A defesa de medidas para reforçar a segurança pública, a ampliação da assistência à saúde, a criação de políticas voltadas à terceira idade, o apoio ao empreendedorismo e a manutenção das escolas cívico-militares como opção na rede de ensino estão entre as principais propostas apresentadas pela candidata a deputada estadual Flávia Lancha (PSD) durante a sabatina com Corrêa Neves Jr., jornalista do Portal GCN, e promovida pelo Franca Tem Voz, iniciativa que reúne entidades, empresas e veículos de comunicação com o objetivo de defender o voto em candidatos de Franca e região nas eleições de 2026.
A entrevista também foi marcada pela defesa da privatização da Sabesp e de eventuais novas privatizações, desde que analisadas caso a caso, além do apoio à instalação de pedágios em rodovias que serão duplicadas. Flávia afirmou ainda ser favorável à meritocracia no serviço público, ao respeito ao teto constitucional para salários e à obrigatoriedade de votações nominais em projetos considerados polêmicos na Assembleia Legislativa.
Na área da segurança pública, a candidata defendeu a regulamentação do retorno de policiais civis aposentados para funções administrativas, como forma de liberar servidores da ativa para atividades operacionais. Flávia também declarou apoio ao uso permanente de câmeras corporais pelos policiais e destacou a necessidade de ampliar a integração e a estrutura das forças de segurança.
Na saúde, Flávia afirmou que pretende direcionar parte das emendas parlamentares para a Santa Casa de Franca, o hospital estadual e outras áreas vinculadas ao governo do Estado. Entre as propostas apresentadas, está a criação de centros de promoção da saúde para a terceira idade, com atendimento multidisciplinar, atividades físicas, acompanhamento psicológico e de enfermagem.
A candidata também falou sobre o setor calçadista e os impactos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Cafeicultora, Flávia defendeu a busca por novos mercados e maior valorização das marcas brasileiras, além de uma atuação mais próxima entre o setor produtivo, o governo estadual e os representantes políticos.
Durante a sabatina, Flávia ainda avaliou a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), reconheceu avanços em grandes projetos, mas fez críticas à atenção dada aos municípios do interior. Segundo ela, o governo estadual precisa ampliar o diálogo com prefeitos, vereadores e setores produtivos.
Sobre o 8 de janeiro, a candidata afirmou acreditar que houve uma tentativa de golpe de Estado, mas defendeu a revisão das penas aplicadas aos envolvidos e a chamada dosimetria.
O Franca Tem Voz é uma iniciativa de valorização do voto regional e suprapartidária, idealizada por Acif, Cocapec, Unimed, GCN e Rádio Difusora, com apoio de entidades como CDL, Ciesp, OAB, Sebrae, Uni-Facef, Franca Basquete e Magazine Luiza, entre outras. O objetivo é fortalecer candidaturas com base eleitoral em Franca e na região e ampliar a representação regional na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Vinte candidatos a estadual e federal com base eleitoral em Franca e região foram convidados para as sabatinas. Dezoitos compareceram, de partidos de direita e esquerda, conservadores e progressistas, experientes e estreantes. Apenas dois faltaram: a delegada Graciela (PL) e o ex-prefeito Gilson de Souza (PSB) não compareceram às entrevistas.
A ordem de exibição e publicação das entrevistas foi definida por sorteio realizado na presença dos candidatos ou de seus representantes.
A sabatina com Flávia Lancha pode ser assistida na íntegra no vídeo acima.
A íntegra pode ser também lida abaixo.
A transcrição da sabatina da candidata a deputada estadual Flávia Lancha, do PSD, pode ser lida a seguir:
Corrêa Neves Jr. - Olá. Hoje, dentro da série de sabatinas que o programa Franca Tem Voz promove com os candidatos que têm base eleitoral em Franca e região e que querem representar a região em São Paulo, na Assembleia Legislativa, ou em Brasília, no Congresso Nacional, é dia de conversar com Flávia Lancha, empresária, cafeicultora, empreendedora social, 67 anos, casada, três filhos e várias netas. Já participou de algumas disputas eleitorais, foi secretária municipal de Desenvolvimento Econômico do governo Gilson de Souza e agora tenta uma vaga na Assembleia Legislativa como deputada estadual. Por que Flávia?
Flávia Lancha - Bom, primeiro, cumprimentar todos que estão assistindo. É uma alegria estar aqui. Eu estive muito próxima do governo do Estado nesses últimos três, quatro anos e vejo o quanto a gente precisa ter mais representantes. O governo do Estado é muito focado na capital e no entorno. Quanto mais distante a gente está, mais a gente precisa de representantes. Então, eu tenho certeza de que estou preparada e que, como deputada estadual, vou fazer a diferença para Franca e região.
Corrêa Jr. - Entre as propostas a serem apresentadas, uma das suas bandeiras é a segurança pública. Você defende a regulamentação do retorno de policiais civis aposentados para a ativa. Como seria isso?
Flávia Lancha - Através desse aposentado, que já é um pouco mais velho, ele ocuparia cargo de escritório e liberaria outro pessoal. Quer dizer, é um pessoal que é preparado, tem conhecimento, ganharia menos e já está pronto. Então, de uma forma criteriosa, eu acredito que funcionaria. Inclusive, eu conversei com o Radaeli e com a Jaqueline, e elas também acreditam nessa possibilidade.
Corrêa Jr. - Então, para suprir a falta de pessoal na Polícia Civil, você traz o delegado, o escrivão aposentado e libera quem está lá para ir para a rua?
Flávia Lancha - Sim, mas não só como única opção, e sim como uma das opções. Porque o grande problema que a gente sabe é a falta de efetivo. Hoje, inclusive, nós temos cinco delegados assumindo agora, mas, ao mesmo tempo em que eles estão assumindo está aumentando o número de horas das DDMs. Então, ainda vamos ter uma falta, uma carência.
Corrêa Jr. - Por que segurança pública, Flávia? Tem a ver com a sua história no campo ou com a sua percepção como empresária que mora na cidade? Porque a gente sabe que é uma preocupação da população de modo geral. Mas por que uma candidata que vem do agro se preocupa com segurança pública?
Flávia Lancha - Justamente por causa dos meus princípios. Porque eu estive muito envolvida nos roubos. Inclusive, nós já tivemos roubos. Estive lá em São Paulo, inclusive com o pessoal do sindicato, mostrando o nosso problema, o quanto a gente ainda é suscetível, principalmente o pequeno produtor, que não tem todo aquele aparato que um grande produtor pode ter, que pode pagar. E eu vi que eles olham muito para capital essa questão de segurança, como eu já estou falando. E aí, hoje, Franca está sofrendo. Nós temos três frentes em questão de segurança. Uma que são os homicídios culposos, que é a questão dos acidentes de trânsito. Aí tem os homicídios dolosos e feminicídios. E a gente precisa olhar para essa frente, principalmente em relação ao feminicídio.
Corrêa Jr. - Que outras bandeiras você tem, para além da segurança pública? Em quais áreas você pretende atuar como deputada estadual?
Flávia Lancha - Sim, claro. Saúde, sem dúvida. E aí, também mais uma vez, a gente precisa trazer mais investimentos. Hoje nós temos o Hospital Regional e a Santa Casa, que precisam de vários investimentos. O hospital ainda está se colocando, né? Tem uma previsão de 220 a 250 leitos. Hoje tem só 115, e isso ainda não melhorou. A gente não deu uma percepção, por exemplo, de melhoria nas filas.
Corrêa Jr. - Continuou nas unidades de saúde do município esperando.
Flávia Lancha – Então, nós precisamos atuar ajudando a Santa Casa e o hospital. Mas eu tenho também a promoção de saúde para a terceira idade, que está nos moldes da Unimed. Seria para os municípios, através de uma parceria com a prefeitura, centros em que você teria um atendimento multidisciplinar para essas pessoas. Por exemplo: um acolhimento, uma convivência, exercícios, psicólogos, enfermeiros, focado na terceira idade. Na terceira idade, porque hoje a terceira idade está crescendo muito. Todo mundo está vendo, e a gente vê que tem muito pouca coisa relacionada a isso ainda hoje. E, além disso, quando você melhora a promoção de saúde, você diminui as doenças que são mais graves. Com isso, você vai diminuir também o custo, sem dúvida nenhuma.
Corrêa Jr. - Flávia, uma deputada estadual tem R$ 10 milhões em emendas impositivas por ano. Metade tem que ser carimbada, tem que ir para a saúde; outra metade vai para onde o deputado resolver. Para onde iriam as suas emendas impositivas? Para onde você direcionaria a verba da saúde? Para a Santa Casa, para cirurgia eletiva, para ajudar a prefeitura a construir UBS? O que você imagina?
Flávia Lancha - Claro, a Santa Casa hoje tem um papel primordial. Nós não podemos esquecer. Mesma coisa a gente vê no hospital. Seria na saúde como um todo, mas principalmente naquelas áreas que são ligadas ao governo do Estado, claro. Mas, se eu falo que emenda não é o suficiente, tá? A gente tem que trabalhar junto com o governo, junto com o Tarcísio, com o secretário de Saúde, para que a gente aumente o investimento na saúde em Franca. Na outra questão, o que não é verba de saúde, a gente tem que olhar, por exemplo, para as entidades. A gente tem muitas entidades que fazem um papel que a prefeitura sozinha não consegue nos municípios. Então, você tem, por exemplo, a APAF, você tem a Sociedade dos Deficientes Visuais, entre outras. Você tem também vários projetos ligados ao esporte, principalmente para criança e adolescente. Então, a gente pode usar também essas emendas para melhorar essas entidades, para que elas tenham mais condições de atender.
Corrêa Jr. - O valor das emendas, prioritariamente, na saúde, seria para Santa Casa, hospital ou áreas do gênero. E o que não é verba de saúde você mandaria para entidades?
Flávia Lancha - Isso. Eu vejo que as emendas são muito poucas. Elas não vão resolver problemas estruturais. Aí precisa de uma ação mais efetiva junto à Secretaria da Infraestrutura.
Corrêa Jr. - A deputada estadual ganha R$ 34.734 por mês, fora os assessores. Houve quatro reajustes em dois anos. Você vota contra ou a favor de um eventual novo projeto de aumento dos vencimentos dos deputados?
Flávia Lancha - Contra. É um compromisso para vocês aí que estão me ouvindo: com certeza, o que é hoje já é suficiente para um deputado ter um bom mandato e ser eficiente.
Corrêa Jr. - Franca foi muito prejudicada pelo tarifaço do Trump. 37,5%, 25% da primeira taxação e 12,5%, até com a acusação de trabalho escravo e outras imbecilidades. O café, que você representa, é cafeicultora, escapou da taxação. A carne escapou, as frutas — a gente não é uma região que produz muita fruta, mas também escapou. Mas o calçado foi atingido. O setor calçadista diz que as medidas adotadas pelo governo federal até agora não foram suficientes. Pelo governo do Estado também, o governo fez alguma coisa com o ICMS e com o Desenvolve SP com crédito também. O que o deputado pode fazer para ajudar?
Flávia Lancha - Bom, primeiro, o deputado estadual precisa atuar principalmente aqui. Franca ainda hoje é muito forte e depende do calçado, né? E, em questão de tarifa, é preciso que, junto de todo o setor, a gente atue em Brasília. É o único jeito: junto com o governador e secretários, para que a gente tenha um meio de conversar diretamente lá, de o pessoal conscientizar os Estados Unidos dessa questão e ver se tem algum meio da gente negociar. Acho que, nessa questão do tarifaço, nós temos dois pontos. Os Estados Unidos dependem do café do Brasil, era óbvio.
Corrêa Jr. - Não foi por mérito dos representantes do setor de café, porque os Estados Unidos são o maior comprador de café do mundo, maior consumidor de café do mundo, dependem do café do Brasil. O Brasil é o maior produtor de café. É muito mais próximo do Vietnã, que é o grande produtor do outro lado do mundo.
Flávia Lancha - Além disso, enquanto a gente produz 60, 65 milhões de sacas, o Vietnã é 20 milhões. Não tem jeito.
Corrêa Jr. - O Brasil abastece o café americano, não tem no mundo outro país que consiga, vamos dizer.
Flávia Lancha - Principalmente o café, que era ótimo. As pessoas me perguntavam: a tarifa para a gente não vai se sustentar, não vai se sustentar por quê? Porque tem a necessidade. É óbvio. O calçado, como não é o mesmo caso, infelizmente, a gente vai ter que trabalhar para o outro e trabalhar em outras frentes também.
Corrêa Jr. - Mas você não vê nenhuma medida governamental, além das que foram adotadas, que poderia ajudar estruturalmente o setor?
Flávia Lancha - É isso que eu queria dizer. Não só em relação a taxas, não só em relação a ICMS. O setor precisa se organizar melhor e precisa, principalmente, de outras ações. Por exemplo, deixa eu dar um exemplo: nós somos IG [Identificação Geográfica] do calçado. É muito mal explorado. Hoje todo mundo fala em turismo. O IG é um meio também de você trazer o turismo e é um meio de você mostrar a qualidade dessa origem. Tem o café aqui em Franca, tem o calçado e o café. O café a gente usa, explora; o calçado, não. Então, tem meios que a gente pode buscar, mas infelizmente não é usado. O que eu falo? Nós precisamos jogar dentro da cabeça do calçadista, para que ele ache outros caminhos, para outros projetos - e juntos, é claro. Principalmente, eu falo muito uma coisa, Júnior: se você quer ser voz, que é o caso, eu, como deputada de uma região, de uma cidade, eu preciso ouvir as pessoas. Então, a gente precisa trabalhar em conjunto. Eu vejo que hoje, em geral, todos os setores, não só calçadista, têm pouco espaço junto aos deputados.
Corrêa Jr. - Temos um deputado de direita e deputado de esquerda, nenhum dos dois têm feito essa interlocução próxima do setor?
Flávia Lancha - Não têm, nenhum dos dois. Porque eu tenho conversado muito. Eu tenho conversado com vários setores e essa é uma reclamação recorrente. E é interessante porque tem muitos que até têm histórias assim, falando: “Não sei nem quem são nossos deputados”. Quer dizer, se ele tem essa percepção, é porque ele não tem a percepção de que o deputado está lá para defendê-lo, está lá com as portas abertas. E isso vai ser um grande diferencial meu, você pode ter certeza disso.
Corrêa Jr. - Flávia, nos últimos três anos... A gente já falou de segurança pública, que é uma bandeira sua. Mas, nos últimos três anos, a letalidade policial em São Paulo dobrou em três anos. A gente saiu de 421 mortos em confronto com a Polícia Militar para 834 mortos. Quem critica diz que isso é brutalidade policial. Quem defende diz que é eficiência da polícia, porque o governador Tarcísio tem dito, morreu mais gente porque a polícia está fazendo o seu trabalho. Até a estatística mostra uma redução na violência, por mais que a gente não perceba essa redução, mas a estatística mostra. Na sua opinião, essa letalidade reflete uma polícia mais eficiente ou uma polícia despreparada?
Flávia Lancha - Bom, primeiro vou começar dizendo assim: morte, em nenhum caso, é o caminho. Essa é minha posição e eu não defendo nunca que a morte seja o caminho. Agora, eu diria que tem um pouco de cada um. Claro que, quando a polícia fica mais eficiente, quando ela entra mais nesses redutos, consequentemente vai ter mais violência, porque eles vão se defender. E, quando tem um confronto, vão ter mais mortes. Mas também eu acho que a gente precisa de mais informações e de mais preparo. Então, eu diria que tem um pouco de cada coisa.
Corrêa Jr. - Você defende as câmeras de monitoramento, as câmeras nas fardas policiais?
Flávia Lancha - Sempre. Cem porcento. E, além de tudo, ela até protege o próprio policial. Aquele policial que é correto, ele vai ser protegido.
Corrêa Jr. - Flávia, você falou do hospital estadual. Ele era uma promessa, virou realidade, a obra foi concluída. O governo do Estado anunciou várias vezes que seria um soft open e abriria aos poucos. Mas esse “aos poucos” está bem lento, porque a gente vê o hospital, mas continua vendo as filas. Na sua opinião, que tipo de fiscalização tem que ser feita? Que tipo de pressão tem que ser exercida junto ao governo do Estado para fazer isso funcionar mais rápido? Ou você acha que é assim mesmo, não tem o que fazer?
Flávia Lancha - Não, eu acho que a gente precisa, sim, pressionar. Eu tive até recentemente com o Ricardo Bessa, diretor da DRS. E, inclusive, ele me disse que tem feito um movimento grande, mas que está tendo muita dificuldade, porque ele fala que o dinheiro não está vindo. E aí que eu acho que o deputado pode ajudar: pressionar, fiscalizar. Nós precisamos. Não adianta a gente ter... A gente sabe que a saúde, o gasto é muito alto, que montar um hospital não é fácil, não é barato. Mas a gente sabe que o governo tem meios de fazer isso. Então, a questão é que nós precisamos, sim, fiscalizar, cobrar e pedir solução.
Corrêa Jr. - O Bessa te deu algum horizonte de como vai ser essa evolução?
Flávia Lancha - Ele falou que até o final do ano, agora em dezembro, embora a gente esteja muito perto, nós temos um problema, que é agora a eleição, campanha. Tudo para, né? Mas ele me disse que deve conseguir mais um tanto de leitos até o final do ano. Perspectiva de 80, mais ou menos? Mais ou menos. Essa é a perspectiva dele. O povo está cobrando diariamente, mas faz um mês, mais ou menos, que eu conversei com ele, então não sei como foi a evolução. Mas estou atenta também, viu? Porque isso não é só Franca, é região toda. Quando pensa em saúde em Franca, não dá para pensar em 360 mil habitantes. A gente tem que pensar em torno de 700 mil habitantes mesmo.
Corrêa Jr. - Outro ponto que se discute muito, e tem defensores e críticos na mesma medida, são as escolas cívico-militares. Você acha que é um bom programa e defende que elas sejam ampliadas ou acha que não é exatamente o caminho e defende outro tipo de modelo?
Flávia Lancha - Não, eu acho que é uma opção. Eu concordo, gosto da ideia como opção, não como uma transformação de toda a rede, totalmente, majoritariamente a rede. Mas, como uma opção, eu acho válido, porque aí a pessoa escolhe, né?
Corrêa Jr. - Vamos lá para privatizações. O Tarcísio entrou, prometeu na campanha que faria um amplo programa de privatizações, privatizou a Sabesp, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, e disse que vai continuar privatizando. Cada privatização é votada necessariamente pela Assembleia. Primeiro, quero saber sua opinião sobre a privatização da Sabesp. Você acha que foi um acerto ou um erro? E depois, sobre eventuais novas privatizações, caso seja deputada, como você votaria?
Flávia Lancha - Privatização da Sabesp, eu sou a favor. Hoje em dia, a expansão, principalmente no tratamento imediato do esgoto, em cidades que ainda estavam bem distantes, mas não está o ideal. E aí, sim, uma das funções do deputado é fiscalizar. Quando se privatiza, a gente precisa também fiscalizar, que é uma das funções. Então, a gente vê que tem, em alguns locais, que precisa de uma maior fiscalização para ver o que está sendo cumprido e o que está sendo cumprido no contrato.
Corrêa Jr. - Mas você votaria a favor de privatizações eventuais?
Flávia Lancha - Votaria a favor de privatização, claro que caso a caso. Não dá para falar: “Sim, eu sou a favor de todas as privatizações”. Mas, em geral, o conceito, eu sou a favor. Porque eu vejo que hoje o orçamento, em geral, é muito curto, e você sabe disso. Se o governo focar e fizer bem feito, olhar saúde, educação e segurança pública, ele está fazendo o papel dele, que vai melhorar o resto. Então, ele não precisa tomar conta de tudo. Ele precisa fazer bem feito o que a população, principalmente a mais carente e mais vulnerável, precisa.
Corrêa Jr. - Você cita nas suas redes sociais e entrevistas quase sempre a proximidade com o governador Tarcísio de Freitas e o vice Felício como um ativo. Nós vamos pegar dois exemplos que você criticou ambos. Você criticou uma deputada da base governista, a deputada Graciela, que vota 100% com o governo Tarcísio. E você disse que isso não tem produzido exatamente os resultados na opinião dos setores aqui da cidade. E o deputado Guilherme Cortez, que é de esquerda, que vota quase 100% contra o governo, também não tem os resultados. Qual é o seu caminho no meio dessa polarização toda?
Flávia Lancha - Não. O meu caminho, primeiro, eu acredito que a gente tem que votar mais pela população. Mesmo você sendo base de um governo, você tem que analisar caso a caso. Vai ter momentos em que eu sei que eu posso vir a votar contra o Tarcísio. Acredito no Tarcísio, acredito no Felício. É um amigo meu pessoal, inclusive. Mas o que acontece também, já que a gente está falando em criticar e elogiar, é que o Tarcísio é um cara muito técnico, que olhou muito para ações macros, mas deixou muito a desejar nos municípios, principalmente os pequenos.
Corrêa Jr. - Você concorda com essa crítica que é feita a ele, de que ele olhou para grandes projetos estruturantes e esqueceu o interior, o município?
Flávia Lancha - Concordo. Com certeza, concordo, porque eu vivenciei isso. Tanto é que eu levei muitos vereadores e prefeitos aqui da nossa região lá. Claro que a minha abertura 100% é com o Felício, a gente conseguiu algumas coisas, mas os prefeitos estão ainda hoje muito decepcionados com a atuação do governo Tarcísio. A gente veio de um governo anterior que ajudou muito os municípios, que era bem municipalista. E aí a visão do Tarcísio, ele veio do governo federal. E, é claro, é outra. Mas eu vejo que hoje ele está tomando consciência disso. Acredito que esse segundo mandato será muito melhor para os municípios e precisa ser.
Corrêa Jr. - Por que você acha que ele tem essa dificuldade? É óbvio, ele não é paulista, né? Ele é carioca. Até não tem nenhum problema, mas ele tinha realmente... e aí não teve demérito de governador. Mas ele tinha pouco conhecimento de São Paulo. Ele estudou muito, mas realmente a impressão que dá, para nós do interior — eu falo isso muito com os secretários, em conversas estaduais — é que ele demorou para entender a importância dessas demandas do município. Para ele pode parecer supérfluo ou menor, mas para o município não é. Para o prefeito não é. Para o vereador não é. Você acha que está caindo a ficha de que isso é necessário?
Flávia Lancha - Acho. Pela atuação que eu estou vendo hoje, que ela vem evoluindo no governo do Estado em relação a esse olhar. Eu estive muito junto, pedindo muita coisa aqui para a nossa região e, antes de fechar agora para a campanha, ele liberou muita coisa para vários municípios. E por outro lado, o vice dele, que é o Felício, foi prefeito. E ele sabe. Tanto é que todas as vezes que a gente esteve lá em São Paulo levando prefeitos e vereadores, ele mesmo disse: ele sabe a necessidade.
Corrêa Jr. - Chegou ao fato de que talvez o Tarcísio nunca ter sido. Tocou num ponto que não tinha pensado. Ele não ocupou um cargo eletivo, né? Ele foi ministro antes. Foi técnico, começou no governo da Dilma, foi técnico, foi ministro da Infraestrutura, mas ele realmente nunca foi vereador numa cidade, nunca foi prefeito. Talvez, por isso, ele tenha dificuldade de entender. Ele fica nessas obras grandes, como o trem intercidades, como o túnel lá do Guarujá, o rodoanel. Mas, na hora que vai para a coisa do município, os prefeitos reclamam.
Flávia Lancha - Não, com certeza ele tem muita dificuldade. E eu estou falando: o próprio Felício, que é o vice, inclusive, que ele mantém como candidato agora, falava isso. E ele vem da prefeitura, né? Em São José (dos Campos) fez uma diferença enorme. A gente estava falando em segurança lá, ele usou toda a tecnologia para melhorar a segurança da cidade. Então, ele entende os prefeitos, os vereadores. Mas eu acredito que, nesse segundo mandato, tudo mostra que o Tarcísio vai dar um pouco mais de espaço nos municípios.
Corrêa Jr. - Flávia, um outro ponto que tem sido muito discutido é que São Paulo, se não for o único estado, é um dos poucos que não liberou a venda de bebida alcoólica nos estádios de futebol. O pessoal do futebol reclama muito, diz que não dá para separar cervejinha do lazer de domingo. E aí os caras querem ir ao jogo e tomar uma cerveja. Tem gente que critica, diz que aumenta a violência, risco de acidente etc. Mas o Brasil inteiro pode estar resolvido, menos em São Paulo. É uma questão a ser votada pela Assembleia. Como você decidiria isso? E por quê?
Flávia Lancha - Não, eu vou defender... quem é a favor da cervejinha no campo. Claro que tudo é dosado. A gente vai ter aquelas pessoas que, em qualquer lugar - que não é só no campo de futebol - extrapolam. Mas hoje, o que a gente sabe, que eu acho que é muito bacana, são as famílias, mulheres e crianças indo ao campo de futebol. Com isso, você vai diminuir a violência e a pessoa pode tomar uma cervejinha. Então eu sou a favor.
Corrêa Jr. - Você tem uma coisa ligada também com o social. Você tem a Gima, o Icol, né? A Gima é gincana, o Icol é uma ONG, um curso de formação. E essas experiências de manter, ao longo dos anos, é uma vocação sua. Acho que disso dá para aproveitar em políticas de governo ou não faz parte dos seus objetivos repetir essas experiências?
Flávia Lancha - Eu acho que você trouxe algo muito importante. Por isso eu vou focar primeiro no instituto, né, que é a minha ONG, que capacita pessoas. Qual é um dos meus projetos? Transformar políticas públicas em uma escola de negócios. O que seria essa escola de negócios? Seria a capacitação, que é o que o meu instituto faz, mais ampliada. A gente ajudaria, através de profissionais, claro, a abrir uma empresa, a buscar no governo estadual um investimento com juros mais baratos, porque nós temos uma vocação para o empreendedorismo em Franca, principalmente. E o empreendedorismo dá autonomia à pessoa. Então, um dos meus projetos é baseado no meu instituto.
Corrêa Jr. - Mas como é que funcionaria isso na prática? Como é que você faria?
Flávia Lancha - Seria bom ter que fazer uma parceria, óbvio, com o município e usaria, por exemplo, alguns centros comunitários para que a gente dividisse esse custo, trazendo profissionais para cá. E hoje não é só isso. Você não precisa, inclusive, só de profissional que você precise pagar. Por exemplo, eu tenho dentro do Icol parcerias com Sebrae, Senai, Senac, que dão ótimos cursos, que têm uma capacitação enorme. A Secretaria de Desenvolvimento, o Jorge Lima, eu já conversei muito com ele. Ele fala: “Flávia, veja quais são os tipos de capacitação que Franca e região precisam, para que a gente consiga”. E aí consegue, sem custo, inclusive. Seria você levar profissionais para orientar e para dar essas aulas também.
Corrêa Jr. - Nós, falando aqui, você citou um secretário aqui, o Jorge Lima, do Estado de São Paulo. Eu já participei de alguns encontros com ele e, via entrevistas suas, percebe-se que ele é muito crítico da postura do calçadista. Ele acha que o setor tinha que ter uma postura muito mais ativa e desenvolvimentista, que às vezes eles reclamam muito e não fazem a parte deles. Você concorda com a reclamação do Jorge Lima? E de que forma essa ponte poderia produzir resultados?
Flávia Lancha - É a maior reclamação dele, aliás, desde a primeira vez que eu o encontrei em Franca, é essa. Por quê? Porque o setor é muito focado na questão do ICMS. Eu particularmente gosto muito dele porque, juntos, foi dentro da Labareda que surgiu a Rota do Café do Estado de São Paulo, virou uma política pública estadual. Então, eu não posso ser contra o Jorge Lima em nada. Eu particularmente gosto muito dele. Mas qual é a briga dele com o setor? É porque o setor é muito focado na questão do ICMS e ele fala: “Gente, tragam projetos, criem alternativas que eu ajudo vocês. Vocês são só focados na questão do ICMS”. Que, inclusive, com a reforma tributária, vai deixar de existir a guerra fiscal que o setor tanto briga. Aí eu acho que eles vão perder o motivo da briga.
Mas eu acredito, sim, acredito que com projetos - por isso que eu falei até agora - ouvir como é que a gente pode montar o setor foi exatamente o que eu fiz em questão do café. Quando o Jorge Lima esteve aqui a primeira vez, ele não sabia a força da cafeicultura do Estado de São Paulo. Aí eu levei ele lá na fazenda. E ele foi depois em Marília, em Ourinhos, e ele me ligou. Ele voltou aqui em junho e pediu para fazer uma reunião com o setor do café. E, antes dessa reunião, nós tínhamos uma pauta de várias demandas. Entre elas, estava a Rota do Café. E aí nós apresentamos para ele.
Estavam todos: a Cocapec, o sindicato rural, todos os setores representativos. E ali ele elogiou. Ele falou - ainda brincou: “Nossa, só vou falar com o setor do café que tem vários projetos, várias ideias, e o setor calçadista só me cobra ICMS”. Então é pensar. Se você perguntar quais são alternativas, eu não vou saber te dizer, mas dá para a gente sentar e pensar. Uma delas que eu acabei de falar: a IG, como usar melhor a IG para mostrar a qualidade do nosso café, do nosso calçado, assim como o café que já faz isso, usa a IG para mostrar a qualidade do café, porque é conhecida como café de alta qualidade etc. Por que não o calçado? Eu tenho andado muito, porque eu tenho visto a qualidade do nosso calçado. Mas falta uma união do setor para buscar essa visibilidade.
Corrêa Jr. - Mas uma das razões também dos problemas da região é a baixa renda per capita nossa. Mas aí eu pergunto: como é que esse [setor] não tem esse problema? Porque a gente exporta quase só commodities. Por exemplo, café: ninguém exporta café com marca. Exporta o café na saca. O que faz com que a gente ganhe muito menos do que poderia ganhar. A gente exporta sapato não nichado de alta qualidade. Muitos, por exemplo, dos calçadistas que mais estão reclamando do tarifaço, com relação à lógica deles, é aquele que produz em OEM para os Estados Unidos. Ele produz com a marca americana. Então só serve para aquilo lá, não dá para vender em outro lugar. A gente, no mundo, o que falta para conseguir exportar as nossas marcas, para ter tal valor agregado no produto?
Flávia Lancha - Um café... Falando mais especificamente do café. O que acontece ainda hoje? Acontece que o mercado interno ainda consome todo o café com marca, que é torrado, moído. Então, no geral, o cafeicultor prefere ainda colocar. Mas está tendo um movimento que é muito interessante. Quando eu comecei a exportar, a América do Sul não comprava café do Brasil. Comprava da Colômbia. Hoje não. E eles estão começando a comprar o café com marca.
Corrêa Jr. - Porque é curioso que, nos Estados Unidos especialmente, mas na Europa também... Até na última viagem, eu achei café da Alta Mogiana. Eu achei interessantíssimo. Mas normalmente você tem prateleiras nos supermercados, né? Muito café. E aí você tem lá regiões, tem café italiano, que tem várias [marcas], não tem um pé de café lá. A gente manda o café para lá, eles botam no pacote e têm o que fez exportação. E tem Colombia Coffee, né? Tem café da Colômbia. E não tinha café no Brasil. A gente não tem conseguido essa venda, o que acontece?
Flávia Lancha - O problema aí passa pelo governo federal. Por quê? Porque é muito ruim de marketing. É o que eu... eu até converso muito com o pessoal do café, responsável pela exportação do café, tanto de marca como o café em saco. E eles falam isso. O grande problema é que o Brasil é muito ruim em política, em relacionamento político e negociação em política externa. Então, falta isso também. Falta a gente ter uma abertura para isso. E o café ainda hoje, aí eu posso falar, é mais caro você exportar do que vender aqui. Vai vender aqui dentro.
Corrêa Jr. - Vamos para a parte final. Na sua opinião, houve ou não uma tentativa de golpe de Estado no final do governo Bolsonaro, terminando no 8 de janeiro?
Flávia Lancha - Bom, Junior, eu acredito que sim, mas eu acho que tem algumas coisas que precisam ser levadas em consideração. Primeiro, a questão das penas foi exagerada. Exageradas. Eu acho que tem que rever...
Corrêa Jr. - Você defende a dosimetria?
Flávia Lancha - Dosimetria. Por quê? Porque virou uma questão muito política. Era uma questão política, sem dúvida nenhuma. Mas aí, do outro lado, se a gente critica, por exemplo, que houve o golpe, por que não criticar também aquele que deu as penas, que foram penas exageradas? Então, eu sou a favor da dosimetria, sou a favor de rever essas penas, porque foram, em muitos casos, exageradas.
Corrêa Jr. - Vamos lá para o pinga fogo. Vou fazer uma série de perguntas aqui. Responde sim ou não, no máximo dá uma explicação para cada uma. É teste de sobrevivência. Anistia ampla aos envolvidos no 8 de janeiro: sim ou não?
Flávia Lancha - Bom, a gente acabou de falar. Ampla, não. Mas sou a favor da redução das penas.
Corrêa Jr. - Redução das penas?
Flávia Lancha - Com certeza.
Corrêa Jr. - O governo do Estado reduziu os gastos em educação. O obrigatório era 30%. Mudou a Constituição do Estado em primeira votação para 25%. O Tarcísio disse que liberou ali R$ 10 bilhões, que não precisa desse 5%. Você volta a vincular 30% ou mantém os 25%?
Flávia Lancha - Essa questão da educação é muito difícil, né? Mas Sim.
Corrêa Jr. - Sim? Você então volta para 30%.
Flávia Lancha - Sim.
Corrêa Jr. - Escola cívico-militar, você já disse: opcional. Câmera corporal gravando o tempo todo?
Flávia Lancha - Sem dúvida.
Corrêa Jr. - Novas privatizações?
Flávia Lancha - Sim, e depende. Claro, privatização é difícil dizer sim ou não.
Corrêa Jr. - Praças de pedágio em rodovias a serem duplicadas. Eu não estou falando de praças de pedágio em rodovias que já estão resolvidas. Novas, quando o governo diz: “Para duplicar, eu preciso de um pedágio”.
Flávia Lancha - Eu sou a favor. E eu vou te dizer por quê: se a gente quer uma melhor condição, olha as nossas rodovias aqui, que são duplicadas. Elas dão uma condição muito melhor, diminui o número de acidentes. Então, sim. Para manter as suas estradas, precisa. Não tem a gente querer as coisas sem pagar, pagar só o bônus sem os ônus, impossível né?
Corrêa Jr. - Votação nominal obrigatória em projetos polêmicos na Assembleia? Hoje, uma das grandes críticas que se faz é que, em grande parte das votações, são simbólicas, por acordo de liderança, e não se sabe nem como cada um votou.
Flávia Lancha - Com certeza, aberta.
Corrêa Jr. - Salários acima do teto constitucional?
Flávia Lancha - De jeito nenhum. Sem nenhuma exceção. Respeito ao teto.
Corrêa Jr. - Reforma administrativa do servidor público?
Flávia Lancha - Sim. Eu sou a favor da meritocracia. O bom funcionário tem que ser bem valorizado etc. O mau não tem condição, né? A gente que tem uma empresa privada: se você tem um mau funcionário, você não vai ficar com ele, né?
Corrêa Jr. - E, no serviço público, você acha que precisa ter flexibilização da estabilidade?
Flávia Lancha - Precisa.
Corrêa Jr. - Estado laico?
Flávia Lancha - Claro.
Corrêa Jr. - Para terminar, Flávia, um minuto.
Flávia Lancha - Bom, eu queria dizer para os eleitores em geral, primeiro, a importância de votar. Segundo, o quanto é importante votar em quem é daqui de Franca, que vai nos representar, que vai até lá levar as nossas demandas e trazer investimento. E dizer: veja, tenho uma história de vida, uma história de quem sempre fez história política por um projeto, porque eu acredito que, através da política, dá para fazer muito mais do que eu, como pessoa física, tenho feito a minha vida inteira. Então, o que eu quero dizer? Olhem em quem vocês estão votando. Vamos lá, pesquise a minha vida. E eu tenho compromisso com cada um de vocês que vai dar o voto de confiança para mim. Acredito. Eu quero ser uma voz, mas uma voz que vai fazer a diferença em Franca e região. Obrigada.
Corrêa Jr. - Obrigado, Flávia Lancha. Boa sorte na campanha.