O ex-ministro da Fazenda e candidato do PT ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que seu motorista foi acompanhado por uma viatura da Polícia Militar após deixá-lo em sua residência e classificou o episódio como algo que precisa ser apurado. Em entrevista ao jornalista Corrêa Neves Jr., do Portal GCN/Rede Sampi, no podcast Arena GCN, nesta quinta-feira, 13, Haddad relatou que o motorista teria sido seguido até a região da Rua Tutóia e da Avenida 23 de Maio e informou que imagens da ocorrência foram encaminhadas à Secretaria de Segurança Pública.
Durante visita a Franca, o candidato também criticou a atuação que considera truculenta de setores da corporação, citou investigações envolvendo integrantes da cúpula da PM e falou sobre a relação entre o PT e a Polícia Militar. Haddad ainda defendeu maior integração entre as polícias estaduais e os órgãos federais, apresentou propostas para a segurança pública e apontou problemas na estrutura de segurança de Franca e do interior paulista.
De acordo com Haddad, a primeira abordagem ocorreu quando chegava em casa. Uma viatura teria utilizado um canhão de luz direcionado ao para-brisa do veículo para identificar quem estava dentro. Depois de constatarem a identidade dos ocupantes, os policiais liberaram a passagem.
O candidato afirmou que, naquele momento, não considerou o episódio anormal. "Se fosse só isso, nem registro mereceria", disse. A situação, segundo ele, ganhou outra dimensão quando soube que a mesma viatura havia acompanhado seu motorista depois que ele deixou a residência.
Haddad afirmou que o motorista entrou na Avenida 23 de Maio e seguiu por cerca de 4 ou 5 KMs até um hotel na região da Rua Tutóia. O local foi escolhido, segundo o relato, porque havia câmeras de segurança do estabelecimento e do sistema Smart Sampa.
O ex-prefeito da capital paulista afirmou que a viatura também chegou ao local e que os policiais emparelharam e encostaram no veículo. O motorista teria permanecido no hotel até se sentir seguro para sair e questionar o que estava acontecendo. "Meu motorista é um funcionário. Ele não tem vínculo nenhum com ação política. É um chefe de família, um trabalhador", afirmou Haddad, ao dizer que ficou especialmente incomodado pelo fato de a abordagem ter atingido uma pessoa sem relação com a disputa eleitoral.
"Eu fiquei assim, pô, um trabalhador. Pra mexer comigo é uma coisa, mexer com ele é outra coisa. Nada faz sentido, mas menos ainda com ele", completou Haddad.
O candidato relatou ainda que o motorista ficou abalado após o episódio e entrou em contato com pessoas que haviam trabalhado com Haddad durante a campanha. A equipe afirma ter encaminhado imagens da frente da residência à Secretaria de Segurança Pública, mas ainda não havia conseguido obter, segundo Haddad, as gravações do hotel e do Smart Sampa.
Haddad disse que pretende buscar as imagens para esclarecer o que ocorreu. Sobre uma eventual participação da cúpula do governo estadual, afirmou não acreditar, neste momento, que tenha havido uma orquestração envolvendo a alta liderança.
Segundo ele, não houve manifestação direta do governador Tarcísio de Freitas sobre o episódio. Haddad afirmou que recebeu contato do secretário de Segurança Pública e também procurou a pasta para relatar o caso.
A entrevista avançou para a relação entre setores da Polícia Militar e o PT. Questionado sobre a resistência de parte da corporação ao partido, Haddad afirmou que é necessário diferenciar críticas à atuação policial de uma posição contrária à PM.
Ele disse que o PT historicamente critica o que considera uso truculento ou desnecessário da força, mas defendeu uma polícia valorizada, bem remunerada, treinada e preparada para combater o crime e atender à população.
Haddad também citou a expressão "bandido bom é bandido morto" para argumentar que o partido sempre questionou ações que, em sua avaliação, ultrapassam os limites legais. "O PT sempre foi um pouco crítico à atuação truculenta. Nunca foi contra a Polícia Militar", afirmou.
Na avaliação do candidato, a discussão ganhou outro contorno diante de investigações envolvendo integrantes da própria estrutura de comando da segurança pública paulista.
Haddad afirmou que investigações do Ministério Público apontaram o envolvimento de algumas pessoas ligadas ao alto comando da Polícia Militar com integrantes do crime organizado. Ele citou o afastamento do comandante-geral da corporação como parte desse cenário.
Para o candidato, a situação representa algo diferente do histórico debate sobre abuso da força policial. "Algumas pessoas do alto comando estão envolvidas no crime organizado. Isso é uma coisa nova e inaceitável em São Paulo", declarou.
Questionado se considerava o governador Tarcísio de Freitas conivente com esse cenário, Haddad afirmou que não vê, na atual gestão, liderança suficiente para conduzir um processo de recuperação da segurança pública paulista.
O candidato reconheceu também uma dificuldade histórica da esquerda brasileira em tratar da segurança pública de forma a dialogar com esse sentimento da população.
Para Haddad, a resposta não deve se limitar ao aumento de penas. Ele defendeu maior capacidade de investigação e articulação entre os órgãos responsáveis pela segurança.
Entre as propostas apresentadas para São Paulo está a criação de um gabinete institucional de segurança pública diretamente ligado ao governador. A estrutura, segundo Haddad, reuniria as polícias estaduais e buscaria integrar também Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos Estadual e Federal.
A ideia é transformar a cooperação entre os órgãos em uma prática permanente, e não em uma exceção. "Nós vamos fazer uma experiência prática em São Paulo de tornar a cooperação entre os órgãos de segurança a regra, e não a exceção", afirmou.
Haddad também declarou apoio à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública e defendeu maior participação do governo federal no enfrentamento da criminalidade.
Segundo ele, a proposta não significaria retirar atribuições das polícias estaduais, mas estabelecer um pacto federativo em torno do Sistema Único de Segurança Pública.
A situação específica de Franca também foi colocada em discussão durante a entrevista.
Haddad foi questionado sobre a ausência de uma estrutura efetiva da Polícia Federal na cidade. Também entrou em discussão a falta de uma unidade do Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) no município. A região depende do batalhão sediado em Ribeirão Preto.
Outro problema apontado foi o déficit de profissionais da Polícia Civil, incluindo delegados e investigadores.
Para Haddad, a situação de Franca representa uma questão que se repete em diferentes regiões do interior paulista e exige uma política estadual de reforço da estrutura de segurança. "Isso a gente pode repetir em várias regiões do Estado. O cenário é mais ou menos o mesmo", afirmou.
A proposta apresentada pelo candidato combina integração entre as forças, utilização de tecnologia, fortalecimento da investigação e ampliação da presença dos órgãos de segurança nas diferentes regiões do Estado.