01 de agosto de 2026
CRÔNICA

As dunas

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN
| Tempo de leitura: 5 min

Não é por acaso que o Morro do Careca aparece na maioria dos cartões postais da capital do Rio Grande do Norte. Ele simboliza a identidade natalense. Localizado na Praia de Ponta Negra, a imensa duna de mais de 100 metros de altura, emoldurada pela vegetação de verde intenso em suas laterais, parece deslizar suavemente em direção às águas do Atlântico, como gigantesco tobogã.

Durante décadas foi ponto de encontro de corajosos e românticos: moradores e turistas subiam a pé suas encostas desafiadoras para se lançarem na brincadeira de escorregar ou contemplar o pôr do sol sob perspectiva extraordinária. Até que ambientalistas alertaram para o fato de que a paixão pelas dunas deveria compor com a consciência de sua fragilidade.

Então, desde a década de 1990, quando lá estive pela primeira vez, a escalada do Morro do Careca foi proibida para conter o processo erosivo e preservar a vegetação que contorna a duna. A proteção ao Morro redefiniu o olhar dos frequentadores a respeito das formações geológicas: passou-se do uso predatório à admiração responsável e à preservação consciente. Entretanto, a tentação é grande e o guardião silencioso e imponente da orla de Ponta Negra não se mantém intocado. As pegadas mostradas na foto acima, e que desapareceram minutos depois de a câmera fixar a imagem, revelam que os mais afoitos ainda tentam escalá-lo nas madrugadas a fim de contemplar lá do alto o raiar do dia.

Se o Sul da capital convida o olhar à contemplação, o Norte incentiva a aventura. Ao cruzar a Ponte Newton Navarro, maravilha da engenharia que corta a foz do Potengi, nome tupi que significa ‘rio dos camarões’, rumamos para o município de Extremoz, 60 mil habitantes, onde ficam as lendárias dunas de Genipabu. A mim elas lembraram pedacinho do deserto do Saara, do qual conheci pequena faixa no século passado, e à minha irmã remeteram aos Lençóis Maranhenses, que ela descreve emocionada como uma das maravilhas do mundo.

Genipabu, outro topônimo tupi cuja tradução seria algo como ‘lugar de genipapos’, nome de fruta com a qual se produz um licor, tornou-se conhecida dos telespectadores do Brasil e do Exterior porque foi cenário de novelas como ‘Tieta’, ‘O Clone’ e ‘Flor do Caribe’. Ali as dunas, que recebem a adjetivação de ‘móveis’ pelos geólogos, são chamadas de ‘moles’ pelos moradores. Faz sentido o oposto de ‘duras’ para monumentos naturais cujos desenhos sofrem contínuas metamorfoses. 

Formadas ao longo de milênios pelo acúmulo de sedimentos de quartzo trazidos pelas correntes marinhas e depositados nas praias, ganham vida pela ação permanente do vento. Soprando do leste de forma incessante, ele transporta os grãos finíssimos encosta acima, depositando-os suavemente até desenhar as cristas que adornam a paisagem, criando um relevo que se move e se transforma sem cessar, parecendo quase uma extensão do próprio oceano.

 “O vento é o escultor das dunas...’, diz Leo, marido de Tatiana, minha sobrinha viajante, psicóloga com um quê de filósofa, que completa a frase: ‘...e ele é um artista incansável’. De fato, é o vento contínuo que confere às dunas a encantatória mobilidade que bem poderia justificar o título de paisagem viva, pois o que se enxerga num momento não é o mesmo que se viu algumas horas atrás nem igual ao que se descortinará amanhã. Impossível à Talita, outra sobrinha, professora com alma musical e fã de Lulu Santos, não evocar a canção icônica: ‘nada do que foi será/ do jeito que já foi um dia/ tudo passa, tudo sempre passará.’  

Não me canso de olhar as dunas e imaginar contornos reconfigurados, pegadas apagadas, cumes redesenhados. Comove-me a característica que mais as define, a impermanência, e ouso uma metáfora para a vida, que tem de ser reinventada nas ventanias e vendavais, nos turbilhões e torvelinhos, nas rajadas e borrascas. Por outro lado, mirando as areias que brilham refletindo uma alvura que chega a desnortear olhos humanos, em contraste com as plácidas lagoas de águas doces e azuis que de repente aparecem entre uma elevação e outra, sonho as dunas como protagonistas de uma poesia coreografada ao ritmo do vento e sob o efeito da luz. 

Apesar do nosso êxtase expresso num desses instantes, um dos guias diz que é no final da tarde que a magia atinge o seu clímax. Não assistimos a tal espetáculo por conta de chuvas que caem de jeito inesperado nas tardes potiguares deste julho de invernada. Mas ficamos sabendo que quando o Sol se põe no horizonte, as dunas tingem-se de tons pastel, navegando do amarelo-ouro ao rosa, alaranjado e lilás. É quando as sombras projetadas pelas cristas criam relevos dramáticos, que contrastam com os cumes iluminados. ‘Nesses momentos até a moçada mais agitada fecha o bico para saudar o espetáculo’, crava o moço de formação universitária e defensor da natureza. Sua descrição garante nosso retorno breve a Natal, ali onde o continente sul-americano faz a curva e se lança ao Atlântico em largo abraço, no ponto preciso em que aquela parte das Américas acorda primeiro.

Os goianos Fábio e Elaine, amigos de Tati e Leo, também conosco nessa viagem onde a amizade representou forte componente para a alegria diária, comentam em certo momento que as dunas são a prova de que a natureza é capaz de construir monumentos perfeitos sem necessitar de cálculos, pedras, argamassa. Há que se concordar com eles e ressaltar a importância de manter intacto o ambiente para as futuras gerações, representadas no nosso grupo por três adolescentes(Gui, Dudu, Samuel) e duas crianças ( Nando e Gabriel) que estão conscientes de que preservar as dunas é garantir que outros também possam sentir o grão de areia quase impalpável sob os pés descalços, escutar o sussurro das ondas, experimentar o frescor de lagoas, deixar-se fascinar pela imensidão de um horizonte onde o deserto abraça o mar.  

Paisagens magníficas, as dunas teriam de percutir no coração de escritores potiguares e poetas populares anônimos como o autor dos versos abaixo que vi cravados numa tabuleta de bar: ’Na curva dourada de Genipabu/ O vento desenha montanhas no ar/ A duna é um deserto de sol e azul/ Miragem macia que beira o mar’. 

Voz literária importante é a de Zilá Mamede, que elegeu o mar, as areias e a geografia costeira como tema central de sua obra que tem uma escrita enxuta e sinestésica, como se pode apreciar no poema ‘Genipabu’: 

‘Areia, areia, areia:/o vento a constrói /e a desmancha. /A duna é um corpo/esguio e mutável/no dorso do mar./É o tempo esculpindo/formas de vento,/silêncio e brancura./Onda sobre onda,/mas feita de terra,/descansa e caminha.’