13 de agosto de 2026
ARENA GCN

Mexer comigo é uma coisa, diz Haddad após PM seguir seu motorista

Por Pedro Dartibale | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Sampi/Franca
Pedro Dartibale/GCN
Fernando Haddad durante entrevista ao jornalista Corrêa Neves Jr. no Arena GCN

O ex-ministro da Fazenda e candidato do PT ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que seu motorista foi acompanhado por uma viatura da Polícia Militar após deixá-lo em sua residência e classificou o episódio como algo que precisa ser apurado. Em entrevista ao jornalista Corrêa Neves Jr., do Portal GCN/Rede Sampi, no podcast Arena GCN, nesta quinta-feira, 13, Haddad relatou que o motorista teria sido seguido até a região da Rua Tutóia e da Avenida 23 de Maio e informou que imagens da ocorrência foram encaminhadas à Secretaria de Segurança Pública.

Durante visita a Franca, o candidato também criticou a atuação que considera truculenta de setores da corporação, citou investigações envolvendo integrantes da cúpula da PM e falou sobre a relação entre o PT e a Polícia Militar. Haddad ainda defendeu maior integração entre as polícias estaduais e os órgãos federais, apresentou propostas para a segurança pública e apontou problemas na estrutura de segurança de Franca e do interior paulista.

Motorista teria sido seguido até hotel

De acordo com Haddad, a primeira abordagem ocorreu quando chegava em casa. Uma viatura teria utilizado um canhão de luz direcionado ao para-brisa do veículo para identificar quem estava dentro. Depois de constatarem a identidade dos ocupantes, os policiais liberaram a passagem.

O candidato afirmou que, naquele momento, não considerou o episódio anormal. "Se fosse só isso, nem registro mereceria", disse. A situação, segundo ele, ganhou outra dimensão quando soube que a mesma viatura havia acompanhado seu motorista depois que ele deixou a residência.

Haddad afirmou que o motorista entrou na Avenida 23 de Maio e seguiu por cerca de 4 ou 5 KMs até um hotel na região da Rua Tutóia. O local foi escolhido, segundo o relato, porque havia câmeras de segurança do estabelecimento e do sistema Smart Sampa.

O ex-prefeito da capital paulista afirmou que a viatura também chegou ao local e que os policiais emparelharam e encostaram no veículo. O motorista teria permanecido no hotel até se sentir seguro para sair e questionar o que estava acontecendo. "Meu motorista é um funcionário. Ele não tem vínculo nenhum com ação política. É um chefe de família, um trabalhador", afirmou Haddad, ao dizer que ficou especialmente incomodado pelo fato de a abordagem ter atingido uma pessoa sem relação com a disputa eleitoral.

"Eu fiquei assim, pô, um trabalhador. Pra mexer comigo é uma coisa, mexer com ele é outra coisa. Nada faz sentido, mas menos ainda com ele", completou Haddad.

O candidato relatou ainda que o motorista ficou abalado após o episódio e entrou em contato com pessoas que haviam trabalhado com Haddad durante a campanha. A equipe afirma ter encaminhado imagens da frente da residência à Secretaria de Segurança Pública, mas ainda não havia conseguido obter, segundo Haddad, as gravações do hotel e do Smart Sampa.

Haddad disse que pretende buscar as imagens para esclarecer o que ocorreu. Sobre uma eventual participação da cúpula do governo estadual, afirmou não acreditar, neste momento, que tenha havido uma orquestração envolvendo a alta liderança.

Segundo ele, não houve manifestação direta do governador Tarcísio de Freitas sobre o episódio. Haddad afirmou que recebeu contato do secretário de Segurança Pública e também procurou a pasta para relatar o caso.

Relação entre PT e Polícia Militar

A entrevista avançou para a relação entre setores da Polícia Militar e o PT. Questionado sobre a resistência de parte da corporação ao partido, Haddad afirmou que é necessário diferenciar críticas à atuação policial de uma posição contrária à PM.

Ele disse que o PT historicamente critica o que considera uso truculento ou desnecessário da força, mas defendeu uma polícia valorizada, bem remunerada, treinada e preparada para combater o crime e atender à população.

Haddad também citou a expressão "bandido bom é bandido morto" para argumentar que o partido sempre questionou ações que, em sua avaliação, ultrapassam os limites legais. "O PT sempre foi um pouco crítico à atuação truculenta. Nunca foi contra a Polícia Militar", afirmou.

Na avaliação do candidato, a discussão ganhou outro contorno diante de investigações envolvendo integrantes da própria estrutura de comando da segurança pública paulista.

Haddad cita investigações sobre crime organizado

Haddad afirmou que investigações do Ministério Público apontaram o envolvimento de algumas pessoas ligadas ao alto comando da Polícia Militar com integrantes do crime organizado. Ele citou o afastamento do comandante-geral da corporação como parte desse cenário.

Para o candidato, a situação representa algo diferente do histórico debate sobre abuso da força policial. "Algumas pessoas do alto comando estão envolvidas no crime organizado. Isso é uma coisa nova e inaceitável em São Paulo", declarou.

Questionado se considerava o governador Tarcísio de Freitas conivente com esse cenário, Haddad afirmou que não vê, na atual gestão, liderança suficiente para conduzir um processo de recuperação da segurança pública paulista.

Sensação de insegurança

O candidato reconheceu também uma dificuldade histórica da esquerda brasileira em tratar da segurança pública de forma a dialogar com esse sentimento da população.

Para Haddad, a resposta não deve se limitar ao aumento de penas. Ele defendeu maior capacidade de investigação e articulação entre os órgãos responsáveis pela segurança.

Gabinete integrado de segurança

Entre as propostas apresentadas para São Paulo está a criação de um gabinete institucional de segurança pública diretamente ligado ao governador. A estrutura, segundo Haddad, reuniria as polícias estaduais e buscaria integrar também Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos Estadual e Federal.

A ideia é transformar a cooperação entre os órgãos em uma prática permanente, e não em uma exceção. "Nós vamos fazer uma experiência prática em São Paulo de tornar a cooperação entre os órgãos de segurança a regra, e não a exceção", afirmou.

Haddad também declarou apoio à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública e defendeu maior participação do governo federal no enfrentamento da criminalidade.

Segundo ele, a proposta não significaria retirar atribuições das polícias estaduais, mas estabelecer um pacto federativo em torno do Sistema Único de Segurança Pública.

Estrutura de segurança em Franca

A situação específica de Franca também foi colocada em discussão durante a entrevista.

Haddad foi questionado sobre a ausência de uma estrutura efetiva da Polícia Federal na cidade. Também entrou em discussão a falta de uma unidade do Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) no município. A região depende do batalhão sediado em Ribeirão Preto.

Outro problema apontado foi o déficit de profissionais da Polícia Civil, incluindo delegados e investigadores.

Para Haddad, a situação de Franca representa uma questão que se repete em diferentes regiões do interior paulista e exige uma política estadual de reforço da estrutura de segurança. "Isso a gente pode repetir em várias regiões do Estado. O cenário é mais ou menos o mesmo", afirmou.

A proposta apresentada pelo candidato combina integração entre as forças, utilização de tecnologia, fortalecimento da investigação e ampliação da presença dos órgãos de segurança nas diferentes regiões do Estado.