“Vem do tupi-guarani/Este termo ‘aca-yu’ /Que é: ‘noz que se produz’/Da qual origina o caju/Nosso caju brasileiro/Que brota do cajueiro/Faz rico nosso menu.//Tupis marcavam os anos/De maneira singular/Na colheita do caju/Para a idade marcar/Usando sua façanha/Guardavam uma castanha/Num pote para contar.//Tem o cajueiro anão/E tem o gigante também/Anão vai a quatro metros/Mais de vinte o grande tem/Porém o maior do mundo/De Natal é oriundo/De Pirangi grande bem.’
Do Cordel de Dalinda Catunda
No dia 22 de julho deste ano realizei sonho antigo. Conheci ‘o maior cajueiro do mundo’ em Pirangi, cidade que dista 20 km de Natal. No momento em que descemos da Van e o avistei, uma velha lembrança, quase soterrada, evolou de algum esconderijo pela via de voz masculina adulta: “Mancha de caju não sai”. Outra, já desse século, ecoou da descrição de uma amiga em seu retorno de viagem: ‘Você tem de ir ver, ele é deslumbrante’. Na véspera de minha partida, jovem colega jornalista me disse que a árvore ganhou visibilidade internacional ao ser incluída no Guiness, o Livro dos Recordes, por conta de prova autêntica a partir de exames de DNA vegetal.
Por mais que estivesse abastecida de informações, até mesmo com a ajuda da Internet e todas as imagens disponibilizadas por ela, o que vi superou expectativas e a primeira impressão resiste impávida até agora, enquanto escrevo. Porque o que testemunhei foi um milagre da natureza: a única semente plantada por um pescador chamado Luís Inácio de Oliveira, em 1888, virou bosque que hoje olha o mar ali pertinho com o espírito contemplativo dos que sendo grandes também são generosos. Dizem sem prova consistente, mas com pungente poesia, que o pescador morreu aos 93 anos, debaixo da sombra do cajueiro que ali havia plantado.
Entramos. A grande família entrou. Para informar o turista há placas que devem ser lidas porque transmitem dados importantes. Ali aprendemos que a árvore cobre uma área de 8500 metros quadrados em forma de triângulo (embora eu ache que o desenho lembre coração), conforme mostram fotos áreas agora feitas com facilidade por drones. Seu tamanho poderia ser pensado como a equivalência de 70 cajueiros adultos e o fenômeno é explicado por uma mutação genética rara que faz os galhos, em vez de crescerem para cima, o fazerem para os lados até tocarem o chão. Com o tempo, eles começam a criar raízes e daí passam a crescer novamente, como troncos de nova árvore. O principal dividiu-se no início em cinco galhos e, desses, quatro sofreram a referida alteração genética e criaram raízes e troncos que deram origem a outros e assim sucessivamente construíram o gigantismo da árvore. Apenas um deles teve comportamento ‘normal’ e parou de crescer após tocar o solo. Bem-humorados, os locais deram-lhe o nome de ‘Salário Mínimo’.
Não consta das placas oficiais, mas o cajueiro continua crescendo, contou nosso guia. E causando polêmica porque metade da população defende poda lateral sob o argumento de que os galhos estão invadindo a pista de um dos acessos ao litoral sul e congestionando o trânsito; outra metade é contra porque teme que a poda possa comprometer e até matar o cajueiro, causando prejuízos à natureza e ao turismo potiguar, que leva milhares de visitantes ao local durante todo o ano e especialmente nos meses de dezembro e janeiro, época da safra que confere ao lugar a beleza dos frutos amarelos e vermelhos e o exalar do seu perfume.
Enquanto caminhamos devagar debaixo daquele magnífico teto verde, nos sentimos nas entranhas de um organismo extraordinário que produz incessante clorofila. Percebemos encantados a mansa luz solar dançando nas folhas grandes e enervadas e desenhando formas mutantes em nossos corpos e na quilométrica passarela de madeira. Atrás de nós e à nossa frente, turistas de diferentes regiões do país e alguns de sotaque estrangeiro, comunicam o mesmo espanto nosso sobre a forma como a árvore se expande com os galhos tocando a areia e criando raízes. Reúno as frases que os ouvidos recolhem aqui e ali e reflito sobre a peculiaridade desse ser vegetal que teve coragem de transformar sua solidão num ecossistema inteiro, numa mancha verde fascinante tornada indelével na memória dos que a conhecem, na metáfora recorrente de escritores e poetas populares que a usam para traduzir a resiliência e a criatividade não só do povo nortista, mas a de humanos de qualquer região, que diante do peso da vida conseguem fincar o pé e começar de novo, com renovada força.
A natureza está sempre me ensinando alguma coisa e conhecer este cajueiro me trouxe alguns aprendizados sobre a experiência humana. O primeiro deles me fez entender que se curvar diante das pressões da vida não é sinal de derrota, mas sabedoria necessária para cravar novas bases e continuar crescendo a partir de raízes inesperadas. O segundo, que muitas vezes aquilo que a cultura ou o indivíduo enxergam como limitação ou imperfeição pode ser o ponto de partida para construir uma trajetória única e grandiosa. O terceiro, que embora tantas vezes nos comportemos ilusoriamente como seres individualistas, na verdade compartilhamos as mesmas raízes humanas e sustentamos a mesma vida coletiva. Por fim, compreendi que por mais longe os galhos se estendam no espaço que os abriga, o tronco original permanece íntegro, majestoso, identificável no coração do terreno. E isso me soou como lembrete de que é possível expandir os horizontes, mudar de forma e ocupar novos espaços no mundo sem perder a identidade.