04 de agosto de 2026
CÂMARA MUNICIPAL

Rio Canoas: impasse leva Câmara a nova audiência pública

Por Pedro Baccelli | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Sampi/Franca
Divulgação/Câmara Municipal de Franca
Vereadores Fransérgio Garcia e Gilson Pelizaro, respectivamente

De um lado, um estudo encomendado pela Prefeitura de Franca para fundamentar o projeto de lei que regulamenta o uso da área no entorno do Rio Canoas. Do outro, empresários que defendem mudanças na proposta, especialmente para ampliar a possibilidade de novos loteamentos. No centro do debate estão os vereadores que, ao fim da sessão ordinária desta terça-feira, 4, esperavam sair com mais respostas do que dúvidas.
 
Diante das divergências — e da importância do tema —, a Câmara Municipal realiza nesta quarta-feira, 5, uma segunda audiência pública para discutir o projeto que trata do uso e da ocupação das áreas no entorno do Rio Canoas. O encontro deve reunir moradores, representantes de entidades, especialistas, proprietários de imóveis afetados e demais interessados no debate.

Presidente do Graprohab esclarece papel do Estado no projeto

A sessão ordinária desta quarta-feira contou com a presença do presidente do Graprohab (Grupo de Análise e Aprovação de Projetos Habitacionais), Lacir Baldusco. O órgão estadual é responsável por centralizar e agilizar a análise e a aprovação de projetos de parcelamento do solo urbano para fins residenciais, tanto públicos quanto privados, reunindo representantes de instituições como a SDHU (Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação), Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e SP Águas.

Baldusco esclareceu que, neste caso, o Graprohab não interfere na elaboração e na tramitação do projeto de regulamentação do uso da área na Câmara Municipal. Segundo ele, caso a proposta seja aprovada, o órgão atuará apenas na análise do licenciamento dos empreendimentos que vierem a ser implantados no local. “Nós não entramos no mérito do projeto. Não é uma atribuição do Estado. O Estado faz o licenciamento do empreendimento na região que ele é sediado e faz análise específica do empreendimento”. 

“A Cetesb em sua competência de preservação ambiental. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano no que diz respeito ao projeto urbanístico. A Sabesp no saneamento. Aprovado, a gente emite um certificado, que é uma estância meio. O certificado volta à área Franca, é apresentado na Prefeitura e aí a Prefeitura faz a aprovação final do empreendimento”, detalhou.

Embora tenha discursado por cerca de uma hora sobre o funcionamento do Graprohab, Baldusco afirmou, ao ser questionado pelos vereadores e pela reportagem, que desconhecia o estudo encomendado pela Prefeitura e que só tomou conhecimento da discussão sobre o Rio Canoas ao chegar a Franca. Por isso, disse não ter condições de contribuir tecnicamente com o debate.

O presidente do órgão limitou-se a alertar para que a futura legislação municipal não entre em conflito com as normas estaduais de preservação ambiental. Também defendeu a busca por um "meio-termo" que concilie os interesses de quem pretende empreender na região com a necessidade de preservar a área.

Vereadores pedem cautela e defendem respeito aos estudos técnicos

Após a manifestação do presidente do Graprohab, os vereadores reforçaram que a decisão sobre o projeto deverá considerar o estudo técnico realizado e a necessidade de preservar o manancial responsável pelo abastecimento de água da cidade, já que a definição das regras de ocupação é de responsabilidade do Legislativo e do Executivo.

O presidente da Câmara, Fransérgio Garcia (PL), reconheceu que o Legislativo tem recebido pressão para alterar parâmetros do projeto, principalmente em relação ao tamanho mínimo dos lotes permitidos na região. A redução do tamanho dos lotes permitiria a criação de mais unidades. 

"Estamos respaldados para votar diante desse estudo, mas estamos sofrendo pressão para que sejam alterados esses lotes e esses tamanhos. Temos que ter muito cuidado. Sou favorável ao desenvolvimento econômico, ao crescimento da cidade, à urbanização e à regularização de quem hoje está em situação irregular. Mas precisamos respeitar o estudo que já foi feito, porque podemos impactar gerações futuras", ponderou.

Para o vereador Gilson Pelizaro (PT), a principal preocupação deve ser a preservação da qualidade da água que abastece o município. "Franca hoje é reconhecida como uma das cidades com melhor qualidade de vida, e isso tem relação direta com a qualidade da água. Esse resultado depende tanto do trabalho prestado pela Sabesp quanto das leis de proteção dos mananciais. Precisamos tomar todo o cuidado para não abrir brechas que possam comprometer esse patrimônio", afirmou.

O parlamentar disse ser favorável ao crescimento da cidade e à atração de investimentos, mas defendeu que novos empreendimentos sejam direcionados para outras áreas caso exista qualquer risco ao sistema de abastecimento. "Sou favorável ao desenvolvimento e aos investimentos. Mas, se não for possível fazer naquela região, o município tem um território muito grande e outras áreas podem receber esses empreendimentos, sem colocar em risco a qualidade da água que a população consome", declarou.

Pelizaro acrescentou que a preservação dos mananciais exige investimentos permanentes e tem um custo para o município, razão pela qual a discussão deve ser conduzida com responsabilidade. "Manter a qualidade da água que temos hoje exige investimento e planejamento. Se houver qualquer possibilidade de ocupação naquela região, ela precisa garantir que essa qualidade será preservada. Não podemos abrir mão desse cuidado", concluiu.

Nova audiência pública vai discutir emendas ao projeto

Com dúvidas ainda em aberto para os vereadores, a Câmara Municipal promove nesta quarta-feira, às 18h, uma nova audiência pública para debater as emendas apresentadas ao Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 11/2026, que regulamenta o uso e a ocupação do solo na macrozona da bacia do Rio Canoas.

Pedido pela vereadora Marília Martins (PSOL), o encontro será realizado no plenário da Casa de Leis.