoso, do Missão, durante a sabatina com Corrêa Neves Jr., jornalista do Portal GCN, e promovida pelo Franca Tem Voz.

Durante a entrevista, Cardoso afirmou que pretende reduzir privilégios e supersalários do funcionalismo público, mas se posicionou contra o fim da estabilidade dos servidores. O candidato também defendeu uma maior fiscalização sobre o desempenho dos funcionários e criticou o que classificou como excesso de benefícios concedidos a determinadas categorias. Na educação, propôs mudanças na progressão continuada e disse ser favorável à ampliação das escolas cívico-militares.

Na segurança pública, João Pedro afirmou que considera o aumento da letalidade policial em São Paulo resultado de maior eficiência da polícia e declarou que, em confrontos, “a única opção é neutralizar” criminosos que não se entregarem. O candidato se posicionou contra o uso de câmeras corporais pelos policiais neste momento e defendeu operações voltadas ao financiamento e à logística do crime organizado.

Cardoso também defendeu a redução da tributação sobre máquinas utilizadas pelo setor calçadista como forma de aumentar a competitividade das empresas da região. Sobre as privatizações promovidas pelo governo Tarcísio de Freitas, considerou a desestatização da Sabesp uma decisão acertada e afirmou ser favorável a novas privatizações, mas disse que cada caso deve ser analisado individualmente. Na política nacional, reconheceu que houve uma tentativa de golpe de Estado durante o governo Bolsonaro, mas criticou as penas aplicadas aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

O Franca Tem Voz é uma iniciativa que reúne entidades, empresas e veículos de comunicação com o objetivo de estimular o voto em candidatos de Franca e região nas eleições de 2026. Idealizada em conjunto pela Acif, Cocapec, Unimed, portal GCN e Rádio Difusora, tem apoio de entidades como CDL, Ciesp, OAB, Sebrae, Uni-Facef, Franca Basquete e Magazine Luiza, entre outras. O objetivo é fortalecer candidaturas com base eleitoral em Franca e na região, garantir a eleição de um deputado federal e ampliar a bancada de deputados estaduais na Alesp.

Vinte candidatos a estadual e federal com base eleitoral em Franca e região foram convidados para as sabatinas. Dezoito compareceram, de partidos de direita e esquerda, conservadores e progressistas, experientes e estreantes. Apenas dois faltaram: a delegada Graciela (PL) e o ex-prefeito Gilson de Souza (PSB) não compareceram às entrevistas.

A ordem de exibição e publicação das sabatinas foi definida por sorteio na presença dos candidatos ou representantes.

A sabatina com João Pedro Cardoso pode ser assistida na íntegra no vídeo acima.

A íntegra pode ser também lida abaixo.

A sabatina

A transcrição da sabatina do candidato a deputado estadual João Pedro Cardoso, do Missão, pode ser lida a seguir:

Corrêa Neves Jr. - Olá. Hoje, dentro da série de sabatinas que o Franca promove com todos os candidatos a deputado federal e estadual com base eleitoral em Franca, é dia de conversar com João Pedro Cardoso, advogado, 27 anos, solteiro, que disputa uma vaga de deputado estadual pelo Missão. É um prazer ter você aqui. Eu quero começar te perguntando: por que alguém que está no início da carreira no Direito resolve disputar uma eleição tão difícil?
João Pedro Cardoso - Isso se trata de alguém que está indignado com o poder estabelecido e com essa dicotomia que a gente encontra hoje na política brasileira. Então, eu fundei aqui o núcleo municipal do Movimento Brasil Livre em Franca já há cerca de cinco anos. Antes disso, inclusive, eu provavelmente sou o único candidato aqui da cidade de Franca que ajudou a montar o próprio partido que está disputando a primeira eleição aqui este ano. Então, a gente montou o Movimento Brasil Livre, o núcleo municipal aqui em Franca, já há alguns anos. E essa minha vontade de fazer política vem muito antes de pensar em ter mandato, de pensar em montar um partido. Tanto que, como cidadão atuante de um movimento político, ainda que sem nenhum cargo, a gente chegou a articular com políticos nossos que já têm cargo no Congresso.

O deputado Kim Kataguiri chegou a articular com o Zacarias, de tal modo que, nos últimos três anos, a gente conseguiu para Franca, sem mandar emendas, mas apenas com a nossa articulação como movimento aqui na cidade, cerca de R$ 3 milhões em emendas para a área da saúde. E o que a gente busca agora, como partido próprio, é não depender de nenhum cacique partidário. Essa atuação política que a gente já faz sem depender de mandato nenhum vai ter mais influência para fazer valer as nossas ideias e as nossas propostas aqui para a cidade e para a região.

Corrêa Jr. - Uma das suas propostas é fortalecer a autoridade dos professores em sala de aula. Se eu entendi, é isso, com mais poder para disciplinar os alunos. Me explica melhor.
João Pedro Cardoso - Isso, exatamente. Há uma série de propostas, inclusive colocadas no Livro Amarelo, nível nacional para aplicar em âmbito nacional, mas que podem ser aplicadas em âmbito estadual, já que o governo estadual tem aceitado legislar com relação à educação. E uma dessas propostas é diminuir o que a gente chama de progressão continuada da maneira que se encontra hoje. Hoje, a aprovação e a avaliação dos alunos permitem, vamos colocar assim, que uma reprovação efetiva aconteça apenas em certos anos do ensino fundamental e também do ensino médio.

A gente quer diminuir, não voltar à repetência, mas para que o aluno passe de ano aprendendo mesmo. E onde isso influi na autoridade do professor? Para que hoje um aluno respeite o professor e preste atenção na aula, sendo que ele sabe que o professor tem pouca probabilidade de dar uma nota que vai fazer com que ele seja reprovado? Ora, se ele não precisa ter um desempenho bom com relação ao aprendizado nas escolas, por que ele precisa respeitar o professor? Por que ele precisa estudar se ele acaba passando de maneira automática?

Então, isso influi diretamente. Além disso, eu sou um grande simpatizante do modelo de escola cívico-militar. Para mim, o único problema é que ele custa muito dinheiro. Então, seria muito populista falar: "Eu quero trazer escola cívico-militar para todas as escolas da cidade e do Estado". Mas a gente poderia estudar um jeito de colocar pelo menos o sistema administrativo, um sistema híbrido nas escolas, restabelecendo a autoridade e o ensino.

Corrêa Jr. - Se eu entendo direito, a proposta do Missão é de um partido liberal, não necessariamente conservador. É liberal na economia, foca muito em uma economia liberal, no modelo americano, por exemplo. Mas a liberdade dos Estados Unidos, nas grandes democracias do mundo, não existe modelo cívico-militar como base da educação. O que te encanta nesse modelo? É mais comum em países ditatoriais. E, ainda assim, não é a base da formação. Por que você acha que seria uma solução, por exemplo, ter mais escolas militares, se não fosse o custo?
João Pedro Cardoso - Não é uma solução. Seria parte da solução. E, a partir dessa função, o Movimento Brasil Livre também tenta fugir dessa dicotomia com relação a: "Você é um partido de direita, então você acredita em menos interferência do Estado". É aquela caixinha de perguntas, pronta, de propostas prontas. Dependendo do lado que você escolhe, você tem uma determinada posição. Tanto é que a maior prova disso é que, em cinco anos, a gente realizou pesquisas analisando políticas públicas aplicadas em todo o resto do mundo, seja em países de direita, seja em países considerados de esquerda. A gente verificou os resultados dessas políticas públicas ao redor do mundo.

A gente fez uma pesquisa de mil páginas, onde hoje resume essa pesquisa de mil páginas em um nível de 470 páginas. Uma curiosidade é que a gente apresentou para o TSE a nossa proposta, com mais de 400 páginas. O TSE falou que era muito grande, que não cabia no arquivo, e pediu para a gente resumir. A gente teve que resumir só para 60 páginas do plano de governo. Então, a gente quer sair dessa caixinha de que, se você é de direita, então você tem que defender a economia livre e um Estado menor. A gente quer pegar políticas públicas que dão certo, seja em países considerados governados pela esquerda ou pela direita, e aplicar aqui no Brasil. É uma pesquisa séria. A gente quer fugir daquela política de influência bolsonarista, em que fica falando de atitudes e não de propostas.

Corrêa Jr. - Até agora, ninguém me deu uma resposta nessa série de entrevistas. A gente não teve uma resposta coerente para um paradoxo. A direita brasileira se apresenta como liberal na economia ou como defensora de um Estado menor, menos invasivo, menos intervencionista. Só que, na hora que vai falar dos benefícios, nenhum, na verdade... Estou falando que você é a 18ª gravação, que eu sou o último. Eu posso falar com 17 que te antecederam. Nenhum, seja de direita ou de esquerda, define a redução dos serviços públicos para todos os cidadãos. Os de esquerda defendem, de outra forma, o aumento dos serviços públicos oferecidos. E a minha dúvida é a seguinte: você tem a direita, que é uma constatação do brasileiro reclamando muito dos níveis de impostos. Nós pagamos muitos impostos, é muito pesado empreender no Brasil, é muito difícil. Mas ela não propõe nenhuma alternativa real. Você tem a esquerda dizendo que, sim, os impostos são pesados e ela quer fazer cada vez mais coisas. Então, a minha dúvida... Eu coloquei para vários candidatos aqui. Você tem dois grandes modelos. E aí eu não estou falando de modelos de esquerda ou direita, estou falando de modelos de tamanho. Nas democracias ocidentais, estou deixando de fora toda e qualquer ditadura, porque aí vai na porrada e não serve de comparação. Você tem o Estado de bem-estar social resolvido nos países, por exemplo, da Escandinávia — Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suécia — onde você tem altíssima carga tributária e uma vida de primeira. São alguns dos países mais felizes do mundo. Então, você tem 75% de imposto médio nesses países. Educação gratuita, saúde gratuita, tudo funciona. Mas uma altíssima taxação. E lembro também: são países menores, países pequenos, com populações homogêneas. Você tem um outro modelo, que é o modelo americano, onde você vai dizer para as pessoas: "Olha, o problema é seu. A sua vida, você toca do jeito que você quiser. Nós não vamos te cobrar muito imposto, vamos cobrar o mínimo. Mas, se você tiver um problema de saúde, você compra o seu plano, porque não tem SUS, não tem faculdades públicas gratuitas. O ensino municipal é gratuito, mas não é para todo mundo e não tem grande preocupação social." No Brasil, a gente tem estes movimentos hoje em dia acenando como impossível, na minha opinião, e mentindo para o eleitor. Ou seja, prometem um tamanho de país que não cabe no orçamento. Reclamam dos 36% que nós pagamos, mas estamos na média mundial. Não cobramos os impostos mais caros, não cobramos os mais baratos. Mas prometemos para as pessoas saúde ampla, geral e irrestrita, gratuita; educação ampla, geral e irrestrita, gratuita. Como é que faz esse ponto fechar?
João Pedro Cardoso - Então, quando você falou, grande parte dos candidatos não oferece a solução para diminuir os impostos. Alguns falam em reduzir, outros falam em aumentar e ficam nessa discussão. O que a gente propõe, e a análise que a gente faz no Brasil, é que os impostos que são cobrados no Brasil, embora com taxa alta parecida com os países que você mencionou, são muito mal utilizados, não para serviços que vão ajudar a população. Hoje a gente enfrenta um alto funcionalismo, que tem supersalários, tem outras ajudas além dos salários, para furar os famosos penduricalhos. Então, o que a gente vê é o Brasil com uma alta taxa de impostos e uma elite política e uma elite do funcionalismo público que pisa na população e só enxerga os seus interesses. Novamente, quando eu falo do funcionalismo público, eu não estou falando do funcionário público que está em contato direto com o cidadão, que são os professores, os policiais. Esses também fazem parte da população, que são usados pela elite do funcionalismo público e pela parte da elite brasileira que só quer realizar a manutenção dos seus privilégios. Dito isso, o que o livro amarelo propõe, a partir do Missão, é uma reforma administrativa e uma reforma tributária nesse sentido, que vai, de fato, cortar os gastos e os supersalários do funcionalismo público.

Corrêa Jr. - Você defende o fim da estabilidade do serviço público, por exemplo?
João Pedro Cardoso - O fim da estabilidade, não, mas sim uma redução e uma maior análise dos processos que vão julgar o desempenho desses funcionários. Mas, independentemente da análise do funcionalismo público, o problema maior é diminuir os supersalários cobrados.

Corrêa Jr. - É impossível você imaginar que tem essa vida pública no Brasil: Judiciário, Ministério Público, Defensoria, especialmente, ganhando R$ 200 mil, R$ 300 mil, R$ 500 mil por mês. Mas, no bolo geral, e é importante a gente dizer isso, por isso que eu queria entender a lógica de pensamento e de proposta, o que a gente pega hoje em dia é uma cidade qualquer no Brasil. Vamos imaginar, porque eu gosto do Missão. Renan gosta muito de comparar a empresas. Então, vamos lá. Se uma empresa está com problemas, eventualmente ela tem que recorrer à demissão de algum funcionário para poder equilibrar o caixa, ou redução de produção, ou redução do que quer que seja. Ou ela vai aumentar o preço do produto que vende para conseguir equilibrar a equação. Nós vemos aqui todos os dias. Tem hoje a Volkswagen, acho que também anunciou a demissão de não sei quantos mil funcionários no mundo, fechamento de fábricas. Enfim, é triste, mas é do jogo. No caso do serviço público, se você pegar uma cidade como Franca, com um orçamento municipal de R$ 1,7 bilhão, R$ 1,5 bilhão é realizado. Mas, disso, o que o prefeito dispõe mesmo para investimento está na casa de R$ 60 milhões. O resto está completamente engessado, ou com verbas obrigatórias, ou com folha de pagamento, que oferta 50% da folha de pagamento. 36% é quase meio bilhão para a saúde. Nós temos 25% de gastos obrigatórios na educação. Se você não defende o fim da estabilidade, ou seja, um prefeito não pode demitir seus servidores, ou governador, ou qualquer servidor público para economizar, como que vai ter melhores resultados?
João Pedro Cardoso - Então, o que a gente defende é que se aumente a fiscalização. É aí que a gente vai precisar fazer uma outra reforma administrativa. Na verdade, a reforma administrativa, a última reforma administrativa realizada, ela aponta esses detalhes, só que ela não é aplicada. Então, a gente defende uma maior análise do desempenho e a criação de órgãos julgadores compostos por pessoas que não são os próprios funcionários públicos. Hoje acontece muito isso.

Corrêa Neves Jr. - Mas é impossível se não quebrar esse papel do serviço público. João Pedro Cardoso - Isso a gente vai ter que fazer uma mudança. A gente vai ter que fazer a mudança na estabilidade para reduzir. Mas o principal problema é isso. A gente vê o funcionalismo não querendo abrir mão, inclusive — e é uma crítica até ao atual governo Tarcísio —, um dos motivos que o nosso candidato a deputado estadual saiu da liderança do governo foi a questão de o Tarcísio ceder ao lobby do funcionalismo público aqui do Estado de São Paulo, que aumentou em muito os privilégios dos procuradores. Em 2024, iniciou-se ali uma medida, mandada pelo próprio governo na Alesp, em que aumentou o privilégio dos procuradores, dando licenças remuneradas. A cada três dias de trabalho, eles ganharam direito a uma folga ou a uma licença remunerada a cada três dias de trabalho. Isso porque eles já recebem por quase o teto constitucional. Então, a gente verifica que tem muitos direitos, como você mencionou, mas que, na hora da prática mesmo, eles pedem, seguem e fazem o papel de Centrão, como o Tarcísio acabou fazendo.

Corrêa Jr. - Caso seja eleito, você vai ter R$ 10 milhões em emendas impositivas por ano na Alesp. Metade tem que ir para a saúde; outra metade você pode destinar para projetos de outras naturezas. Como é que você destinaria esses recursos? O que passa pela sua cabeça?
João Pedro Cardoso - Isso. A outra metade, a gente quer destinar, né? A nossa prioridade é para projetos que ajudam a resolver a questão dos moradores de rua. Então, uma das nossas propostas para ajudar na questão dos moradores em situação de rua, dos dependentes químicos, é inclusive inspirada no município de Chapecó, que realizou o projeto Mão Amiga. O que o município de Chapecó fez? Ele pegou, fez grupos de trabalho para identificar os moradores de rua ali da região. Encaminhava os que precisavam de internação para desintoxicação e, além disso, ao contrário do que foi feito aqui em Franca, o centro de acolhimento dos moradores de rua não fica dentro da cidade, não é transferido de lá para cá, acabando ali com os bairros em volta. Eles alocaram os moradores de rua em um imóvel rural próximo à cidade, onde eles tratavam os moradores de rua também com parceria em outras clínicas privadas. E ali era realizado o tratamento deles e também eram dadas oficinas para que eles aprendessem uma profissão, para que não ficassem, para que esse projeto não ficasse só em uma higienização urbana, muito criticada pelo STF. Eu, como mandatário, quero destinar parte das emendas para esse tipo de projeto. Projetos como esse que a gente apoia e ajudar clínicas que ajudam na recuperação desses moradores de rua, dessas pessoas que convivem com as drogas. A gente quer voltar para esses projetos.

Corrêa Jr. - Você vai receber R$ 34.734 por mês, fora assessores, carro oficial, motorista, enfim. Você acha que esse salário está adequado e votaria contra ou a favor de um aumento dos salários dos deputados?
João Pedro Cardoso - Votaria contra. E todos os meus colegas de partido e de movimento sempre foram contra o aumento dos salários. Então, é um histórico nosso, é um histórico do meu grupo político. A gente tem um exemplo do Kim, que, no último aumento do salário, ao qual a gente foi contra, ele prometeu que ia pegar esse aumento e doar para instituições. Ele vem fazendo isso até hoje, comprovado. Eu quero adotar esse mesmo método. E também a questão não é nem atrelada só ao salário. Conforme você mencionou, a quantidade de assessores que as pessoas podem ter, os deputados podem ter hoje, é muito complicada. Os salários altíssimos também. A gente quer manter as características do nosso grupo político, de manter somente os assessores necessários para ter um bom desempenho na legislação, na apresentação de propostas, e manter essa atitude de ser contra qualquer aumento, qualquer aumento de privilégio concedido aos deputados.

Corrêa Neves Jr. - Qual a sua posição sobre o aumento para 37,5% nas tarifas dos Estados Unidos? Houve uma série de pedidos anunciados pelo governo federal para apoiar o setor. O governo está apoiando o setor, que disse que nenhuma delas é suficiente.Como deputado estadual, de que maneira pretende se posicionar para defender o calçado? Ou não é uma preocupação?
João Pedro Cardoso - É uma preocupação, é uma preocupação nossa. E a gente entra naquela briga entre esquerda e direita novamente. Muita gente falou que... Saindo um pouco desse assunto, mas também das taxas das blusinhas, então o que a gente deve fazer? A direita é contra aumentar os impostos dos produtos vindos de fora. E esses impostos, em tese, ajudariam os produtores de calçados aqui do país. O que a gente vai fazer? A esquerda defende que tem que aumentar imposto, sim; a direita, não. A questão aqui é que, na metodologia de você aplicar imposto nos produtos, então vamos falar aqui do calçado, em produtos que vêm de fora, para, então, de certo modo, privilegiar o mercado interno, você acaba forçando o cidadão a comprar produtos do mercado interno inferiores aos que ele pode obter lá fora e mais baratos. De que modo a gente consegue, então, ajudar o setor calçadista e outros setores iguais aqui no nosso país sem forçar o cidadão a comprar um produto inferior e mais caro? A questão aqui no Brasil e também no Estado de São Paulo é que cerca de 30% a 50% de impostos são aplicados no setor calçadista com relação aos maquinários industriais. Ou seja, se o setor calçadista não consegue, de maneira mais barata, obter tecnologia que vai melhorar o produto e deixá-lo mais barato, é aí que ele perde a concorrência com relação aos produtos exteriores, que, porventura, são melhores devido à tecnologia mais industrial de fora.

Corrêa Jr. - Na verdade, o sapato brasileiro entrava competitivo nos Estados Unidos e, quando ele foi sobretaxado, passou a custar no mínimo 40% mais lá. Aí o calçadista americano disse: "Não vou comprar o seu sapato porque ele ficou caro. Vou comprar no Vietnã, na China, no Laos, de onde quer que seja". Esse é o problema que o exportador calçadista enfrenta hoje. De que maneira você poderia ajudar eles nesse caso?
João Pedro Cardoso - Então, a principal maneira é a gente ir com políticas no sentido de reduzir essa tributação com relação aos maquinários industriais aqui no setor calçadista. Juntando hoje o ICMS e os impostos federais, chega a 30% a 50% de aumento no valor dos maquinários. Diminuindo isso, diminuindo esse valor, a gente consegue diminuir o custo de produção, deixar o produto mais barato tanto para nós quanto para o público externo.

Corrêa Jr. - Nos últimos três anos, a letalidade policial em São Paulo subiu de 421 mortos em confrontos com a polícia para 834 mortos em confrontos com a polícia. A mesma estatística mostra que a taxa de criminalidade caiu. O governador Tarcísio diz que a letalidade aumentou porque a polícia está mais eficiente e, por isso, ela atua mais e, no confronto inevitável, nas palavras dele, a polícia está matando os bandidos que resistem. Quem critica diz que isto muitas vezes são execuções sumárias. Na sua opinião, o crescimento da letalidade policial indica maior eficiência da polícia ou maior brutalidade da polícia?
João Pedro Cardoso - Maior eficiência da polícia. E, no meu entendimento, a polícia ainda está muito amarrada. Ela ainda mata muito pouco. Se a gente for ver, o único problema do governador Tarcísio é que, se continuar só nessa de enxugar gelo, no sentido de que tem operações para desmantelar traficantes aqui e ali, mas não fazer uma operação definitiva para atacar o crime organizado de maneira a, vamos colocar assim, quebrar as pernas dele, isso vai ficar só se repetindo. Porque o problema não é a polícia matar quando houver um confronto com os integrantes do crime organizado nas operações. O problema é você não acabar com o financiamento financeiro do crime organizado. Então, por exemplo, aqui no Estado de São Paulo, uma outra crítica que a gente faz ao Tarcísio é que é cristalino que o PCC faz o escoamento das drogas ali no Porto de Santos. Então, por que o Tarcísio, como governador, com o poder de polícia, não fez uma operação até hoje para desmantelar, sendo que é uma coisa sabida por todos? Então, é isso. Essa é a crítica que a gente faz para ele. A gente quer chegar ao governo, a gente quer trazer essa vontade para o governador, para o líder da Polícia Militar, de fazer essas operações que vão atacar diretamente as grandes operações do PCC. Não adianta nada você ficar aqui fazendo.

Corrêa Jr. - Mas e as operações federais, como a Operação Carbono Oculto, por exemplo, que atingiu os fundos de investimento e a parte financeira do crime organizado lá na Faria Lima? O senhor acha que essas operações são importantes?
João Pedro Cardoso - São importantes. Mas, além disso, além de você atingir a parte financeira, a parte administrativa, você tem que também desmantelar a questão estratégica de transporte das drogas. É enxugar gelo.

Corrêa Jr. - O senhor falou uma frase em que disse que a polícia mata pouco. Você acha que a função do Estado, da polícia, é matar bandido ou prender bandido?
João Pedro Cardoso - A função é prender bandido. Seria muito interessante se, quando a polícia batesse numa boca de fumo, o bandido saísse tranquilamente, baixando as armas, e a gente não precisasse matar. Como isso não acontece, como eles têm que continuar desmantelando, entrando em áreas do crime organizado, se o bandido não se entrega, a única opção é neutralizá-lo.

Corrêa Jr. - Você vai defender as câmeras corporais?
João Pedro Cardoso - No atual momento, não.

Corrêa Jr. - Por quê?
João Pedro Cardoso - Porque, como a gente verifica, a maior parte, seja de imprensa ou de grupos de esquerda, ONGs, eles têm o intuito de, por vezes, colocar a força oficial como vilã. Na maioria das vezes, nas narrativas, eu enxergo que essa medida não é uma medida de boa-fé. Eles não estão preocupados com o que vai acontecer com os cidadãos.

Corrêa Jr. - Já existem imagens que mostram, por exemplo, policiais militares executando pessoas a sangue-frio, como o rapaz que estava rendido e foi morto com tiros, ou outra situação de uma briga, uma discussão na rua, que terminou com uma policial militar atingindo uma mulher no meio da rua. O senhor não acha que é importante ter esse tipo de imagem para saber o que acontece. E, se ela apenas registra o que acontece, qual o problema? O policial militar ser filmado, o que o senhor defende é o seguinte: é melhor que a gente não saiba, para deixar que eventuais excessos sejam cometidos?
João Pedro Cardoso - Não. Um excesso tem que ser punido.

Corrêa Jr. - Mas, se a gente não tiver um documento, por que não?
João Pedro Cardoso - Porque, eventualmente, qualquer burocracia nesse sentido pode colocar na narrativa a polícia como vilã. Eu fico muito mais horrorizado com o que acontece todos os dias na rua, com o crime organizado matando as pessoas por causa de um celular.

Corrêa Jr. - Mas ninguém discorda disso. A questão é: existe um mecanismo. O próprio Tarcísio, que dizia o contrário, hoje é um defensor das câmeras. Diz: "Protege o bom policial e ajuda a esclarecer dúvidas". Por que não nos Estados Unidos todos têm câmeras corporais? Por que não filmar a ação de alguém que tem o monopólio do uso da força? Por que isso criaria narrativa? Nós estamos falando de fatos, não de uma narrativa. Está documentado ali. Por que o senhor acha que é melhor não ver o que está acontecendo?
João Pedro Cardoso - Hoje a gente tem câmeras em todos os locais. A situação de você ter uma narrativa da imprensa que vai colocar a opinião pública contra a polícia hoje é o que acontece na maioria. Eu sou a favor, sim, depois que a gente atingir a normalidade, no sentido de a gente ter conseguido vencer o crime organizado.

Corrêa Jr. - Então, eu diria assim... Se eu entendo o que o senhor está dizendo, com outras palavras, é: vamos deixar dar porrada, porque a gente não vê mesmo. Aí, depois que estiver tudo certo, a gente volta a controlar. Porque eu não consigo entender de outra forma.
João Pedro Cardoso - Nos casos em que houver excesso da força policial, a gente pode punir.

Corrêa Jr. - Como é que nós vamos saber se houver excesso se a gente não vai ter as câmeras?
João Pedro Cardoso - De qualquer maneira, a gente verifica através de outros modos e através de investigação, com testemunhos.

Corrêa Jr. - São os policiais e o executado. O executado, por razão óbvia, não vai falar. Está morto. E não teremos as câmeras. Como saberemos se houve um excesso ou não?
João Pedro Cardoso - A gente pode ter todo o procedimento de análise e investigação. Se o policial cometeu excesso, a gente tem o processo e vai ser analisado. Eu acho que não é o momento de ter isso.

Corrêa Jr. - Candidato, o governo Tarcísio foi eleito com um programa de privatizações anunciado e ele cumpriu o programa. Privatizou Sabesp, Emae, CPTM, mais um monte de coisa. O senhor é contra ou a favor dessas privatizações? E, especialmente por causa da Sabesp, eu acho que foi um acerto ou um erro?
João Pedro Cardoso - A Sabesp, a gente ainda vai colher os frutos, mas eu acho que foi uma decisão acertada. Aqui na região de Franca, a gente sempre teve uma boa prestação de serviço. Só que a análise da privatização da Sabesp foi uma análise em todo o Estado. O governo tem que se preocupar com todo o Estado. Foram feitos diversos estudos, estudos feitos lá fora, de que a privatização traria saneamento básico de maneira mais rápida para todo o Estado. De qualquer maneira, trazendo o olhar aqui para a região de Franca, em que pese a gente ter um bom serviço na parte administrativa, ocorriam vários erros. Como advogado, tive experiência nessa área. Como advogado do consumidor, a gente verifica que a gestão da Sabesp, ainda mais falando aqui de Franca, apesar de entregar um bom serviço aos clientes, os consumidores sempre tinham problemas com religamentos, com contas de consumo abertas sem autorização. Isso acontecia muito aqui em Franca. Falo como gente que julgava, porque diversas vezes a gente tinha que ingressar com ação contra a Sabesp porque o consumidor pediu o religamento de água, um serviço essencial, há mais de uma semana, e não foi realizado. Então, em que pese Franca ter uma estrutura boa para a entrega do saneamento, a parte administrativa, nesses detalhes, deixava muito a desejar. E, no restante do Estado, os estudos mostravam que, com a privatização, a gente ia levar saneamento básico para o restante do Estado de uma maneira mais rápida. Aqui em Franca, a gente já tinha um ótimo serviço. Às vezes, depois da privatização, como o serviço já era muito bom aqui em Franca, a gente não tem uma percepção muito boa de melhora. Mas tenho certeza de que, no restante do país - daquelas cidades, perdão, no restante do Estado -, em que o cidadão usava um buraco para depositar seus dejetos, vai ficar feliz, tendo em vista que o saneamento básico vai chegar mais cedo.

Corrêa Jr. - Defende novas privatizações?
João Pedro Cardoso - Eu defendo, mas novamente não quero me colocar naquela posição de liberal bobo, que sou a favor de todas as privatizações, de privatizar todas as empresas. Um exemplo que tenho que dar é no nível federal. Hoje, o partido não enxerga que tem que se privatizar, por exemplo, a Petrobras. A gente não enxerga qualquer tipo de privatização múltipla. O Brasil e outras empresas que dão certo, a gente tem que analisar caso a caso. E não adotar aquela dicotomia: "Sou de direita, então tem que privatizar tudo, todos os serviços"; "Sou de esquerda, vamos manter todos os serviços", e aumentar o tamanho do Estado. Conforme eu disse, a gente gosta de fazer pesquisas e analisar caso a caso, ser pragmático nesse momento de aplicação de políticas públicas.

Corrêa Jr. - Na sua opinião, o Brasil, nos meses finais do governo Bolsonaro, até o 8 de janeiro, passou por uma tentativa de golpe de Estado ou não?João
Pedro Cardoso -
Passou. Muito da estratégia da família Bolsonaro e dos grandes influenciadores é atrelar somente ao que a gente fala de golpe de Estado a invasão ao Congresso no 8 de janeiro. E, com isso, realmente eles podem fazer aqueles absurdos. Vocês acham que os idosos, os velhinhos, iam conseguir dar um golpe de Estado? A questão não é o 8 de janeiro. O 8 de janeiro não é a tentativa de golpe. A gente tem tudo documentado antes do 8 de janeiro. A gente já tem lá, em dezembro, Bolsonaro se reunindo com os comandantes das Forças Armadas, falando de golpe. Essa tentativa de jogar no 8 de janeiro era a tentativa global de golpe para tentar ridicularizar os bolsonaristas que fizeram lá. O que a gente coloca é: o 8 de janeiro é uma coisa. São as pessoas que, ouvindo líderes bolsonaristas e influenciadores, foram lá fazer bagunça. Isso tem de ser punido, não da maneira como foi. O Brasil está bem complicado e a gente não pode ir nem de um extremo nem para o outro. O jeito que eles foram julgados, a pena aplicada a eles, está sendo exagerada. Mas, no caso do Jair Bolsonaro e dos grandes influenciadores bolsonaristas, eles, sim, tentaram cometer golpe de Estado. E isso está amplamente provado.

Corrêa Jr. - Candidato, nós temos mais uma pergunta e depois vamos para a parte final. Só para entender: o governador tem feito essa redução de investimentos na educação, de 30% para 25% obrigatórios para a construção do Estado. Era 30% de gastos com educação. Ele alega que não precisa, que dá para fazer a mesma coisa com 25%, e economizou R$ 10 bilhões por ano para investimento. Se o senhor for eleito deputado estadual, o senhor vota para voltar aos 30% ou acha que 25% para a educação são suficientes?
João Pedro Cardoso - A gente tem que analisar, porque a gente é contra também a questão desses gastos obrigatórios, que podem acabar dificultando uma governabilidade. Sou a favor de diminuir os gastos que a gente tem em outras áreas, conforme mencionei, do funcionalismo público, para sobrar mais verba para outros projetos, para não precisar ficar diminuindo gastos com a educação. Não acho que, se agora a gente aumentasse esses gastos, sobraria verba tributária ou melhoraria a governabilidade do Poder Executivo. Isso tem que ser analisado.

Corrêa Jr. - Pinga-fogo. Vou fazer dez perguntas. Uma farse para responder. Primeiro: anistia ampla ao 8 de janeiro.
João Pedro Cardoso – Contra

Corrêa Jr. - Vincular 30% da receita à educação.
João Pedro Cardoso – Contra

Corrêa Jr. - Escolas cívico-militares na rede estadual.
João Pedro Cardoso - A favor.

Corrêa Jr. - Câmera corporal gravando o tempo todo nos PMs.
João Pedro Cardoso - Não. Contra.

Corrêa Jr. - Novas privatizações estaduais nessa legislatura.
João Pedro Cardoso - A favor.

Corrêa Jr. - Votação nominal obrigatória para projetos polêmicos, especialmente na Assembleia, já que muitos projetos são votados por acordo de liderança.
João Pedro Cardoso - A favor.

Corrêa Jr. - Salário acima do teto constitucional.
João Pedro Cardoso - Contra.

Corrêa Jr. - Nova praça de pedágio em rodovias a serem duplicadas. O senhor acha válido colocar praças de pedágio em rodovias que vão ser duplicadas?
João Pedro Cardoso - A favor.

Corrêa Jr. - Reforma administrativa mexendo na estabilidade do servidor público.
João Pedro Cardoso - A favor.

Corrêa Jr. - Estado laico?
João Pedro Cardoso - A favor.

Corrêa Jr. - Candidato, muito obrigado. Terminando com suas considerações finais.
João Pedro Cardoso - Bom, sou advogado. Estou aqui representando um partido que não quer ficar preso à ideia que hoje a gente tem no Brasil, em que você tem que votar em um ou votar em outro. Sair dessa disputa binária. A gente não precisa depender desses dois times, depender dos dois ladrões que hoje lideram as pesquisas presidenciais. A gente está mostrando uma alternativa. Em boa parte das pesquisas, ela está em terceiro lugar. Você, jovem, não precisa ficar preso. Você que nasceu de 1990 para cima, a sua vida inteira foi governada por governos petistas e um período aí por um governo do Centrão que se intitula de direita, que é o bolsonarismo. A chance é de você convencer os seus familiares para a gente fugir dessa dicotomia. Então, é energia. Levanta a cabeça. A gente consegue mudar esse país.

Corrêa Jr. - Obrigado. Muito obrigado. Boa sorte.
João Pedro Cardoso - Obrigado.